"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

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#PauloFreireMereceRespeito #PatonoDaEducaçãoBrasileira #PauloFreireSempre

quarta-feira, 8 de julho de 2020

É preciso parar de atribuir loucura a quem é perverso, por Marcel Camargo

É preciso parar de ficar aturando pessoas ruins com a desculpa de que são loucas. Loucura tem tratamento, loucura pode ser medicada, já a perversidade implica desvio de caráter.


Não existe remédio que aplaque a maldade do coração de uma pessoa, ou seja, só nos resta ignorar pessoas perversas e afastá-las de nossas vidas.
❝ Vivemos tempos difíceis.
Estamos todos inseguros e cheio de incertezas, sem saber qual rumo tomar.

Crises econômicas, políticas, dentre outras, somam-se às crises individuais e que fragilizam o emocional das pessoas. Nunca antes houve tantas pessoas com sintomas depressivos e tristeza generalizada.

Basta conversar numa roda de amigos, para perceber que calmantes e ansiolíticos fazem parte da rotina de muitos, assim como terapias e idas ao psiquiatra.

O consumo de álcool aumenta, o que nos dá uma ideia do quanto as válvulas de escape estão se tornando a saída para que amorteçamos os sentidos, diante de uma realidade que desagrada.

Não bastassem as conjunturas econômicas e políticas, também assistimos ao meio ambiente ser degradado, via extinção de espécies, temperatura do planeta em subida, desmatamentos impunes e lixo poluindo fauna, flora, terras, rios e mares.
❝ O mundo pede socorro, com fenômenos climáticos inesperados e o calor cada vez mais forte.
O verde está sumindo das cidades, dos campos, das florestas. Agonizam os animais, agoniza o planeta Terra.

Além de termos que amargar essas constatações, ainda ficamos estarrecidos com o comportamento de certas pessoas.

Além de lidar com o que fazem com a vida lá fora, também temos que lidar com o que fazem com as nossas vidas.

Tem muita gente maldosa, ruim, agindo de forma covarde e violenta, abusando, assediando, espalhando fofoca e destilando preconceitos de todo tipo por aí. E, uma hora ou outra, acabamos nós sendo alvo do veneno dessas pessoas sem coração, sem empatia, sem piedade.

Pessoas que abusam do poder e humilham seus subordinados, pessoas que espalham discursos de ódios contra segmentos sociais, pessoas que julgam com crueldade quem pensa diferente, pessoas que difamam os outros, destruindo vidas sem remorso.

Pessoas que gritam, que agridem, que não sabem ser contrariadas. Parecem loucas, mas, na verdade, são perversas.
❝ Não podemos normalizar comportamentos nocivos, dizendo que se trata de pessoas loucas.
Loucura é um comportamento em que a pessoa possui alteração mental, fugindo ao controle da razão.

As pessoas maldosas são perversas, porque suas faculdades mentais estão em ordem, mas são movidas pelo prazer em machucar os outros, em maldizer, em ferir, em espalhar discórdia e tristeza.

É preciso parar de ficar aturando pessoas ruins com a desculpa de que são loucas. Loucura tem tratamento, loucura pode ser medicada, já a perversidade implica desvio de caráter.

Não existe remédio que aplaque a maldade do coração de uma pessoa, ou seja, só nos resta ignorar pessoas perversas e afastá-las de nossas vidas, porque já temos problemas demais para ainda ter que aturar quem é um problema ambulante.
❝ Fique longe delas e seja feliz. Não tem outro jeito.


Pandemia de coronavírus: OMS reconhece risco de transmissão do coronavírus pelo ar

Organismo anuncia a publicação de um relatório elaborado ao longo das últimas semanas com base em “novas provas”

Maria van Kerkhove, diretora de emergências sanitárias da OMS. (FABRICE COFFRINI / EFE)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que há um número crescente de estudos e testes que mostram que a transmissão do vírus da covid-19 também ocorre por via aérea. Em sua habitual retórica ambígua, admitiu essa possibilidade durante a última entrevista coletiva realizada na tarde de terça-feira em sua sede de Genebra e anunciou a publicação de um relatório que resumirá todas as informações a esse respeito. Esta possibilidade, que não considera “definitiva”, foi o tema mais relevante do comparecimento dos diretores da OMS depois que 239 cientistas divulgaram uma carta aberta em que pedem ao organismo que aceite que o contágio do coronavírus pode ocorrer por via aérea e leve isso em conta nas suas recomendações.

“Acreditamos que devemos estar abertos a estas provas e compreender suas implicações com relação aos modos de transmissão e as precauções a serem tomadas”, admitiu Benedetta Allegranzi, diretora de prevenção e controle de infecções da OMS. Allegranzi acrescentou que a organização vinha desde abril dando atenção às contribuições destes cientistas especializados em aerossóis e transmissão aérea. No entanto, a cientista acrescentou que “há algumas provas novas, mas não é definitivo. Portanto, não se pode descartar a possibilidade de transmissão aérea em ambientes públicos, especialmente em condições muito específicas: lugares abarrotados, fechados, com pouca ventilação. Entretanto, a evidência deve ser reunida e interpretada”.

“Vínhamos falando da possibilidade de transmissão pelo ar e transmissão por aerossóis como um dos modos de transmissão da covid-19, assim como as gotículas”, explicou Maria van Kerkhove, diretora da unidade de zoonoses e doenças emergentes da OMS. “Emitiremos nosso relatório nas próximas semanas e isso resumirá tudo o que sabemos neste campo”, acrescentou. Há meses, especialistas em contágios por via aérea pedem à OMS que parta do princípio de que o coronavírus também é capaz de se manter em suspensão em partículas microscópicas de saliva e em questão de minutos acaba sendo aspirado por alguém no ambiente.

Na semana passada, 239 cientistas divulgaram um texto em que repassavam as provas científicas desta transmissão por vírus em suspensão: “Existem evidências mais do que suficientes para que se aplique o princípio de precaução. Para controlar a pandemia, à espera de dispor de uma vacina, devem-se interromper todas as vias de transmissão”. Estes especialistas não estavam descobrindo uma via principal ou inesperada; advertem que, sobretudo em ambientes internos, há situações em que se pode dar o contágio por aerossóis, essas pequenas partículas que permanecem em suspensão e podem infectar alguém. Em sua defesa, Allegranzi observou que as recomendações da OMS já incluem a necessidade de ventilar adequadamente os estabelecimentos comerciais e a conveniência de evitar lugares fechados, com muita gente e sem circulação de ar.



Um presidente limitado pelo egocentrismo, por Philipp Lichterbeck

Nem a infecção pelo novo coronavírus muda Bolsonaro. Ele a usa para fazer um pequeno show. Só lhe interessa mostrar que sempre teve razão sobre a covid-19.

Por Philipp Lichterbeck | Coluna Cartas do Rio - DW Brasil
Era o Jair Bolsonaro que todos conhecem: nada de humildade. Em vez disso, ostensivamente bem-disposto, ele anunciou para representantes da mídia previamente escolhidos que havia testado positivo para covid-19.

A pergunta central não foi feita por eles: como assim ele próprio anuncia isso, distante apenas alguns palmos dos jornalistas, com os microfones embaixo do seu nariz?

Bolsonaro, como "atleta", pode até não se sentir doente, mas ele, contaminado, é um risco para a saúde de outras pessoas. Mas nem os jornalistas nem Bolsonaro deram importância para isso, o que diz muito sobre o estágio de normalidade da doença no Brasil. E assim Bolsonaro transformou o anúncio de que está com covid-19 num show.

Ainda mais assustador: o presidente disse acreditar que já esteve contaminado bem antes, sem tê-lo percebido. Aqui a pergunta salta aos olhos: se é assim, por que desde o início da pandemia ele se encontra com pessoas nas ruas e em manifestações? Por que ele se reuniu com membros do governo e ministros? Por que foi festejar na embaixada dos EUA? E sempre sem máscara?

A resposta a essas perguntas só pode ser que o Brasil é governado por um homem cuja irresponsabilidade tem traços criminosos. A vida dos outros não lhe interessa, pois Bolsonaro só pensa em Bolsonaro. E não vai ser a contaminação pelo novo coronavírus que vai mudar isso – o que, em outras pessoas, teria despertado algo como empatia pelo sofrimento de outros doentes. Mas, para Bolsonaro, enquanto ele estiver se sentindo bem, isso é a prova de que a covid-19 não é perigosa e de que tudo está bem.

É verdade que a covid-19 não é o fim do mundo. Mas a doença teve e têm graves consequências para muitas pessoas e suas famílias. É fatal que o presidente esteja de novo passando a impressão de que se trata apenas de uma gripezinha, que pode ser curada rapidamente e sem efeitos colaterais, simplesmente tomando hidroxicloroquina (o que é desaconselhado por agências de saúde no mundo inteiro).

Pois o comportamento de Bolsonaro é imitado. Assim como, a partir dele, uma agressividade monstruosa penetrou no debate público brasileiro – palavrões e ameaças viraram algo normal –, é possível acompanhar como os apoiadores de Bolsonaro imitam seu "mito" no cotidiano e ignoram as recomendações das autoridades de saúde ou até mesmo as descumprem com um orgulho idiota. Se apenas a saúde deles estivesse em jogo, tanto faz. Mas se trata também da vida dos outros.

Há regras sociais que todos respeitam. Por exemplo parar no sinal vermelho. Quem não faz isso corre o risco de ser multado. O mesmo deveria valer para as regras durante uma pandemia, por exemplo, que todos acatem o comprovadamente sensato uso de máscaras. Mas não é assim que funciona no Brasil, pois cada cidadão cria suas próprias regras e faz o que acha que é certo. E assim age também o presidente, que nem infectado consegue entender a gravidade da situação.

Bolsonaro é um cidadão, mas é também o chefe de Estado, então é necessário avaliá-lo por outras medidas. Portanto, é errado apenas compadecer-se dele e lhe desejar boa recuperação. A extrema direita brasileira está explodindo de raiva e indignação por causa de um texto de Hélio Schwartsman na Folha de S. Paulo, no qual ele deseja a morte de Bolsonaro para salvar a vida de mais brasileiros.

Mas foi o bolsonarismo que tornou essa retórica normal no Brasil. Na Alemanha há um ditado muito apropriado: So wie man in den Wald hineinruft, so schallt es wieder hinaus ("O grito que se lança na floresta ecoa de novo para fora", com o sentido de "O que se deseja aos outros retorna para nós mesmos").

Por isso, é hora de relembrar algumas frases de Bolsonaro. Em 2015, por exemplo, sobre Dilma Rousseff: "Espero que o mandato dela acabe hoje, infartada ou com câncer, ou de qualquer maneira."

Ou desejando uma guerra civil com as palavras "matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."

Na campanha de 2018, Bolsonaro gritou histericamente: "Vamos fuzilar a petralhada."

Salta aos olhos a quantas pessoas ele desejou a morte ao longo da sua carreira política. Foi ele quem tornou normal esse linguajar no Brasil. O famigerado "e daí?!" quando lhe perguntaram sobre os milhares de brasileiros mortos por covid-19 é uma consequência disso.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro é hipersensível. Quando fala do atentado a faca, lágrimas lhe vêm aos olhos. Elas são a expressão de um egocentrismo implacável. 

Agora ele faz propaganda descarada da hidroxicloroquina, que supostamente teria lhe ajudado, apesar de não haver nenhuma prova de que ela realmente funciona. Sabe-se, porém, que esse medicamento pode provocar arritmia cardíaca. Se os brasileiros começarem a imitá-lo, poderia se chamar isso de um atentado à população.

A doença de Bolsonaro e a sua reação frívola, quase alegre, mostram como a morte se tornou normal no Brasil – nas estradas, por violência, por doenças.

O presidente não levou a covid-19 a sério desde o início. Agora ele tenta usar o próprio exemplo para mostrar que sempre teve razão. O egocentrismo desse homem violento tomou uma nação inteira como refém.


*Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.



segunda-feira, 6 de julho de 2020

Anti-intelectualismo: o empobrecimento do discurso e o governo da vontade, por Nathália Meneghine dos S. Rodrigues

Necessário grifar que estratégias antidemocráticas, como a do anti-intelectualismo, têm aderência num cenário onde condições históricas específicas foram, anteriormente, estabelecidas.

Por Nathália Meneghine dos S. Rodrigues | Artigos - GGN
Não é segredo para ninguém os ataques que escolas e Universidades Públicas vêm sofrendo nos últimos anos, mais especificamente, podemos usar o ano 2004 como o ano em que esse ataque ganha corpo, através da criação do Movimento Escola Sem Partido[1], que em 2015 se desdobrou em um Projeto de Lei. No entanto, não é óbvio na mesma medida, que não se trata de um fenômeno aleatório, nem mesmo que não se limita ao Brasil. Ao contrário, vários países do mundo, têm atravessado cenários de ataques a Educação e seus agentes, com métodos e discursos semelhantes.

Necessário grifar que estratégias antidemocráticas, como a do anti-intelectualismo, têm aderência num cenário onde condições históricas específicas foram, anteriormente, estabelecidas. Minar a realidade com teorias da conspiração e notícias falsas, fazem parte da “preparação desse terreno”.

Escolhemos tratar aqui do anti-intelectualismo, não só pela experimentação diária que vivenciamos do mesmo no Brasil atual, como pela especificidade de seu efeito de destruição, que incide sobre a Educação e a Linguagem, dois terrenos muito caros para qualquer sociedade que se pretenda, de fato, democrática.

Sendo assim, torna-se inevitável nos interrogarmos sobre as origens, extensão, e, sobretudo, do que se trata isso, que quer parecer aleatório e ‘fruto natural’ de reflexões de uma parcela da sociedade. Analisar e contextualizar as entranhas desses ataques, passa por desbastar os discursos, entender a estratégia, para que possamos – de uma melhor posição discursiva ou, ao menos, mais avisados – lidar com eles.

Para os Governos de ultradireita, adeptos aos princípios antidemocráticos, a escola deve se ocupar apenas de transmitir aos alunos a cultura dominante e versões de um passado mítico, como via de sustentação do mito de nação gloriosa (ultranacionalista). Isso, exige, que não exista terreno disponível para relações dialógicas, alteridade ou especialistas (que podem desmascarar as versões míticas e parciais). Nem mesmo, pode haver uma linguagem suficientemente elaborada para representar a realidade e suas complexidades.

Ou seja, as instituições acadêmicas são visadas como engrenagens fundamentais para que as narrativas totalitárias possam se instalar e prosperar num país. Controlar o que nelas se transmite é tarefa de primeira ordem dos que abusam do poder. E solapar a credibilidade dessas instituições, faz parte da estratégia de conquistar esse controle.

Embora nos afete a situação do que se passa no Brasil, esses ataques à Educação e a Linguagem, vem acontecendo em muitos países também: EUA, Hungria e Turquia são alguns exemplos disso. A defesa da “terra plana” não é produto, exclusivamente, nacional!

Jason Stanley[2](2020) faz um apanhado interessante desses ataques pelo mundo afora, e não deixa dúvidas de que não são aleatórios, ao contrário, são bem estratégicos. Reza a cartilha ultranacionalista: questionar a credibilidade das instituições, atacar o ‘politicamente correto’, questionar a estabilidade institucional de professores (concursados), selecionar as disciplinas acadêmicas (estudos de gênero são sempre excluídos, pois conflitam com a ideologia patriarcal do Fascismo), dizer que se faz “doutrinação comunista” nessas instituições, menosprezar a Ciência.

Para melhor exemplificar, temos o governador republicano Pat McCrory, na Carolina do Norte/EUA, quem em 2010 se dedicou a atacar o trabalho da Universidade da Carolina do Norte, dizendo que lá promoviam “ideologias tóxicas”, e sugeriu que alguns cursos fossem excluídos do currículo público. Adivinhem quais? Sociologia, Filosofia…

Na Turquia, em 2016, o presidente Erdogan demitiu mais de cinco mil reitores e acadêmicos de Universidades turcas, por suspeita de sentimentos ‘pró-esquerdistas’.

Qualquer semelhança, não é mera coincidência!

O ataque a ciência e o desprezo aos especialistas merece especial atenção, sem precisarmos nos deter em exemplos dessa operação no Brasil, já que as condutas do atual Presidente frente a pandemia de COVID19, são abundantes no negacionismo e nas tentativas de investir descrédito no discurso científico.

O menosprezo pela expertise científica é típico do ultranacionalismo, pois ela poderia vir a contestar todo o deslocamento da verdade engendrado pela política autoritária. Vejam, as estratégias são articuladas e interdependentes. Para sustentar a estratégia do passado mítico, faz-se necessário sustentar o anti-intelectualismo, e assim por diante.

Por sua vez, o anti-intelectualismo precisa degradar não só a expertise da Ciência, mas também degradar a Linguagem.

A impressão que temos de um discurso ‘rasteiro’, por vezes confuso e desencadeado, sem fidelidade aos fatos, apelando para expressões ‘chulas’, também fazem parte dessa estratégia. Dessa forma, não se concede espaço para o debate sofisticado, nem ao contraditório.

Vale lembrar que Hitler preocupava-se, sobremaneira, com empobrecer o discurso público, chegando a escrever em Mein Kampf: “A capacidade receptiva das massas é muito limitada, e sua compreensão é pequena; por outro lado, elas têm um grande poder de esquecer. (…) pontos devem ser destacados na forma de slogans.”

Em última instância, o objetivo da oratória, na política autoritária, não é convencer o intelecto, mas influenciar a vontade! Governar a vontade de seu povo é o objetivo de todo líder autoritário (o caminho para a idealização do líder e formação da massa, tratamos em texto anterior[3]).

No entanto, por mais efeito massificante que tenha a estratégia do anti-intelectualismo, há escapatória, já que a vontade (essa tão cobiçada), no sujeito, pouco governa.

Não obstante, o discurso anti-intelectualismo pode ser escutado como denegatório, portanto, os ataques direcionados à Academia são, justamente, as provas de sua relevância na sociedade brasileira para fazer frente ao abismo do assujeitamento, que um governo autoritário pretende.

O filósofo Vladimir Safatle, em 2019, discursou numa Conferência[4] sobre o tema ‘A psicanálise como modelo de crítica à sujeição social’, e destacou a consideração aos processos de socialização do desejo que produz feridas subjetivas, e ratificam a clivagem do aparelho psíquico. Isto posto, as dinâmicas de resistência deverão operar no sujeito e seu inconsciente.

O sofrimento do sujeito, seu mal-estar, e sintomas, dão testemunho da anulação de sua divisão subjetiva, que a violência totalitária pretende.

A saída, façamos nossas apostas, se faz pela via desejante. Pois, o desejo, esse sim, é revolucionário! Pelo seu discurso transgressor, nos convoca a sair da série. Como tão bem cantou Chico Buarque, anda nas cabeças, nas bocas, nos becos, nas idéias, nas fantasias, e “não tem governo, nem nunca terá”!

Por isso mesmo, resistir ao assujeitamento, ao apagamento do campo do desejo, passa pela sustentação da divisão do sujeito, onde há abertura para sustentar uma recusa aos modos de expropriação pulsional da política ultraliberal.

A reorientação da dialética na sua potência crítica se faz possível nesse campo. Distinta do discurso anti-intelectualismo que quer fazer massa harmônica e dócil.

A angústia – afeto verdadeiro – frente o assujeitamento com que, através de suas estratégias, a política autoritária nos acena, pode veicular a potência transgressora do desejo.

Circula por aí: “Ninguém tem mais força que os descontentes.”

[1] Programa Escola sem Partido, ou apenas Escola sem Partido, é um movimento político criado em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores do movimento afirmam representar pais e estudantes contrários ao que chamam de “doutrinação ideológica” nas escolas. Ganhou notoriedade em 2015 desde que projetos de lei inspirados no movimento começaram a ser apresentados e debatidos em inúmeras câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país, bem como no Congresso Nacional.

[2] Como funciona o fascismo: A política do ‘nós’ e ‘eles’/ Jason Stanley; tradução Bruno Alexander. – Porto Alegre (RS): L&PM, 2020.

[3] Notas sobre a aderência à propaganda antidemocrática. Disponível em: http://psicanalisedemocracia.com.br/2020/06/notas-sobre-a-aderencia-a-propaganda-antidemocratica-nathalia-meneghine-dos-s-rodrigues/

[4] Conferência de Vladimir Safatle – A psicanálise como modelo de crítica à sujeição social. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WFvU31VCpko.



sexta-feira, 3 de julho de 2020

Kennedy Alencar: Ao vetar máscara, Bolsonaro confirma que é genocida e Congresso precisa reagir

A justificativa presidencial para o veto, de que haveria violação de domicílio, está em sintonia com o absurdo argumento de que se trataria da defesa de direitos e garantias individuais, algo que Trump invoca nos EUA para não determinar o uso obrigatório da máscara no país.

O presidente Jair Bolsonaro é um genocida. A forma irresponsável e incompetente com que age na pandemia levou mais brasileiros a adoecer e morrer por covid-19 do que aconteceria se o presidente tivesse tido o mínimo de bom senso sanitário e político.

Bolsonaro merece o justo reconhecimento internacional de um dos piores líderes da pandemia. Está ao lado do colega americano, Donald Trump, na categoria de negacionistas da ciência que subestimaram o coronavírus e agravaram as tragédias em seus países.

O mais novo crime de responsabilidade de Bolsonaro foi vetar trechos da lei aprovada pelo Congresso que prevê o uso obrigatório de máscara durante a pandemia. Ele vetou a exigência do equipamento em igrejas, escolas e estabelecimentos comerciais. Assim, Bolsonaro abre brecha que torna a lei praticamente ineficaz.

Derrubar o veto de Bolsonaro é dever do Congresso Nacional. O Ministério Público Federal também deveria avaliar algum tipo de recurso judicial contra o veto até que os congressistas se manifestem. É caso de saúde pública que demanda uma resposta emergencial. Barrar Bolsonaro é salvar vidas.

A justificativa presidencial para o veto, de que haveria violação de domicílio, está em sintonia com o absurdo argumento de que se trataria da defesa de direitos e garantias individuais, algo que Trump invoca nos EUA para não determinar o uso obrigatório da máscara no país.

Ora, usar máscara em ambiente público é respeitar direitos e garantias individuais de outros cidadãos. Comprovadamente eficiente para reduzir a transmissão do coronavírus, a máscara aumenta a proteção às outras pessoas, não apenas a si mesmo.

O direito de não ser contaminado de forma irresponsável ampara jurídica e eticamente a obrigatoriedade do uso de máscara em ambientes públicos. Usar máscara não é uma questão de liberdade de expressão. Não se trata de uma discussão em que opiniões têm o mesmo valor.

(…)


Bolsonaro comete mais um crime sanitário perverso

Texto publicado originalmente na página do Facebook da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia - ABMMD - CE
O presidente Bolsonaro levou ao extremo sua "politica da morte" (necropolitica) e sua visão pervertida sobre a Covid19, ao favorecer a contaminção e, potencialmente, a morte das pessoas mais frágeis e vulneráveis.

Vetou artigos fundamentais da PL 1.562/2020, aprovada pelo Congresso Nacional, sobre uso obrigatório de máscara de proteção em ambientes públicos e privados.

Vetou o uso obrigatório de máscara em repartições públicas, em estabelecimentos comerciais, industriais e de ensino, em templos religiosos e demais locais fechados em que haja reunião de pessoas.
  
Vetou a obrigatoriedade destas instituições e estabelecimentos oferecerem máscara para seus funcionários e trabalhadores.

Vetou a obrigatoriedade do Estado de fornecer máscara para populações vulneráveis.

Vetou a aplicação de multas para o não uso de máscara em ambientes fechados e vetou o agravamento de multas para infratores reincidentes.

Esta decisão criminosa acontece num momento em que o país contabiliza 1.501.353 pessoas infectadas pelo coronavirus, incluindo mais de 80.000 profissionaisde saúde, 61.990 mortes e quando a epidemia está em franca ascensão e descontrolada.

O pervertido Presidente Bolsonaro contraria, propositadamente, a ciência, as boas evidências científicas e a Organização Mundial da Saúde, que consideram o uso da máscara facial como uma forma eficaz de reduzir a dissiminação do vírus Covid19 e de proteger melhor os trabalhadores e as populações mais vulneráveis.

O Congresso Nacional, com o apoio e respaldo das forças vivas da nação brasileira e em defesa da vida, precisa deter Bolsonaro e derrubar seu criminoso veto.

Bolsonaro, este genocidade e compulsivo "serial killer" de pobres e vulneráveis, por sua omissão ou ação deletéria ativa, precisa ser parado.

DERRUBA O VETO, CONGRESSO!

#FORA BOLSONARO

#IMPEACHMENTJÁ

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MÉDICAS E MÉDICOS PELA DEMOCRACIA - CEARÁ

Bolsonaro fez 245 ataques a jornalistas em 2020

De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas, foram 211 casos de descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a Fenaj em 2020
Jair Bolsonaro (Foto: Marcello Casal Jr - Agência Brasil)
247 - A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou nesta quinta-feira (2) um levantamento apontando que Jair Bolsonaro fez 245 ataques a jornalistas e a veículos de imprensa no primeiro semestre de 2020. De acordo com o site Congresso em Foco, foram 211 casos de descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a Fenaj, totalizando cerca de dez ataques por semana ao jornalismo.

Segundo a Fenaj, "os dados mostram que as notícias sobre as ações do governo ou a postura do presidente sobre diversos assuntos transformam a imprensa em sua ‘inimiga'", construindo uma narrativa de "ataques com o objetivo de promover a descredibilização do trabalho jornalístico e da credibilidade da produção de notícias". 

"Algumas vezes o presidente coloca a imprensa e os jornalistas como 'inimigos do País', por conta de coberturas que o desagradam", disse a entidade.

A Federação ponderou que não foram incluídos casos que denotam uma mudança de postura dele, no Twitter ou discursos oficiais, "em que Bolsonaro usa de expressões de ironia para se referir ao trabalho da imprensa, mas sem desferir ataques".

Confira os casos de ataques a jornalistas divulgados pela Fenaj



Desmatamento: Sob controle de Mourão e os militares, junho registra a maior queimada na Amazônia em 13 anos

Mais de 2,2 mil focos de queimada foram identificados segundo o INPE. Representando um aumento de 19,57% em relação à junho de 2019, registro é o maior desde 2007.

De acordo com dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), divulgados pelo próprio governo federal, o número de queimadas na Amazônia, no mês de junho, foi o maior dos últimos 13 anos. As queimadas vem crescendo cada vez mais na região amazônica e, até maio deste ano, a área desmatada já ultrapassou a marca dos 6000 km². A Amazônia, agora, possui, contabilizados, 2248 focos de calor neste último mês, um aumento de 19,57% ante aos 1880 registrado no mês de junho de 2019.

Com o início do mandato de Bolsonaro, o meio ambiente tem sofrido os mais duros golpes pelo governo, tendo explodido a questão, de modo geral, em 2019, quando, até então, as queimadas tinham registrado recordes e ocasionou um fenômeno assustador na cidade de São Paulo, onde o dia escureceu devido a fuligem oriunda da região amazônica. Com repercussão internacional, Bolsonaro se viu obrigado a dar um resposta onde afirmou mentiras que as queimadas estavam controladas e que o mundo não deveria intervir na questão.

O aumento das queimadas está diretamente ligado a atual gestão negacionista científica e climática do governo Bolsonaro, que cortou investimentos na área de preservação ambiental e é notório defensor e dependente da bancada ruralista e do agronegócio, estes que são os principais interessados na devastação da amazônia para lucrarem mais com a agropecuária. O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, é a figura que mais demonstra como o governo está contra o próprio meio ambiente e é subserviente aos ruralistas. Na reunião ministerial de 22 de abril, deixou claro os intentos o governo quando afirmou que o governo precisava aproveitar a situação de fragilidade do país devido a crise sanitária da pandemia do COVID-19 e “passar a boiada”, isto é, aprovar todas as questões de afrouxamento nas regras de preservação ambiental para que os ruralistas possam desmatar e destruir mais ainda o ecossistema.

O controle do desmatamento, agora, não está mais sob tutela do ministério do meio ambiente, mas sim das forças armadas no chamado Conselho Nacional da Amazônia, liderado pelo vice-presidente e general do exército, Hamilton Mourão, com as forças armadas empregadas nas ações. No entanto, todas as operações e medidas dos militares são inócuas no combate às queimadas e servem mais como um resposta de fachada, tendo números maquiados e inflados, contabilizando ações que nem mesmo tiveram o apoio militar. O decreto que, por meio da GLO (Garantia da Lei e da Ordem), emprega o uso das forças armadas, consome, por mês, dos cofres públicos 60 milhões, o equivalente a 80% do orçamento anual de fiscalização do Ibama. Ainda assim, as queimadas seguem aumentando, mostrando que os militares, não diferente dos demais integrantes do governo e do presidente, não tem interesse real em parar as queimadas, mas apenas em fazer um fachada para escoar dinheiro público para setores militares e demonstrar falsas respostas à crise das queimadas, enquanto enfraquecem cada vez mais os órgãos fiscalizadores e preparam caminho para passarem, de fato, a “boiada”.



A Lava Jato e as provas segundo a lei do eterno retorno, por Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

Vejamos algumas premissas que foram caras à Lava Jato nos tempos áureos em que seus integrantes eram vendidos como salvadores da pátria

Por Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)*
A teoria da lei do eterno retorno pressupõe a existência de energias que retornam infinitas vezes através do tempo, mantendo um padrão cíclico de certas recorrências.

O empréstimo do conceito filosófico não parece fora de questão, em vista da dificuldade dos procuradores da Lava Jato em aplicar a si os preceitos legais – e as premissas filosóficas – que eles esgrimem contra os outros. Parecem convencidos de que o pertencimento à Força-Tarefa Lava Jato os eleva a uma categoria que estaria acima do bem e do mal, o que também os eximiria de qualquer explicação, fundamentada nas normas positivadas do nosso ordenamento jurídico, sobre as denúncias que pesam sobre seus procedimentos.

Vejamos algumas premissas que foram caras à Lava Jato nos tempos áureos em que seus integrantes eram vendidos como salvadores da pátria:

1 – A lei vale para todos.

Essa máxima da Força-Tarefa rendeu até filme no tempo em que bastava a notícia de uma operação da Lava Jato para que algumas reputações estivessem imediatamente destruídas.

Pela lei do eterno retorno temos:

1.1 – que a lei não valia para os procuradores quando eles negociavam a troca de informações com agentes do FBI, procuradores da Suíça e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos – DOJ, escondendo suas ações da autoridade central que tinha a competência legal para permitir tais compartilhamentos, no caso o Ministério da Justiça do Brasil (Fonte: The Intercept, Agência Pública);

1.2 – que a atuação dos procuradores da Lava Jato, em sintonia com agentes do FBI, tinha, como pano de fundo, objetivos políticos que atendiam a interesses geopolíticos de governos estrangeiros. Tanto quanto se saiba, conspirar contra a democracia e derrubar presidentes nada tem a ver com as funções e prerrogativas de procuradores da república. A agente especial do FBI, Leslie Rodrigues Backschies, designada pelo FBI em 2014 para ajudar nas investigações da Lava Jato, confessou textualmente: “Quando você está olhando para oficiais estrangeiros em outros governos — quer dizer, veja, na Malásia, o presidente não foi reeleito. Nós vimos presidentes derrubados no Brasil.” E vimos a eleição, depois disso, de presidentes subalternos aos interesses dos Estados Unidos, faltou acrescentar.

2 – Os cidadãos tem o direito de saber o que os agentes públicos fazem.

Essa máxima foi largamente utilizada pela Lava Jato e pelo então juiz Sérgio Moro para vazamento seletivo de conversas e dados protegidos pelo sigilo. A quebra de sigilo mais emblemática foi o vazamento da conversa ilegalmente interceptada entre Lula e a presidente Dilma. Se ao menos tivessem sido honestos para vazar o áudio completo! Como se viu depois, na mesma conversa Lula relutava em aceitar o cargo de Ministro da Casa Civil, o que joga por terra a alegação da Lava Jato de que ele procurava o foro privilegiado ao assumir o cargo.

Agora os procuradores se negam a compartilhar dados solicitados pelo Procurador Geral da República. Utilizam o argumento – ridículo, diga-se de passagem – de que a prestação de informações depende de autorização judicial. O argumento só faz sentido a partir da ótica de quem se considera um órgão autônomo em relação ao Ministério Público Federal. Seria como um Auditor Fiscal da Receita Federal exigir decisão judicial para repassar informações, protegidas pelo sigilo fiscal, para uma Coordenação Nacional do órgão de fiscalização.

A atitude dos procuradores demonstra que eles se acostumaram a agir como quem não tem o dever, inerente a qualquer agente público, de prestar contas sobre a regularidade e legalidade de seus atos; pensam que integrar a Força-Tarefa, seria por si só, a prova de que nada precisam explicar a ninguém, pois isso teria o condão de os colocar fora do alcance de qualquer auditoria ou controle.

3 – Toda denúncia tem de ser investigada

Essa máxima foi exaustivamente repetida para justificar operações contra políticos a partir de qualquer tipo de denúncia. Fazia parte dos esforços para, nas palavras de Deltan Dallagnol, destruir o sistema político e judicial. Deltan planejava inclusive um monumento à Lava Jato com três colunas. Após a conclusão dos trabalhos ficaria em pé apenas a coluna da Lava Jato, ao tempo em que “Os dois [pilares] derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…”.

A roda da história andou e agora os fatos se apresentam tal qual aconteceram. Necessário se faz portanto recorrer à máxima tanto alardeada pela Lava Jato de que tudo deve ser investigado. Apenas como exemplos:

3.1 –  o empréstimo de provas a autoridades de países estrangeiros, que resultaram em graves prejuízos para empresas brasileiras, sem que isso fosse do conhecimento das autoridades soberanas no Brasil (Ministério da Justiça) que teriam a competência legal para fazer esse intercâmbio. Pelo menos duas empresas foram duramente atingidas com essa atuação: a Petrobras e a Odebrecht. As duas tiveram multas aplicadas pelas autoridades estrangeiras, por conta da colaboração da Lava Jato, em montantes que, em valores atualizados, superam os R$ 30 bilhões. A Odebrecht teve que demitir quase 200 mil empregados; em 2019, praticamente falida, pediu recuperação judicial. Há ainda denúncias de que as planilhas da Odebrecht foram alteradas, o que configuraria obtenção ilícita de provas;

3.2 – todos os condenados pela Lava Jato (pessoas que tinham cometido crimes, segundo os investigadores) puderam fazer delações premiadas. Mas o “benefício” nunca foi concedido a Tacla Duran; sua palavra e suas provas não valiam porque para a Lava Jato se tratava de um criminoso. Por que nunca foram investigadas as denúncias de Tacla Duran sobre a existência de uma indústria de delações premiadas junto à Lava Jato de Curitiba?

4 – As pessoas nos cargos de comando e coordenação são responsáveis pelos ilícitos cometidos pelos seus subordinados

Nos autos da Operação Furna da Onça, coordenada pela Lava Jato do Rio de Janeiro, constava um relatório COAF de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro, com uma movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão;

nem Queiroz nem Flávio Bolsonaro foram investigados pela operação;

o relatório COAF do Queiroz era parcial, contemplando apenas o ano de 2016;

todos os demais investigados na operação tiveram um período investigado de quatro anos;

o valor total da movimentação suspeita de Queiroz, confirmado por relatórios COAF suplementares solicitados pelo MPRJ, superou  R$ 6 milhões;

o primeiro relatório COAF (parcial) do Queiroz foi o motivo que justificou a não inclusão de Queiroz e Flávio Bolsonaro entre os alvos da operação Furna da Onça.

Aplicando-se a máxima de que quem está no comando deve ter conhecimento dos atos praticados por seus subordinados, e tendo em vista que a operação Furna da Onça foi coordenada pela Força-Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro, por que constava para Queiroz a movimentação financeira suspeita de apenas um ano se para os demais investigados o período era de quatro anos?

Se a coordenação da Lava Jato na Operação Furna da Onça foi induzida a erro, por ação de algum agente, por causa do relatório parcial do Queiroz (o qual motivou a exclusão de Queiroz e Flávio Bolsonaro da lista de alvos), por que a Coordenação não tomou providências para apurar as responsabilidades depois que o vazamento do relatório COAF do Queiroz foi publicado em dezembro de 2018?

Esses poucos exemplos são suficientes para demonstrar que não está em curso um movimento de ataques à  Lava Jato. As denúncias não ocorrem por motivos fúteis ou políticos. São evidências e fatos que falam por si.

Fosse um ataque descabido, motivado apenas por disputa de espaço político, a Lava Jato teria a oportunidade de esclarecer todas as dúvidas aplicando para si as premissas que ela utilizava contra as pessoas e empresas que ela investigava: quem não deve não teme.

Mas a Lava Jato prefere adotar a estratégia diversionista de alardear, com o apoio de seus antigos sócios da mídia hegemônica, que seus adversários querem destruir a autonomia investigativa dos procuradores. Querem de volta aquela autonomia de quando autorizaram a criação de uma Fundação que seria por eles administrada, tomando R$ 2,5 bilhões de dinheiro público que lhes seria repassado pela Petrobras. Não fosse o acordo da Fundação Lava Jato ser suspenso pelo STF, teriam os procuradores um orçamento maior que qualquer partido político.

A Lava Jato parece ter se congelado no ano de 2016, quando o nome tinha virado uma quase unanimidade e qualquer voz crítica era silenciada.

De lá para cá muita coisa mudou: derrubaram a presidente do Brasil (nas palavras da agente Leslie, do FBI, que colaborava com a Lava Jato), quebraram as empresas de engenharia e da indústria naval, destruíram os projetos nacionais de energia termonuclear (todos itens de interesse estratégico do governo estadunidense), e finalmente elegeram um presidente subalterno aos interesses dos Estados Unidos.

Depois veio a série Vaza Jato, onde o The Intercept Brasil mostrou como a Lava Jato funcionava por dentro.

Portanto, nada indica que em 2020 essas manobras diversionistas tenham o efeito mágico de remendar o antigo véu de santidade que protegia a Lava Jato. Chegou a hora dos procuradores apresentarem argumentos técnicos consistentes e provas de que procederam conforme a lei, que não investigavam de forma seletiva pessoas e empresas e, principalmente, que não agiram contra os interesses nacionais.

*Coletivo de Auditores Fiscais da Receita Federal, Receita Estadual, Receita Municipal e Inspeção do Trabalho, comprometidos com a defesa do Estado de bem-estar social, a democracia e a preservação e fortalecimento das instituições essenciais do Estado.



quarta-feira, 1 de julho de 2020

O quase ministro: Mais um fracasso dos militares. Por Moisés Mendes

Sinal de que os militares não têm nem mesmo bons informantes que possam alertar: cuidado, aquele não.

Carlos Alberto Decotelli
Poucos se lembram do programa Pró-Brasil, apresentado pelos generais e derrubado por Paulo Guedes e pelos empresários como algo anacrônico dentro de um projeto de radicalização do liberalismo entreguista.

Na famosa reunião ministerial do dia 22 de abril, aquela da boiada do Salles, dos vagabundos do Weintraub e das hemorroidas de Bolsonaro, Guedes chamou de ignorante o autor do programa, que apresentou e definiu sua ideia como uma espécie de Plano Marshall.

Guedes alertou, em tom professoral, como se estivesse falando com o pior aluno da sala de aula:

– Não chamem de Plano Marshall porque revela um despreparo enorme.

Pois o pai do tal plano de retomada do desenvolvimento, baseado essencialmente em investimentos estatais, é o chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto.

E Braga Netto, sempre apontado como tutor de Bolsonaro, foi quem, com o apoio de outros generais, apadrinhou a indicação do que deveria ter sido o novo ministro da Educação.

Foi ele quem apresentou Carlos Alberto Decotelli a Bolsonaro. O homem dos títulos falsos seria um nome para moralizar o Ministério, sem influência dos fundamentalistas.

Braga Netto teve azar. O programa Pró-Brasil parece enterrado e agora seu afilhado saiu sem ter entrado.

Decotelli apresentou-se como se fosse uma joia que o bolsonarismo tinha escondido em um relicário, para usá-la na hora certa.

Negro, conservador, professor com muitos títulos e respeitado pelos militares como oficial da reserva da Marinha. Não era nada disso. Nem oficial da reserva Decotelli é.

A direita parece ter um projeto de poder, até parece ter métodos, mas não tem quadros.

Decotelli era o que parecia ser e todos pensavam que talvez fosse, ou dito de outra forma: não era o que pensavam que outros achavam que seria. Ok, é complicado saber o que ele é.

O candidato era vagamente conhecido de Paulo Guedes e dos militares, por ser bom de fala, mas era na verdade apenas um sujeito disponível que alguém viu passar e pensou: e o Decotelli?

Às vezes funciona, não muito com, Bolsonaro. Foi assim com Vélez Rodriguez, com Abraham Weintraub e agora com Decotelli.

Sinal de que os militares não têm nem mesmo bons informantes que possam alertar: cuidado, aquele não.

Os generais de 64 tinham tantos informantes que, no time de civis e militares que levaram para os governos, só havia a elite da elite. Os medianos eram exceção. Os medíocres se protegiam no brilho dos quadros de primeira linha.

O bolsonarismo é tão raso que não consegue nem mesmo escolher um ministro, numa sequência de erros em que o sucessor é sempre pior do que o antecessor.

*É jornalista em Porto Alegre. Foi colunista e editor especial de Zero Hora. Escreve também para os jornais Extra Classe, DCM e Brasil 247. É autor do livro de crônicas 'Todos querem ser Mujica' (Editora Diadorim)