"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Governo inicia pagamento do 'Renda Pará' na próxima sexta-feira (20)

Até 30 de dezembro, cerca de um milhão de famílias serão beneficiadas com o valor

Por Bruno Magno (CPH)
Foto: Bruno Cecim / Ag. Pará

O Governo do Pará inicia, na próxima sexta-feira (20), o pagamento dos benefícios do Programa Estadual Extraordinário de Renda, o “Renda Pará”, que dará aos beneficiários paraenses do "Bolsa Família", um incremento de renda no valor de R$ 100 (pagos em cota única). A logística de pagamento ficou a cargo do Banco do Estado do Pará (Banpará), com administração da Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), e ocorrerá de acordo com o mês de nascimento de cada um. Até 30 de dezembro, cerca de um milhão de famílias serão beneficiadas com a quantia.

Para receber o benefício, o cidadão deverá entrar no site do banco, a partir da próxima quinta-feira (19), para conferir o calendário de pagamento. Quem mora em municípios onde não há agência bancária, deverá se dirigir a qualquer agência do banco público e receber o pagamento por meio de um recibo nominal. Hoje, o Banpará está presente em 113 dos 144 municípios paraenses, totalizando 128 agências no Estado inteiro.  

"Esse pagamento vai garantir um Natal mais feliz para cerca de um milhão de famílias paraenses. O governador Helder Barbalho, sensibilizado pela crise da pandemia, não podia ter outra atitude senão ajudar essas pessoas. O Banpará criou uma logística grande para garantir o benefício em 128 agências dos 113 municípios do interior do Estado, já que nos próximos dias pretendemos entregar as agências de Bannach, Ruropólis e Ulianópolis", destaca Braselino Assunção, presidente do Banpará. 

Para o beneficiário conferir o calendário de pagamento, basta entrar no site do Banpará. 

Sobre o programa - O “Renda Pará” foi sancionado no final de outubro, pelo governador do Estado, Helder Barbalho. O programa foi criado por meio do Projeto de Lei 266/2020, aprovado também em outubro pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), com investimento de R$ 100 milhões do Tesouro Estadual.




Queijo do Marajó em prêmio internacional



A Associação de Produtores de Queijo e Leite do Marajó foi uma das vencedoras do concurso "Transformando Vidas", do Programa AL-Invest 5.0 , que premia histórias de sucesso, a mais importante cooperação internacional financiada pela União Europeia para o setor empresarial da América Latina. Oito empresas funcionam em Cachoeira do Arari, Muaná, Ponta de Pedra, Salvaterra e Soure, todas do arquipélago marajoara. O Pará produz anualmente cerca de 65,5 toneladas de queijo artesanal certificados pela Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará). 

Para ser comercializado, todo produto de origem animal deve ter registro junto à esfera municipal, estadual ou federal. A diferença implica diretamente na abrangência da autorização para a venda, que pode ser restrita ao município onde há a produção ou ampliada para o mundo. A lei nº 7.565/2011, regulamentada pelo Decreto Estadual nº 1380/2015, permite que pequenas indústrias recebam o selo de produto artesanal, que garante a segurança alimentar e agrega maior valor na comercialização. O selo de inspeção é emitido para as empresas que obedecem a todos os critérios de sanidade. O órgão de fiscalização faz o monitoramento microbiológico do produto, avaliando a qualidade de todo o processo e do produto final. Toda a merenda escolar deveria incluir esses alimentos para fazer circular a renda dentro do Pará e incentivar a cadeia produtiva. Ao invés disso, prefeitos e a Seduc preferem enlatados e processados que só fazem mal à saúde dos estudantes e à economia do Estado. O Ministério Público do Estado do Pará - MPPA deveria ser atento a essa questão.

Consumir alimentos sem registro traz risco de contaminação por bactérias; no caso do queijo, a Listeria monocytogenes, causadora de Listeriose, infecção com alto índice de mortalidade, especialmente perigosa para grávidas, bebês e pessoas com sistema imunológico prejudicado. Dica para os pequenos produtores, que devem se organizar em cooperativas e procurar assessoria gratuita do Sebrae Pará: no site da Adepará, há modelo de requerimento para solicitar o registro, presencialmente, na sede da Agência, em Belém, ou no escritório mais próximo.




“Não ser racista não é suficiente. Você tem que ser antirracista”, diz Lewis Hamilton

Piloto britânico diz ainda estar traumatizado com o assassinato de George Floyd. "Trouxe muita emoção reprimida", afirma

Por Luisa Fragão

Foto: Dan Istitene/Formula 1

O piloto britânico Lewis Hamilton, considerado o maior campeão da história da Fórmula 1, afirmou em entrevista ao The Guardian que ainda está traumatizado com o assassinato de Goerge Floyd nos Estados Unidos. Para ele, a cena trouxe à tona muitas emoções reprimidas.

“Assistir George por aqueles oito minutos e 30 segundos, como para tantas pessoas, trouxe tanta emoção que eu nem percebi que havia obstruído e reprimido ao longo daquele tempo”, afirmou ao jornal.

Ele diz, no entanto, que a morte do homem negro lhe impulsionou na luta antirracista. “Competir e ganhar campeonatos é uma coisa ótima, mas o que isso realmente significa? Não significa nada, a menos que você possa ajudar a empurrar para a mudança. Não posso ficar em silêncio durante este tempo. Decidi que devo usar esta plataforma. Há tantas pessoas por aí que estão lutando e tantos que passaram pela minha experiência, ou pior”, afirma o piloto.

“Não ser racista não é suficiente. Você tem que ser antirracista. Você tem que ser contra o racismo e apoiar esses movimentos”, completou Hamilton.

O piloto também comentou sobre o racismo na Fórmula 1, esporte dominada por pessoas brancas. Ele afirma que, como homem negro, é obrigado a ter cautela com tudo o que diz.

“Eu estou em um esporte dominado pelos brancos e, como você sabe, você tem que ter muito, muito cuidado com a forma como você aborda isso, o que você diz, porque as pessoas vão virar suas palavras contra você na maioria das vezes”, explica.

Há meses Hamilton vem demonstrando abertamente seu apoio à luta contra o racismo e a movimentos como o Black Lives Matter. Desde o assassinato de Floyd, Hamilton costuma se ajoelhar no chão após as corridas com um dos braços erguidos e punho cerrado, símbolo da luta antirracista.



Apesar do discurso no Brics, foi Bolsonaro quem flexibilizou regras para exportação de madeira

O discurso do presidente foi transmitido durante a cúpula do Brics, em formato virtual. Ou seja, a prática do governo não condiz com o discurso do presidente.

Apesar do discurso no Brics, de que iria expor os países que compram madeira ilegal da Amazônia, o próprio Jair Bolsonaro, em atos recentes, flexibilizou a fiscalização nacional. O discurso do presidente foi transmitido durante a cúpula do Brics, em formato virtual. Ou seja, a prática do governo não condiz com o discurso do presidente.

Quando começava a pandemia no Brasil, o Ibama deixou de fazer inspeções nos portos do país. Isso foi em março deste ano. Quando cessaram as inspeções, os madeireiros do Pará parabenizaram o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, com ‘nota de agradecimento e esperança’, no Centro das Indústrias do Pará, por ter liberado exportação de madeira de origem nativa, sem a necessidade de uma autorização específica.

O Ibama cessou os efeitos da instrução normativa 15/2011 do próprio órgão. Assim, os produtos florestais passaram a precisar somente de um documento de origem florestal (DOF), que existe desde 2006, e serve somente para que a madeira seja levada até o porto, e depois estaria sob a liberação da instrução normativa para exportação.

O próprio Ibama soltou nota técnica distinguindo a licença de transporta da autorização de exportação. Era a instrução que certificava origem e fazia o controle da exportação. Os madeireiros defenderam o fim da instrução normativa, por ter ‘caducado’ pela vigência de novo recurso, o Sistema nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais, de 2014.

Ato contínuo, o presidente do Ibama suspendeu a instrução normativa de 2011. E, na prática, o que passou a valer como autorização de exportação do Ibama era uma guia de transporte estadual.

O mercado brasileiro de madeira é marcado pela ilegalidade. A extração irregular representa cerca de 90% daquilo que é exportado. Dentro do que é rastreável neste comércio, os dados apontam que 10% seguem para o exterior. Os Estados Unidos compram mais da metade do que o Brasil exporta, seguidos dos países europeus.

É a emissão e gerenciamento irregular de documentos que facilitam a ilegalidade das madeiras exportadas. A venda de madeira ilegal para os Estados Unidos e Europa faz parte de um mercado milionário, onde agentes públicos e engenheiros florestais estão envolvidos.

Em 2017, a Polícia Federal apreendeu 10 mil metros cúbicos de madeira, o equivalente a 1,5 mil quilômetros. Esta carga ilegal estava sendo vendida por 63 empresas, também investigadas. A Operação Arquimedes, responsável pela apreensão, constatou aumento no trânsito de madeira pelo porto de Chibatão, em Manaus, no Amazonas.

Com informações do Portal Terra.




terça-feira, 17 de novembro de 2020

Vacina é assunto da ciência, não da política. Por Herton Escobar

Críticas infundadas contra a CoronaVac alimentam movimento antivacina e provocam prejuízos imensos à saúde pública do País

Arte: Moisés Dorado
CoronaVac, vacina produzida pelo Butantan - Foto: GOVESP

O presidente Jair Bolsonaro indignou a sociedade novamente esta semana com mais uma declaração de desrespeito à vida, à saúde pública e à ciência. Em uma postagem de seu perfil oficial no Facebook, na terça-feira (10 de novembro), ele celebrou como uma vitória o fato de os testes clínicos da vacina CoronaVac, conduzidos pelo Instituto Butantan, terem sido suspensos por causa da morte de um participante do estudo. A paralisação da pesquisa durou apenas um dia, mas os danos causados pela contaminação política do episódio tendem a ser muito mais profundos e duradouros do que isso, segundo especialistas que monitoram a evolução do discurso antivacinal no Brasil.
“Essa declaração do presidente, considerando o alcance que ele tem nas plataformas digitais, é algo sem paralelo na história do movimento antivacinas no Brasil”, diz o pesquisador João Rafael, analista de comunicação do Instituto de Estudos Avançados da USP em Ribeirão Preto (IEA-RP) e idealizador da União Pró-Vacina (UPV), uma iniciativa multi-institucional de monitoramento e combate à desinformação sobre vacinas. 

A repercussão do episódio nas mídias bolsonaristas simboliza uma crescente incorporação do discurso antivacinas — antes restrito a pequenos grupos radicais nas redes sociais — por movimentos políticos mais amplos, com um poder de influência muito maior sobre a opinião pública e, consequentemente, sobre as políticas públicas de saúde relacionadas à imunização, avalia Rafael. O tema deixa de ser tratado como uma questão científica — que é a sua verdadeira natureza — para ser discutido como uma questão de ideologia política.

A maneira atravessada como a decisão da Anvisa chegou à sociedade — noticiada pela imprensa, na noite de segunda-feira, antes mesmo de a agência ter se reunido com o Butantan para discutir o assunto — também contribuiu para alimentar a polêmica, dando margem para todo tipo de especulações sobre a segurança da vacina e interferências políticas no processo. Em vez de uma comunicação oficial bem contextualizada, o que se viu no dia seguinte foi um confronto público de narrativas apresentadas pelo Butantan e Anvisa, ao mesmo tempo em que a imprensa revelava dados sobre a causa da morte do voluntário (um aparente caso de suicídio, ou overdose) e repercutia a fala de Bolsonaro no Facebook.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro se referiu de maneira depreciativa à vacina do Butantan, que foi originalmente desenvolvida na China, pela empresa Sinovac, e está sendo testada agora no Brasil, em parceria com o instituto paulista. Cerca de 10 mil voluntários já receberam a vacina, que é considerada uma das mais promissoras no mundo para ajudar no combate à pandemia do novo coronavírus. O próprio Ministério da Saúde chegou a anunciar um acordo para a aquisição de 46 milhões de doses da vacina, em 20 de outubro, mas Bolsonaro desautorizou a compra no dia seguinte, dizendo que o povo brasileiro não seria “cobaia” da “vacina chinesa de João Doria”. Os ataques derivam do fato de os testes com a vacina no Brasil terem sido negociados pelo governador paulista, que se elegeu como aliado mas agora é adversário político de Bolsonaro.

Se as críticas até agora vinham embrulhadas numa conotação mais xenofóbica, no sentido de desmerecer a vacina pelo fato de ela ser chinesa, a declaração de que a CoronaVac pode causar “morte, invalidez, anomalias” eleva a gravidade do discurso a um patamar especialmente preocupante, segundo Rafael.

Ainda que os dados científicos e a cobertura da imprensa profissional desmintam sistematicamente essas afirmações, diz o pesquisador do IEA-RP, o simples fato de elas serem veiculadas na mídia contribui para pautar o debate social e semear dúvidas na opinião pública sobre a segurança da vacina. Ele compara o caso ao do médico britânico Andrew Wakefield, que em 1998 publicou um estudo fraudulento, dizendo que vacinas causavam autismo. Mesmo décadas depois de o estudo ter sido provado falso, o mito de que as vacinas podem causar autismo em crianças permanece vivo nos meios digitais e no imaginário popular.

Da mesma forma, mesmo que não haja qualquer evidência de que a morte do voluntário possa ter relação com a vacina, a simples suposição do fato já foi suficiente para suscitar diversas teorias especulativas (sem qualquer embasamento científico) de que a “vacina chinesa” poderia induzir à depressão e levar as pessoas a se suicidar. Teorias, essas, que poderão perseguir a CoronaVac por muito tempo, não importa quão descabidas sejam. “Esse pode ser o caso Wakefield do Brasil”, avalia Rafael.

O prejuízo não é só para a CoronaVac. “É claro que essa desconfiança vai respingar em outras vacinas”, diz o médico e pesquisador José Gallucci Neto, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Querendo ou não, diz ele, o presidente está contribuindo para o crescimento do movimento antivacina no Brasil. “Qualquer discurso que gere uma hesitação da população em se vacinar pode se considerado parte do movimento antivacina”, diz. Especialmente, diz ele, quando esse discurso parte da autoridade máxima da nação. “Mesmo que não seja uma agenda explícita, ele está contribuindo para isso.” 

A hesitação em se vacinar é classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das 10 maiores ameaças à saúde pública mundial. As vacinas previnem a morte de 2 milhões a 3 milhões de pessoas por ano, segundo a agência.

Isso tudo acontece num momento especialmente preocupante, em que a cobertura vacinal no Brasil já está abaixo da meta para diversas doenças infecciosas extremamente perigosas, como o sarampo, tuberculose e poliomielite. Um problema que vem se ampliando há cinco anos, e que tende a se agravar ainda mais este ano em função da pandemia, que manteve as pessoas afastadas do sistema de saúde. Segundo dados divulgados em outubro pelo Ministério da Saúde, as coberturas vacinais não atingem nenhuma meta no calendário infantil desde 2018.

Nesse cenário, há um risco cada vez maior do retorno de doenças já consideradas erradicadas pela vacinação, como já ocorre com o sarampo no Brasil. O discurso presidencial adotado nas últimas semanas, de questionar a obrigatoriedade da vacinação e levantar dúvidas sobre a segurança das vacinas, só piora essa situação. 

Panorama global

A CoronaVac é apenas uma entre 12 vacinas contra a covid-19 que passam atualmente pela etapa final de testes em seres humanos (a chamada Fase 3). Esses testes são feitos com milhares de pessoas, em vários países, justamente para testar a segurança e a eficácia de cada vacina, e é absolutamente normal que os projetos sofram paralisações temporárias para a avaliação de possíveis efeitos adversos — que podem ou não ter relação com a vacina.

Além da CoronaVac, três outras vacinas estão em teste no Brasil, com aval da Anvisa. Uma delas, patrocinada pelo governo federal, foi desenvolvida pela empresa AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. As outras duas são das empresas Pfizer e Janssen. Os testes da vacina da AstraZeneca/Oxford e da Janssen também sofreram paralisações para averiguação de efeitos adversos, e depois foram retomados.

Importante enfatizar que uma vacina não substitui a outra. Especialistas ressaltam que nenhuma dessas vacinas será capaz de frear a pandemia sozinha, no curto prazo; e ter mais de um imunizante disponível será essencial para proteger o maior número de pessoas, o mais rápido possível, e alcançar a tão desejada imunidade coletiva (“de rebanho”). A conclusão dos testes clínicos e a aprovação dessas vacinas — se comprovadas sua eficácia e segurança —  são o único caminho para a superação definitiva da pandemia. Que isso ocorra no menor tempo possível é a esperança de todos nós.




A volta ao normal mostra a derrota do bolsonarismo, por Tereza Cruvinel

"Na normalidade democrática, não há lugar para o neofascismo, para o golpismo, para o obscurantismo e o negacionismo mais rudimentares. As trevas estão passando e não terão vez em 2022", avalia a jornalista Tereza Cruvinel sobre o quadro que surgiu das eleições municipais

 (Foto: Agência Brasil)

Para lá da derrota de Bolsonaro e do bolsonarismo, do êxito da direita neoliberal não fascista, do sucesso moderado mas reafirmador do protagonismo da esquerda, para lá das perdas e ganhos de cada partido, os resultados da eleição de domingo falam da volta à normalidade. E na normalidade, não há lugar para aventuras autoritárias e extremistas, como o bolsonarismo.

Não tivemos Sergio Moro vazando delações na semana eleitoral nem a Lava Jato demonizando o PT ou qualquer partido; não tivemos ninguém sendo adorado como mito ou demonizado como fonte do mal; não houve lugar para a antipolítica nem para a polarização raivosa; o antipetismo não morreu mas os petistas deixaram de ser acossados nas ruas ou chamados de petralhas; as fake news foram contidas e não houve ninguém arrancando com os dentes o dedo de outro, como em 2018.

E este aceno à normalidade talvez tenha sido o melhor saldo e a melhor promessa do pleito. O Brasil vai deixando para trás o ambiente envenenado do período 2016-2018,  no qual a democracia foi dilacerada pelo golpe dissimulado de impeachment contra Dilma e a justiça foi utilizada como “law fare” para impedir que o candidato Lula concorresse e ganhasse a eleição presidencial. Aliás, o começo de tudo foi em 2014, quando Aécio Neves, tal como Trump hoje, não reconheceu a vitória de Dilma, abrindo caminho para a violação da vontade popular.

O ódio ao outro, a descrença na política e a crença de que Bolsonaro era o mito salvador, o anti-tudo-que-está-aí, estão custando muito ao Brasil. Custando inclusive milhares de vidas, pelo descaso e o negacionismo de Bolsonaro na pandemia. O cair da ficha é que explica o fracasso dos candidatos apoiados pelo presidente, o grande derrotado do pleito.

Mas a volta à normalidade, ou o início dela, não será uma volta a 2014 ou 2016, naturalmente. Ocorreram mudanças na distribuição do poder entre as forças políticas convencionais, juntamente com a derrota do bolsonarismo que ameaçou a democracia, destruiu conquistas, isolou e desmoralizou o país internacionalmente e promete para o ano que vem o caos econômico e social.

Na redistribuição, estamos vendo que o conjunto de partidos da direita não fascista levou a melhor, conquistando mais prefeituras em capitais e no interior. Mas que entre estes partidos, os do núcleo duro do Centrão, como PP e PSD, foram melhor sucedidos. E não exatamente por apoiarem vacilantemente o governo, mas por terem ampliado bancadas, cooptando quadros de outras siglas, e com isso abocanhado mais tempo de TV e mais recursos do fundo partidário. Estamos vendo também, nesta seara, o Democratas, que já andou tão desmilinguido, saiu-se mais musculoso, reelegendo prefeitos em Curitiba e Florianópolis, conquistando Salvador e chegando ao segundo turno no Rio. E que o velho MDB segue lentamente em declínio, passando agora para menos de mil prefeituras. Tendo ido para a extrema-direita em 2018, o eleitor faz agora sua meia volta, dizendo que é hora de voltar ao normal, de valorizar quem é conhecido e experimentado. E fez isso com uma parada no centro conservador.

Na esquerda, forçam a barra os setores da mídia que falam em derrota, depois de o PSOL ter levado Boulos ao segundo turno, de Manuela Dávila, do PC do B, também ter chegado lá em Porto Alegre, ou de Edmilson Rodrigues ter feito o mesmo em Belém. No conjunto, as vitórias do PSOL falam de renovação e frescor mas a esquerda, no conjunto, acumulou e ampliou forças. Mesmo que individualmente seus partidos, fora o PSOL, não tenham colhido grandes vitórias, juntos eles demarcaram o campo progressista. É verdade que o PT encolheu em número de prefeituras, mas é o partido que mais concorre no segundo turno, podendo recuperar-se ainda nas grandes cidades. No segundo turno, pode ganhar em Recife e em Vitória. Ainda assim, para um partido jurado de morte pela direita e a extrema direita, sobreviver já foi vitória.

Mais uma vez as esquerdas aprenderam a velha lição sobre a divisão. Quantos resultados não teriam sido diferentes se tivesse havido unidade? As alianças no segundo turno serão um ensaio para 2022. Em São Paulo, a rapidez com que o PT apoiou Boulos, incondicionalmente, falou de aprendizado. Mas haverá problemas mesmo agora. Quem dirá em 2022. Passado o segundo turno, que comecem a conversar de fato.

Para todos, outro tempo está começando. Este início da volta à normalidade tem tudo a ver com a derrota de Bolsonaro e dos bolsonaristas. Na normalidade democrática, não há lugar para o neofascismo, para o golpismo, para o obscurantismo e o negacionismo mais rudimentares. As trevas estão passando e não terão vez em 2022.




A descoberta do Estadão, por Moisés Mendes

O Estadão foi protagonista do golpe e ajudou na criação de Bolsonaro como antissistema, antiLula, antiDilma e antitudo. E agora descobriu que Bolsonaro é vagabundo

O Estadão descobriu que Bolsonaro não trabalha. Está no editorial do jornal. A grande imprensa é uma descobridora.

Diz o editorial: “Bolsonaro passa todo o expediente a fazer o que sabe melhor: criar confusão e ultrajar os brasileiros. O problema é que Bolsonaro não trabalha”.

O Estadão foi protagonista do golpe e ajudou na criação de Bolsonaro como antissistema, antiLula, antiDilma e antitudo. E agora descobriu que Bolsonaro é vagabundo.

A Folha, o Estadão e o Globo fazem descobertas diárias sobre Bolsonaro, como se o sujeito fosse alguma coisa a ser ainda desvendada.

Os três jornalões sabem quem é Bolsonaro, sempre souberam. Todos fomentaram as ‘virtudes’ de Bolsonaro. E agora anunciam novidades. 

Só falta o Estadão descobrir que a família Bolsonaro tem vínculos com milicianos.




segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Eleitores rejeitam candidatos de Bolsonaro nas capitais

Nomes para os quais o presidente fez campanha ou que tiveram aval público dele, como Russomano e Crivella, derrapam nas eleições municipais. Baixa popularidade e falta de partido dificultaram construção de alianças.

Por Bruno Lupion | Eleições municipais no Brasil | DW Brasil
Russomano com Bolsonaro: candidato nem chegou ao segundo turno

A maior parte dos candidatos a prefeito de capitais apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro foi derrotada no primeiro turno das eleições municipais, realizadas neste domingo (15/11). Apenas Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza, passaram ao segundo turno, que será realizado daqui a duas semanas, em 29 de novembro.

Os outros nomes que tiveram o aval público do presidente mas estão fora da disputa são Celso Russomanno (Republicanos) em São Paulo, Coronel Menezes (Patriota) em Manaus, Bruno Engler (PRTB) em Belo Horizonte e Delegada Patrícia (Podemos) no Recife.

No final de agosto, Bolsonaro declarou que não iria apoiar candidatos a prefeito no primeiro turno, pois isso atrapalharia o seu trabalho como presidente. "Decidi não participar, no primeiro turno, nas eleições para prefeitos em todo o Brasil. Tenho muito trabalho na Presidência da República e, tal atividade tomaria todo meu tempo em um momento de pandemia e retomada da nossa economia”, afirmou, em mensagem em suas redes sociais.

Nos meses seguintes, porém, o presidente passou a pedir votos para alguns candidatos. No caso de Russomanno, Bolsonaro chegou a se reunir e a gravar imagens ao lado do candidato, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e liberou alguns de seus auxiliares, como o secretário-executivo do Ministério da Comunicação Fabio Wajngarten, a participar da estratégia da campanha paulistana.

O fracasso do presidente em emplacar a maioria de seus aliados na capitais se deve a uma combinação de fatores, segundo cientistas políticos ouvidos pela DW Brasil. Um deles é o fato de Bolsonaro não estar filiado a uma legenda, portanto sem capacidade de mobilizar estruturas partidárias locais e montar alianças nos municípios.

Outro elemento é a atual taxa de popularidade do presidente, menor do que à registrada pelos ocupantes do Palácio do Planalto que tiveram sucesso em emprestar seu prestígio a candidatos a prefeito e vereador, como Fernando Henrique Cardoso em 1996 e Luiz Inácio Lula da Silva em 2008.

Resultados

Russomanno, que disputou a prefeitura de São Paulo pela terceira vez, terminou em quarto lugar, com 10,5% dos votos válidos. O candidato do Republicanos repetiu o roteiro que já havia percorrido nas últimas duas eleições municipais, em 2012 em 2016: largou em primeiro nas pesquisas de intenção de voto e foi paulatinamente foi perdendo força.

O seu desempenho ruim na urna é um revés na maior cidade do país também para Bolsonaro, que se empenhou pela vitória de Russomanno. Os dois candidatos que foram ao segundo turno, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), são críticos ao presidente.

Na eleição presidencial de 2018, Bolsonaro teve 44,6% dos votos válidos na cidade de São Paulo e venceu em 52 das 58 zonas eleitorais do município. Seu prestígio na capital paulista, porém, está em queda. Segundo pesquisa Datafolha realizada em 9 e 10 de novembro, 50% dos moradores da cidade avaliam o seu governo como ruim ou péssimo, e apenas 23% como ótima ou boa.

No Rio de Janeiro, o atual prefeito Crivella ficou com 21,9% e disputará o segundo turno contra o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), que teve 37%. A cidade é o domicílio eleitoral de Bolsonaro, mas o presidente não foi tão enfático na defesa do bispo — declarou seu voto e liberou o uso de suas imagens pela campanha do candidato do Republicanos, sem se empenhar como fez com Russomanno.

No Recife, Delegada Patrícia, que recebeu o apoio do presidente em 5 de novembro, a dez dias do pleito, ficou em quarto lugar com 14% dos votos válidos. O segundo turno será disputado entre João Campos (PSB), filho do ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo em 2014, e Marília Arraes (PT), neta do ex-governador Miguel Arraes, morto em 2005.

O apoio de Bolsonaro a Santiago foi comemorado por ela em suas redes sociais, mas provocou uma crise na sua chapa às vésperas do pleito. O Cidadania, partido de seu candidato a vice, Leo Salazar, protestou contra a adesão dela ao presidente e anunciou o afastamento de sua campanha.

Em Fortaleza, Capitão Wagner foi ao segundo turno, em segundo lugar, com 33,3% dos votos válidos, contra Sarto, do PDT, que teve 35,7% dos votos válidos. Apesar do apoio do presidente, Wagner evitou usar a sua imagem em sua campanha e fez um reposicionamento para tentar ir além do eleitorado bolsonarista. Ele também contava com o recall de ter sido candidato a prefeito em 2016, quando chegou ao segundo turno.

Em Manaus, Coronel Menezes ficou em quinto lugar, com 11,3% dos votos. O segundo turno será disputado por Amazonino Mendes (Podemos), que já foi prefeito da cidade por três vezes, teve 23,9%, e David Almeida (Avante), que teve 22,4%.

Em Belo Horizonte, Bruno Engler obteve 9,9% dos votos válidos e terminou em segundo lugar. A disputa foi vencida em primeiro turno pelo atual prefeito da capital mineira, Alexandre Kalil (PSD), com 63,4% dos votos válidos.



domingo, 15 de novembro de 2020

O Covid-19 questiona o sentido da vida, por Leonardo Boff

O que a natureza nos quer dizer com esse vírus invisível que colocou de joelhos todas as potências militaristas tornando ineficazes suas armas de destruição em massa? 

*Por Leonardo Boff

A intrusão do Covid-19 atingindo todo o planeta e dizimando mais de um milhão de vidas sem poderem ser veladas e receberem o último carinho de seus familiares, além de infectar outras milhões de pessoas, suscitou a perturbadora pergunta: qual o sentido da vida? Por que esse sofrimento todo? O que a natureza nos quer dizer com esse vírus invisível que colocou de joelhos todas as potências militaristas tornando ineficazes suas armas de destruição em massa? O Covid-19 caiu como um meteoro rasante sobre o sistema do capital e o neoliberalismo. Seus mantras foram destroçados. Adiantou alguma coisa o lema de Wall Street: “greed is good”=a cobiça é boa? Ninguém come computadores, nem se alimenta dos algoritmos da inteligência artificial.

Qual eram os dogmas da fé capitalista e neoliberal? O essencial é o lucro, no menor tempo possível, a concorrência feroz, a acumulação individual  ou corporativa, o saque cruel dos recursos da natureza, deixando as externalidades por conta do estado, a indiferença face à taxa de iniquidade social e ambiental, a postulação de um Estado mínimo para escapar das leis limitantes e poder acumular mais desimpedidamente.

Se tivéssemos seguido estes mantras,o extermínio de vidas humanas seria incalculável. Sem políticas públicas as pessoas seriam tragadas por um destino atroz.

O que nos tem salvado? Aqueles valores e atitudes ausentes no sistema do capital e neoliberal: a percepção de que não somos “deuses” mas totalmente vulneráveis e mortais, expostos à imprevisibilidade. O que conta não é o lucro mas a vida; não é a concorrência mas a solidariedade; não é individualismo mas a cooperação entre todos; não é o assalto aos bens e serviços da natureza mas o seu cuidado e proteção; não é um estado mínimo, mas o estado suficientemente apetrechado para atender as demandas urgentes da população. Dito diretamente: o que vale mais a vida ou o lucro? A natureza ou a sua expoliação desenfreada?

Responder a estas perguntas impostergáveis é interrogar-se sobre o sentido ou o absurdo de nossa vida, pessoal e coletiva. O isolamento social é uma espécie de retiro existencial que a situação nos impôs. Cria-se a oportunidade de colocar estas questões inadiáveis. Nada é fortuito nesse mundo. Tudo guarda uma lição ou um sentido secreto que cabe desvendar, por mais perplexa que seja a realidade. O que não podemos é permitir que esse sofrimento coletivo seja em vão. Ele funciona como um crisol que purifica o ouro, que acrisola nossa mente, e põe em xeque certos hábitos a serem revistos e  novos a serem incorporados especialmente com referência à nossa relação para com a natureza e o tipo de sociedade que queremos, menos perversa e mais solidária.

Todos falam da medicina, da técnica e dos insumos e principalmente da busca ansiosa de uma vacina contra o Covid-19. Poucos são os que falam da natureza. Precisamos considerar o contexto da irrupção do coronavírus. Ele não é isolado. Veio da natureza que por séculos foi saqueada irresponsavelmente pelo processo industrialista do capitalismo e também do socialismo, no falso pressuposto de que a Terra teria recursos infinitos. Desmatamos impiedosamente e assim destruímos os habitats dos milhares de vírus que vivem nos animais e até nas plantas. Perdendo sua “morada natural” buscam em nós um lugar de sobrevivência. Desta forma temos conhecido uma vasta gama de vírus como o zica, o chikungunya, o ebola, a série derivados do SARS como o Covid-19 entre outros.

Temos a ver com um contra-ataque da natureza ou da Mãe Terra contra a humanidade, que querem nos transmitir uma severa admoestação: ”parem com a agressão impiedosa, destruindo as bases físico-químicas-ecológicas que sustentam a vossa vida; caso contrário poderemos lhes mandar vírus muito mais letais que poderão dizimar bilhões de vocês, da espécie humana, e afetar gravemente a biosfera, aquela fina capa um pouco maior que um fio da navalha que garante a continuidade da vida”.

Predominarão estas advertências vitais ou o afã de acumular e garantir os interesses materiais? Teremos suficiente sabedoria para responder à alternativa que Aquele Ser que faz ser todos os seres: “proponho-vos a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe a vida para que vivas com tua descendência”(Deut 30,19)?

Portadores de uma fé num `Deus, apaixonado amante da vida”(Sab 11,26) apostamos ainda num sentido da história e da vida. Elas escreverão a  última página da saga humana, construída com tanto esforço neste planeta.

Isso porém não nos deve desviar o olhar sobre o que está ocorrendo no cenário mundial e especificamente no brasileiro onde um chefe de estado, negacionista, não tem como projeto cuidar de seu povo e de nossa luxuriante natureza. Com desprezo e ironia assiste qual Nero que assistia Roma sendo queimada e ele tocando cítara.

A despeito disso tudo, nossa esperança não morre. Como afirma a Fratelli tutti do Papa Francisco: “A esperança nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive”(n.55). Aqui ressoa o princípio esperança, que é mais que uma virtude, mas um princípio, motor interior, que projeta sonhos e visões novas, tão bem formulado pelo filósofo alemão Ernst Bloch em seu O Princípio Esperança. Esta esperança nos resgatará um sentido de viver neste pequeno e amado planeta Terra.

Apesar de sermos seres contraditórios, feitos simultaneamente de luz e de sombras, cremos que a luz triunfará. Atestam-nos tantos bioantropólogos e neurocientistas: somos por essência seres de bondade e de cooperação. Vigora uma bondade fundamental na vida.

O homem comum que compõe  a grande maioria, se levanta, perde precioso tempo de vida nos ônibus, vai ao trabalho, não raro penoso e mal remunerado, luta pela família, se preocupa com a educação de seus filhos, sonha com um país melhor. Surpreendentemente, é capaz de gestos generosos, auxiliando um vizinho mais pobre do que ele e, em casos extremos, arrisca a vida, para salvar  uma inocente menina  ameaçada de estupro. Nele está agindo o princípio esperança.

Nesse contexto não me furto de citar os sentimentos de um de nossos maiores escritores modernos Erico Veríssimo. Em seu famoso “Olhai os lírios do campo”:

“Se naquele instante caísse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas … E se perguntasse a qualquer um deles: ‘Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?’ – ouviria esta resposta singular: ‘Para ganhar a vida’. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos. E havia muitos séculos, tinham crucificado um profeta que se esforçara por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos.(Olhai os Lírios do Campo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1973. p. 292).

A intrusão do Codiv-19 revelou estas virtudes, presentes nos humanos mas de modo especial nos pobres e nas periferias, porque lá se refugiaram, pois nas cidades impera a cultura do capital, com seu individualismo e falta de sensibilidade face à dor e ao sofrimento das grandes maiorias da população.

O que se esconde atrás destes gestos cotidianos de solidariedade? Esconde-se o princípio esperança e a confiança de que, apesar de tudo, vale a pena viver porque a vida, na sua profundidade, é boa e foi feita para ser levada com coragem que produz autoestima e sentido de valor.

Há aqui uma sacralidade que não vem sob o signo religioso  mas sob a perspectiva do ético, do viver corretamente e do fazer o que deve ser feito.  

O renomado sociólogo austríaco-norte-americano Peter Berger, já falecido, escreveu um brilhante livro, relativizando a tese de Max Weber sobre a total secularização da vida moderna com o título: ”Um rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (Vozes 1973/2013). Aí descreve inúmeros sinais (chama de “rumor de anjos”) que mostram o sagrado da vida e o sentido secreto  que ela sempre guarda, a despeito de todo caos e dos contrassensos históricos.

Aduzo, na esteira de Peter Berger, apenas um exemplo banal, entendido por todas as mães que acalentam suas crianças à noite.

Uma delas acorda sobressaltada. Teve um pesadelo, percebe a escuridão, sente-se só e é tomada pelo medo. Grita pela mãe. Esta se levanta, toma a criancinha no colo e no gesto primordial da magna mater cerca-a de carinho e de beijos, fala-lhe coisas doces e sussurra: ”Filhinha, não tenha medo; sua mãe está aqui. Está tudo bem e está tudo em ordem, querida”. A criança deixa de soluçar. Reconquista a confiança e um pouco mais e mais um pouco, adormece, serenada e reconciliada com a escuridão.

Esta cena tão comum, esconde algo radical que se manifesta na pergunta: será que a mãe não está enganando a criança? O mundo não está em ordem, nem tudo está bem. E contudo, estamos certos: a mãe não está enganando sua filhinha. Seu gesto e palavras revelam que, não obstante a desordem reinante, impera uma ordem profunda  e secreta.

Assim cremos que os tempos de Covid-19, tão dramáticos, hão de passar. Esperamos e como esperamos que, por debaixo deles e dentro deles, vai se fortalecendo uma ordem abscôndita que, quando tudo passar,  irá irromper.

Assim a sociedade e a inteira humanidade poderão caminhar rumo a um sentido maior, cujo desenho final nos escapa. Mas intuímos desde sempre, que ele existe e será bom. A ele caberá escrever a última  página  com um happy end. Como escreveu o filósofo do Princípio Esperança, Ernst Bloch, verificaremos que o verdadeiro gênesis não estava no começo das coisas mas no seu fim. Só então será verdade: “Deus viu tudo quanto havia feito e achou que estava muito bom”(Gen 1,31).

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu Saudade de Deus”, Vozes 2019.


Fonte: Publicado no site do Leonardo Boff


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Carta à ciência e ao povo brasileiro, por Luiz Inácio Lula da Silva

Atacar as vacinas, ou lançar dúvidas infundadas sobre a vacinação, é trabalhar a favor da morte.

Por Luiz Inácio Lula da Silva
Uma das qualidades mais admiráveis do ser humano é a sua genialidade: a capacidade de sonhar e de transformar o sonho em realidade. Graças ao conhecimento científico acumulado ao longo de décadas, e até mesmo de séculos, o ser humano foi capaz de viajar pelo espaço. E demonstrar assim, com provas irrefutáveis, aquilo que sábios já diziam desde a Antiguidade: que a Terra é redonda.

Graças ao esforço incansável daqueles que perderam noites de sono, abriram mão do convívio com as pessoas amadas e muitas vezes arriscaram as próprias vidas, o ser humano foi capaz de desenvolver vacinas que salvaram milhões de vidas pelo mundo afora.

No Brasil de poucas décadas atrás, os mais pobres só viviam até os quarenta anos.

Sarampo, varíola, rubéola, febre amarela, poliomielite, tuberculose, meningite, difteria, coqueluche, tétano e tantas outras enfermidades que no passado matavam populações inteiras, estão hoje controladas, graças à ciência e aos médicos e pesquisadores.

Atacar as vacinas, ou lançar dúvidas infundadas sobre a vacinação, é trabalhar a favor da morte.

É, portanto, com muita indignação que vejo Bolsonaro festejar a morte de um voluntário que participava dos testes da vacina Coronavac – cuja morte, aliás, não teve qualquer relação com a vacina. Em primeiro lugar, porque não se comemora a morte de ninguém. Em segundo lugar, porque a suspensão dos testes, determinada pela Anvisa, além de errada, em nada favorece a luta contra uma pandemia que ameaça o Brasil e o mundo.

A comemoração de Bolsonaro é uma demonstração clara da sua decisão política: negar ao nosso povo o único instrumento capaz, juntamente com o isolamento social, de frear uma pandemia que já matou mais de 160 mil brasileiros e infectou mais de 5 milhões. Cercado de terraplanistas, obscurantistas e negacionistas de toda ordem, Bolsonaro debocha e faz piada com o conhecimento científico acumulado pela humanidade ao longo de sua história.

Insiste em vender como droga milagrosa um medicamento, a cloroquina, que comprovadamente não tem qualquer eficácia contra o coronavírus, e cujos efeitos colaterais podem ser fatais. Ao mesmo tempo, põe em dúvida a eficácia de vacinas que consumiram meses de trabalho intenso dos maiores cientistas do planeta.

Bolsonaro faz pouco caso das boas práticas sanitárias e despreza a ciência, a tecnologia e a educação, como demonstram os cortes irresponsáveis nos investimentos públicos destes que seriam os passaportes para o nosso futuro.  Ele, ao contrário, embarca o Brasil numa máquina do tempo rumo ao passado, quando ensaia reeditar uma triste página da nossa história: a Revolta da Vacina, que, no início do século passado, deixou o Rio de Janeiro à mercê da varíola, que ameaçava ceifar milhares de vidas, sobretudo entre os mais pobres.

Bolsonaro virou motivo de anedotas ao redor do mundo. Mas seu comportamento medieval põe em perigo 200 milhões de brasileiros, ao mesmo tempo em que despreza a ciência, os cientistas, médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde que diariamente arriscam suas vidas tentando salvar outras vidas – e que muitas vezes acabam, eles próprios, derrubados pela pandemia.

A verdade é uma só, e não se pode fugir dela: a vacina é um direito de todos, e a vacinação é um dever do Estado.

Ao pregar o contrário, Bolsonaro coloca em risco a saúde daqueles que teria a obrigação de defender. Ignora a experiência do nosso SUS, que com vacinas e campanhas de vacinação é a mais extensa e bem sucedida em todo o mundo. Agride instituições públicas reconhecidas internacionalmente, como a Unifesp e a USP, envolvidas no teste das vacinas, o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz e a Anvisa, que possuem competência técnica para dizer se uma vacina é segura e eficaz, independentemente do país em que foi produzida.

Quando fui presidente da República, um dos meus principais compromissos na área da saúde foi a vacinação dos brasileiros. Promovemos todos os anos amplas campanhas de conscientização e mobilização. Trabalhadores da saúde e agentes comunitários percorriam cidade por cidade, esquadrinhavam subúrbios e visitavam casa por casa. O próprio Bolsa Família, um dos programas de transferência de renda mais eficientes do mundo, impunha uma condição rigorosa: só recebia o benefício quem tivesse todas as crianças da família vacinadas.

Além disso decidimos que o Brasil não podia ser apenas um importador. Era preciso conquistar nossa soberania também na produção de vacinas. Foi por isso que investimos tanto na Fundação Oswaldo Cruz, não só para que ela fosse uma das principais instituições produtoras e desenvolvedoras de vacinas do mundo, mas também para que fosse capaz de exportá-las, como ocorre no caso da vacina contra a febre amarela.

Com os investimentos que fizemos no Instituto Butantan ele se tornou um dos principais fornecedores de vacinas para o SUS. Pouco importava que o Butantan fosse uma instituição pública de São Paulo, cujo governo na época fazia oposição ao Governo Federal. Para nós, acima da política, sempre em primeiro lugar, estão os interesses do povo.

Graças a todo esse esforço nosso Programa Nacional de Imunização, é reconhecido em todo o mundo. Conquistamos certificados de erradicação de doenças como rubéola, sarampo e paralisia infantil. Infelizmente, desde 2019, devido às atitudes irresponsáveis e negacionistas de Bolsonaro, estamos vendo nosso programa de vacinação definhar, ser destruído. Pela primeira vez neste século, o Brasil não atingiu as metas vacinais para as crianças.

Se hoje o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz são capazes de produzir  vacinas para covid-19, isto é graças a uma decisão política muito clara: a vacina é uma grande descoberta da ciência, é um bem público, e é obrigação dos governos torná-la disponível para toda a população.

É urgente e inadiável, portanto, uma ampla mobilização nacional de cientistas, médicos e demais profissionais de saúde. De governadores, prefeitos, agentes da vigilância sanitária, pesquisadores e técnicos da Fundação Oswaldo Cruz e do Instituto Butantan. Do Congresso Nacional, da imprensa e da sociedade como um todo.

Não podemos permitir que a vacinação se transforme em uma guerra, como deseja Bolsonaro. Uma guerra contra o povo brasileiro, que será sem dúvida a sua principal vítima.

Este desafio gigantesco não pode ficar restrito ao esforço isolado de alguns governadores. É preciso um pacto federativo de todas as instâncias, especialmente do Governo Federal. O SUS, o Instituto Butantã e a Fiocruz necessitam de apoio, de recursos orçamentários elevados e da total mobilização dos seus profissionais, para assegurar a vacina para todos os cidadãos.

Se o Governo Bolsonaro continuar boicotando as iniciativas de médicos e pesquisadores, criando problemas para as instituições e os governos dos estados, não haverá vacina para o povo brasileiro em 2021. Derrotar o vírus, retomar com segurança as atividades econômicas e a vida social são objetivos alcançáveis, mas isso depende de uma vacina eficaz e segura. Este é hoje o maior desafio do Brasil. E mais uma vez, o governo Bolsonaro demonstra não estar à altura deste momento vital para o futuro da nação.

Tenho certeza de que você , assim como eu, está indignado com a imagem de um presidente da República fazendo chacota da vacina e gargalhando diante da trágica morte de um voluntário.

Sei que você também está indignado ao ver instituições públicas sérias como o SUS, a ANVISA, a Fiocruz e o Instituto Butantan, serem arrastadas para a lama de um campo de batalha onde a vítima é o povo brasileiro.

Imagino sua repulsa ao desrespeito de Bolsonaro pelo trabalho sério dos nossos médicos e pesquisadores.

Estou certo de que você, assim como eu, não se conforma em ver o Brasil, que já foi reconhecido pelos seus feitos extraordinários na área da saúde pública, tornar-se um mau exemplo para o mundo.  Um exemplo do que não deve ser feito por nenhum país que deseja defender seu povo e vencer a pandemia.

Não podemos continuar paralisados diante de tamanha irresponsabilidade.

O direito à vacina é o direito à vida.

É obrigação do Governo Federal garantir a vacinação de todos aqueles que precisam ser imunizados.

É hora de assumirmos juntos esse desafio. Vacina para todos. Pela vida, pela recuperação de empregos e renda, pela dignidade do Brasil e  do seu povo.

A Terra é redonda, gira em torno do sol, e não há no mundo força retrógada capaz de deter a genialidade humana.

Cabe a cada brasileiro comprometido com o respeito à ciência e à saúde do nosso povo dizer “Basta!” ao obscurantismo.


*artigo originalmente publicado pela Folha de S. Paulo


domingo, 8 de novembro de 2020

Washington mudará a política em relação ao Brasil?, por Mino Carta

'Caberia dizer que até um poste é melhor na presidência dos Estados Unidos do que Trump'

JOE BIDEN É ELEITO PRESIDENTE DOS EUA. FOTO: ANGELA WEISS/AFP

Já causa espanto que Donald Trump resista impávido até o final das apurações. Se quisermos usar um linguajar tipicamente brasileiro, caberia dizer que até um poste é melhor na presidência dos Estados Unidos do que Trump. Não falta quem se regozije com a vitória de Joe Biden, recomendado por Barack Obama depois de ter sido vice-presidente durante seu mandato. Trata-se de uma figura simpática e elegante, um homem risonho a ostentar um natural, genuíno bom humor. Nem por isso encarna a expectativa de alguma mudança significativa.

Ocorre, às vezes, que figuras aparentemente menores assumam um papel importante, até mesmo decisivo. É o caso, por exemplo, de Harry Truman, que acabou assumindo um papel determinante após a substituição, na qualidade de vice-presidente, de Franklin Delano Roosevelt para carregar a pecha devastadora de ter autorizado as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, destinadas a ficar na história da humanidade como um crime de proporções universais.

A biografia de Biden não o incrimina pessoalmente, pelo contrário, mas não há dúvidas de que Washington continuará pelo caminho useiro, sobretudo em relação à América Latina. Nada aponta em Biden a disposição e a capacidade de alterar a rota imperial, inspirada desde antigas eras pela Doutrina Monroe. Trump representou à perfeição, e de forma nunca dantes navegada, os males causados no mundo pelo império do Ocidente, desde o imediato pós-Segunda Guerra Mundial e mesmo antes.

O EX-CAPITÃO DISSE A TRUMP” ‘I LOVE YOU’. FOTO: JORGE ARAUJO/FOLHAPRESS

Diz papa Francisco que a pandemia não é castigo divino, e sim a revolta da própria natureza agredida pelo ser humano de várias maneiras. Nem por isso, o Altíssimo está escanteado. Mas a desgraça que não nos poupa na minha visão tem a fisionomia de Donald Trump. Quando ele me aparece, caem quaisquer dúvidas que possam ter permanecido, como se suas expressões e seus comportamentos fossem simbólicos de tudo quanto padecemos.

Há muitas formas de ofender a natureza que não se limitam a queimar florestas. As doutrinas econômicas que vigoram faz bastante tempo são, como sabemos, responsáveis pelo empobrecimento progressivo de bilhões de seres humanos, enquanto uns poucos enriquecem desmesuradamente. Acrescentem-se as guerras a infelicitar inúmeras áreas do planeta, qual fossem capítulos de um enredo único ditado pelas conveniências dos donos do poder, semelhantes aos mercadores que Cristo enxotou do Templo.

A presença de um império do Oriente, soviético, precipitou a Guerra Fria para atiçar a prepotência e a hipocrisia do outro império, de sorte a sugerir a seguinte conclusão: causou males por reflexo para aquela já definida como civilização ocidental e cristã, enquanto a política de Washington provocou danos no mundo todo e desencadeou guerras malogradas, embora sangrentas e ao cabo pateticamente inúteis. Tio Sam quis ditar o destino do Oriente Médio para provocar tão somente um conflito que ali não se apaga. E pretendeu transformar a América Latina, Brasil na frente, no seu próprio quintal, e em largos momentos foi bem-sucedido na empreitada, sem dispensar invasões militares e incentivar os golpes locais.

❝Abu Ghraib e Guantánamo são apenas dois capítulos de um longo enredo de ‘tortura científica’

Contaram nestas operações, a desmentir toda e qualquer retórica em torno da defesa da democracia, com a instituição controladora, a CIA, sempre disposta a se esmerar no emprego das técnicas mais ferozes, pretensamente científicas de tortura, de sorte a deixar pálidos de inveja os algozes medievais. Nesta sequência de crimes contra a humanidade, Abu Ghraib e Guantánamo são apenas dois dos intermináveis episódios salientes. No fundo, Tio Sam cobriu-se de vergonha do alto de uma pirâmide de empáfia estabelecida sobre o poder econômico. 

Nunca vingou um momento de misericórdia com os vencidos temporariamente. Dizia o general William Westmoreland, durante a Guerra do Vietnã, herança de um fracasso francês e finalmente perdida, “vamos bombardeá-los até devolvê-los à Idade da Pedra. Toda esta desfaçatez, esta violência, a caminharem de braços dados com a insensatez, concentram-se na catadura de Donald Trump sem que isto indique a absolvição de quantos o precederam na presidência, até mesmo Barack Obama, todos prontos a aceitar o emprego de instrumentos voltados a garantir a hegemonia dos EUA e do seu império.

Há fortes razões de admiração pelos Estados Unidos, por seus institutos de pesquisa, por seus hospitais-modelo, por sua notabilíssima literatura, por sua imprensa, por seu cinema amiúde desassombrado em críticas e denúncias, por suas universidades, pelo jazz tão influente na música contemporânea, por seus cantores e cantoras de vozes inconfundíveis, por seus e suas atletas invencíveis em diversas modalidades esportivas. Existe, porém, e é pena, o reverso da medalha. Ainda recentemente, os Estados Unidos estiveram envolvidos em um lamentável capítulo brasileiro, iniciado pela Lava Jato, conduzida por dois dos seus agentes nativos, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

É do conhecimento até do mundo mineral: ambos buscavam em Washington as melhores orientações para condenar Lula sem provas e desencadear uma sequência de golpes que redundaram na eleição de Jair Bolsonaro, o ex-capitão a morrer de amor por Donald Trump. Veremos agora o que muda nas relações entre Washington e Brasília. 

O mapa-múndi, felizmente, mostra regiões do planeta em que as lições de Tio Sam não surtiram efeito. Há também no Velho e sempre Novo Mundo, Europa, quem mantenha uma conexão com o vetusto humanismo gerador da Renascença. A despeito da desgraça globalizada, é nestes exemplos que haverá de se basear a nossa esperança.