"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Artigo | Genocídio brasileiro, por Marcelo Uchôa

Comissão foi pródiga em mostrar que a empatia não é o forte dos que tocam a saúde nacional, menos ainda do presidente

*Por Marcelo Uchôa
Brasil de Fato | São Paulo (SP) 
Ação em memória das vítimas da covid-19 na Praça dos Três Poderes no dia 8 de outubro - Pedro França/Agência Senado

A CPI da Covid-19 chega ao seu final e a sociedade brasileira só tem a agradecer aos seus trabalhos. Graças a eles, brasileiras e brasileiros passaram a compreender, de maneira insofismável, que a negação do governo federal à pandemia não era apenas uma ideia calcada em má informação, tratava-se de estratégia pensada meticulosamente para lucrar, ora com a produção e a distribuição de remédios ineficazes contra a doença, ora com a administração de vacinas (algumas das quais incontroversas) adquiridas a preços superfaturados, ora com lobbies de segmentos corporativos da área médica, todas as hipóteses para contemplar um só desejo de enriquecer em rios de corrupção viabilizados morbidamente sobre a dor e o sofrimento da população.  

A comissão foi pródiga em mostrar que a empatia não é o forte dos que tocam a saúde nacional, menos ainda do presidente da República, para quem tanto faz se dezenas ou centenas de milhares de pessoas morrem em decorrência de seu mau exemplo pessoal, da sua incessante estratégia de desinformação ou das futricas políticas que alimenta contra todos que, opondo-se ao estado de absurdo, tentam levar à sério o grave desafio de salvar vidas durante o maior colapso da saúde mundial em décadas.

Não por acaso será provavelmente indiciado em múltiplos crimes do Código Penal: epidemia por propagação de germes patogênicos com resultado em morte (art. 267); infração de medida sanitária preventiva destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa (art. 268); charlatanismo (art. 283); perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132); incitação ao crime (art. 286); homicídio qualificado (art. 121); homicídio por omissão (art. 121 c/c Art. 13,  § 2º; lesão corporal grave (art. 129); idem, por omissão; falsificação de documento público e particular (arts. 297 e 298); emprego irregular de verba pública (art. 315); prevaricação (art. 319), sem falar em crimes de responsabilidade por afronta a diversos incisos do art. 85 da Constituição, os quais envolvem crimes praticados contra a probidade, a administração em geral e a ordem pública. 

Somadas, as penas excederiam a 30 anos de prisão. Parece muito, mas é pouco. Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), subnotificações à parte, a pandemia no Brasil já repercutiu, até segunda-feira (18), em 603.465 óbitos, 21.651.910 casos, o que correspondem a, aproximadamente, 14% e 10% dos números mundiais, absurdo se for considerado que o país não detém sequer 3% da população do Planeta.

Pior ainda, se for lembrado que o Brasil teve condições efetivas de ser uma das primeiras nações do mundo a iniciar uma estratégia de vacinação, o que não aconteceu devido à perversidade manifesta do governo federal.

Em resumo, todas as penas citadas, mais um impeachment e qualquer indenização pensada, não seriam suficientes para sancionar adequadamente a hecatombe promovida pelo presidente brasileiro, situação que também não compensaria a crueldade protagonizada por sua rede de asseclas, dentro e fora do governo. 

A história passada no país precisa ser levada ao conhecimento do mundo. É no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional que os psicopatas nacionais precisam responder por seus crimes. O morticínio brasileiro não foi obra do acaso, um joguete atroz do destino. Foi uma hipótese abominavelmente racionalizada. Foi crime contra a humanidade, foi genocídio. 

*Marcelo Uchôa é professor da Universidade de Fortaleza. Doutor em Direito. Membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) - Núcleo Ceará e Grupo Prerrogativas. Twitter/Instagram: @MarceloUchoa_

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Leandro Melito




sábado, 9 de outubro de 2021

Nobel da Paz é capacete para o jornalismo de combate, por Moisés Mendes

'O prêmio manda um recado: o jornalismo que busca a paz é o que não se acovarda na guerra. É hoje o jornalismo à margem das grandes corporações.'

Por Moisés Mendes  | Blog  
É pouco dizer que o Nobel da Paz para dois jornalistas é um prêmio à liberdade de expressão e ao direito à informação. É uma conclusão óbvia, mas incompleta.

O que o Nobel está dizendo é que o jornalismo de guerrilha está vivo. É uma lição também para as esquerdas brasileiras.

O Nobel premiou o jornalismo de combate e fez o que muita gente boa não faz ainda hoje: reconheceu um homem e uma mulher. O Nobel também ensina o que é paridade.

Já seria muito bom se o prêmio fosse para dois jornalistas das corporações internacionais. Fica melhor com a escolha de jornalistas de luta sem a proteção do poder econômico, Dimitri Muratov, do jornal russo Novaya Gazeta, e Maria Ressa, da agência digital filipina Rappler.

Ambos mexem nos monturos do poder. São duas figuras das periferias da imprensa, que sempre existiriam. Mas agora é diferente, porque o jornalismo enfrenta também os que duvidam do que ele faz, inclusive entre os chamados setores progressistas.

Boa parte da esquerda (e não só a primitiva) acha que o jornalismo está morto e que o importante agora é a guerra do WhatsApp e do Twitter.

Para a esquerda da lacração, é preciso vencer a guerra de bugios com o Carluxo. O Nobel acha que não, que o jornalismo que vai à guerra em busca de informação está vivo.

Sem jornalismo, não há conteúdo a ser jogado nas redes. Até as fake news vivem da distorção do que o jornalismo produz.

O Nobel da Paz está nos incentivando a afrontar o poder e os que trabalham contra o jornalismo. E não se faz jornalismo sem valentia e sem suporte político e econômico dos que desejam sustentá-lo.

O bolsonarismo sabe que pode acabar porque enfrentou a imprensa. Falta à esquerda acreditar que isso é possível e apoiar quem produz informação antifascista.

O mais importante recado do Nobel talvez seja este: a informação produzida à margem das corporações é o jornalismo do século 21.

Os democratas e os progressistas precisam acreditar que o Nobel está certo, mais uma vez.

O prêmio manda um recado: o jornalismo que busca a paz é o que não se acovarda na guerra. É hoje o jornalismo à margem das grandes corporações.

O Nobel ofereceu um capacete aos jornalistas de combate.



Covid-19: Sob a condução de Bolsonaro, Brasil ultrapassa 600 mil mortes. Por Lucas Vasques

Apesar de a pandemia estar em desaceleração, o país é o que registrou mais vítimas fatais do coronavírus em 2021 no mundo: até o momento, foram contabilizadas 405 mil mortes este ano

A ONG Rio de Paz estendeu lenços brancos em Copacabana em memória das vítimas da Covid - Foto: Reprodução/TV Globo

O Brasil, sob os desmandos de Jair Bolsonaro, ultrapassou, nesta sexta-feira (8), a marca dramática de 600 mil mortes desde o início da pandemia do coronavírus. O consórcio de veículos de imprensa divulgou, no início da tarde, um boletim extra para informar que o número de vítimas fatais da Covid-19 chegou a 600.077. Os casos confirmados são 21.893.752.

O elevadíssimo número de óbitos é alcançado em um momento em que a pandemia está em desaceleração no país. No entanto, o fato não tira a responsabilidade do governo federal pela péssima condução das políticas de combate à propagação do vírus.

A comprovação é que o Brasil ainda é o terceiro país no mundo com a maior média diária de mortes, atrás apenas de Estados Unidos e Rússia.

O país também mantém a marca de ser o que mais registrou vítimas fatais do coronavírus em 2021 no mundo: até o momento, foram contabilizadas 405 mil mortes por Covid-19 neste ano, mais do que Estados Unidos e Índia e quase o mesmo que todos os 27 países da União Europeia somados.

Homenagem

Nesta sexta, data em que o Brasil bateu a triste marca de 600 mil mortos em decorrência da Covid-19, a ONG Rio de Paz promoveu um ato em homenagem às vítimas da doença e em protesto à postura do governo Bolsonaro com relação à pandemia.

A entidade colocou 600 lenços brancos na praia de Copacabana simbolizando as vidas perdidas. O ato aconteceu pela manhã, na faixa de areia, em frente ao hotel Copacabana Palace.

“Houve um morticínio no Brasil: 600 mil mortos pela Covid-19. Se queremos tirar alguma lição dessa espantosa perda de vidas para que sofrimento como esse não se repita no nosso país, precisamos responder a uma pergunta central: quem são os responsáveis por esta tragédia?”, questiona o presidente da Rio de Paz, Antonio Carlos Costa.

“Três palavras sintetizam os erros cometidos pelo Governo Federal, principal responsável por estatística que nos põe no topo do número de óbitos no mundo: incompetência, irresponsabilidade e insensibilidade”, emenda.




Veto a absorventes mostra a monstruosidade de Bolsonaro, por Fernando Brito

'Vetar a distribuição de absorventes femininos no Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, que visava atender estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua, presidiárias e adolescentes detidas em cumprimento de medidas socioeducativas é algo que ultrapassa todos os limites de respeito humano.'

O problema de Jair Bolsonaro não é ser de direita, é ser um sujeito de natureza perversa e desumana.

Vetar a distribuição de absorventes femininos no Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, que visava atender estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua, presidiárias e adolescentes detidas em cumprimento de medidas socioeducativas é algo que ultrapassa todos os limites de respeito humano.

Submeter mulheres, especialmente adolescentes, ao constrangimento de exporem-se sem proteção no período menstrual, tendo de apelar para panos, papéis ou outros improvisos para conter o sangramento natural é de uma baixeza inacreditável.

Este é o presidente que manda o povo comprar fuzil, facilitando e subsidiando a importação de armas e artigos “essenciais” como videogames e diz que não há verba para algo que custaria cerca de R$ 1,20 por mês por beneficiária (5,6 milhões de pessoas a R$ 84,5 milhões por ano).

As justificativas para o veto, cínicas, são a de que não há previsão de receitas para estas compras no orçamento do SUS e de que, por dirigir-se ao que chamou de “público específico” não corresponderia ao critério de “universalidade” do sistema.

Havia recursos providos no SUS para a compra de toneladas de comprimidos de cloroquina? É óbvio que não existe a obrigação orçamentária de descer a este detalhamento e remanejar verbas, dentro do próprio orçamento, seria absolutamente viável. O “argumento” de que não é universal é de chorar, porque, fosse assim, nem mamografia se faria, porque mulheres de mais de 40 anos são muitas, mas não são o universo da população.

A razão é outra, é ódio às mulheres, e mais ainda às mulheres pobres e às que estão de vulnerabilidade.

Aliás, um ódio, sejamos justos, correspondido, tanto que, entre elas, o apoio a Bolsonaro é cerca da metade do que se registra entre os homens.

As mulheres parlamentares brasileiras deveriam organizar um grande movimento para a derrubada – inevitável, aliás – do veto presidencial. Produzir uma cena que percorresse o Brasil e o mundo para mostrar que tem-se, aqui, mais que um misógino na Presidência, tem-se um monstro no poder.



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Cardápio da miséria: carcaça de frango, pelanca, osso, pé de galinha e miojo. Por Henrique Rodrigues

As placas assustam o país. A forma como o trabalhador vem se alimentando revela o fundo do poço ao qual fomos conduzidos por Bolsonaro, o homem que espalhou a pobreza e a fome no Brasil como nenhum outro – Por Henrique Rodrigues

Edição de imagens

Quem entrava em açougues ou supermercados, desde a década de 80, via um cartaz que dizia “temos osso e pelanca para cachorro”. Por mais que a venda desse tipo de “resíduo” de carne bovina sempre estivesse ali, para ser dado ou vendido a preços irrisórios, uma nova prática, bem atual, vem assustando os cidadãos nos últimos tempos: a venda de produtos que seriam praticamente destinados ao lixo, vistos como resto, para a alimentação humana.

O buraco econômico e social cavado por Jair Bolsonaro para enterrar o povo brasileiro fez proliferar por todo território nacional os anúncios que oferecem ossos, carcaças de frango, pés de galinha e pelanca para “reforçar” a dieta de seres humanos que viram seus empregos, renda e dignidade serem implodidos.

Até o macarrão instantâneo, popularmente chamado de “miojo”, teve um salto nas vendas, segundo a indústria que o produz. O que antes era visto como uma extravagância ou imprudência alimentar de adolescentes, hoje figura como gênero base para manter de pé famílias inteiras que driblam a fome para seguirem vivas.

Até a mídia hegemônica, sócia na calamidade imposta por um destrambelhado sem escrúpulos que foi alçado à chefia do estado brasileiro para pôr fim aos “ladrões do PT”, veicula agora em seus programas diários as mais variadas receitas para preparar iguarias como ossos, carcaças, pés de galinha, pelanca e miojo. É a gourmetização do desespero e a glamourização da indigência, como pílula dourada para o horror daqueles que não têm mais ao que recorrer para dar de comer aos filhos e a si.

No Rio de Janeiro e em Cuiabá, filas imensas se formam para receber como esmola os vergonhosos ossos. Mesma sorte não tiveram os catarinenses, que precisam pagar R$ 4 no quilo do “produto”. Em Niterói, “sambiquira”, ou “dorso”, eufemismos para a carcaça que sobra dos frangos, vêm sendo vendidos por R$ 8,69.

Numa rodovia que corta o estado do Mato Grosso, próximo ao município de Várzea Grande, o que chama a atenção é a placa ofertando pelanca a R$ 0,99. A imagem embrulha o estômago porque nos leva a pensar em como alguém consumiria tal coisa.

O Estadão, o diário conservador paulista, traz numa de suas manchetes que o pé de galinha é a “carne possível”. Lembra na matéria que as partes nobres dessa ave sofreram aumento de 43% no último ano, mas não diz uma palavra sobre seu editorial de 8 de outubro de 2018, quando para esconder sua predileção por um sujeito de contornos psicopáticos resolveu se esconder atrás de “uma escolha muito difícil” para conduzir ao Planalto o tal desajustado.

Enquanto isso, na Folha, a explosão no faturamento das indústrias que produzem miojo foi destaque numa editoria voltada à economia. A linha fina justifica que o aumento nos negócios de R$ 2,6 bilhões para R$ 3,1 bilhões de um ano para outro “tem relação com o preço acessível do produto à população”.

Assim, aos poucos, normalizamos e institucionalizamos a miséria, com explicações macroeconômicas e análises de mercado, sempre mencionando o famigerado dólar, que saiu de R$ 3,65 no dia seguinte à posse de Jair Bolsonaro para os R$ 5,48 atuais.

Fiquemos tranquilos, já que Paulo Guedes, que mantém US$ 9.550.000 numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e que lucra R$ 16 mil por dia com a disparada da moeda estrangeira, assim como seu presidente do Banco Central, que possui investimento idêntico, darão jeito nesse nó econômico e farão o melhor para que os brasileiros deixem de comer restos, sobras e subprodutos em sua dieta diária.



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

EDUCAÇÃO: “A esperança é uma das razões pelas quais o pensamento do meu pai segue tão forte e tão presente”, diz filha de Paulo Freire

Em entrevista exclusiva, Fátima Freire comenta sobre o centenário do pai e o valor de sua mensagem de transformação nos tempos atuais

(Repórter da Agência Pulsar Brasil)
Edição: Jaqueline Deister
Paulo Freire é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial (Foto: Reprodução/Instituto Paulo Freire)

No próximo domingo, dia 19 de setembro, será comemorado, no mundo todo, o centenário do educador, pedagogo, filósofo e Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire. Para celebrar a vida e legado do pernambucano de Recife que revolucionou a educação brasileira e internacional com sua “Pedagogia do Oprimido”, a Pulsar Brasil conversou com Fátima Freire Dowbor, educadora, pedagoga e filha de Paulo.

Na entrevista, ela relembra o convívio com o pai durante a infância no exílio, a influência dele em suas escolhas ao longo da vida e fala sobre a responsabilidade e o privilégio de fazer parte da família de um dos maiores intelectuais brasileiros.

A educadora também comenta sobre o legado do pai, a incompreensão e perseguição que sofreu por conta de seus princípios libertadores e, sobretudo, o valor e pertinência de sua mensagem de transformação e esperança nos tempos atuais.

Para continuar lendo acesse aqui




quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O Brasil na imprensa alemã (15/09)

Após protestos de 7 de Setembro, imprensa alemã descreve Bolsonaro como uma ameaça e aponta que presidente continua tramando contra o sistema democrático.

Zeit Online – Perigoso quando ele fica na defensiva (14/09)

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, perdeu popularidade devido à pandemia e à crise econômica. Agora ele está tentando assegurar seu poder por meio de métodos mais sinistros.

(…)

O ex-capitão de 66 anos consolida seu próprio poder principalmente por meio da divisão. Ele já havia baseado sua carreira como parlamentar no incentivo, a partir das fileiras de fundo do Parlamento, às provocações contra mulheres, homossexuais e indígenas. Ao fazer isso, ele manteve uma pequena minoria de mentalidade reacionária ao seu lado. E desde que se tornou presidente, tem feito isso em grande estilo.

Nas pesquisas atuais, 25% dos brasileiros ainda continuam apoiando o presidente e parte dessa base é até altamente motivada, vai a manifestações pró-Bolsonaro e é ativa em redes sociais favoráveis ​​a Bolsonaro. Essa base de fãs está se radicalizando. Impulsionados pelos discursos e ataques verbais bem calculados de Bolsonaro, eles ora exigem a abolição da democracia, ora a prisão ou mesmo a morte de minorias sociais. Em faixas, exortam Bolsonaro a proclamar a velha ditadura militar com seus generais torturadores. O presidente então fica diante da multidão, plenamente ciente de tais demandas e acena. Ele é o líder golpista de seus corações

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Aliados de Bolsonaro, oponentes de Bolsonaro (09/09)

A briga entre o Judiciário e o presidente continua aumentando. Os partidários de Bolsonaro vão às ruas, mas a resistência também está crescendo. O presidente do Brasil pode resistir ao impeachment?

O presidente Jair Bolsonaro não esconde mais que está disposto a desrespeitar as regras da democracia e das instituições para se manter no poder. Por ocasião das manifestações em massa de seus apoiadores no Dia da Independência, que ele mesmo convocou, ele foi mais claro do que nunca. Ele ameaçou que não iria mais obedecer às decisões de juízes individuais. Se a corte não se contiver, pode sofrer "aquilo que não queremos".

Como reage o país a um presidente que ameaça sem rodeios fechar o Supremo Tribunal Federal e, assim, realizar um golpe? O presidente do Supremo respondeu às ameaças de Bolsonaro afirmando que ninguém fechará o tribunal. E que ignorar as decisões do Supremo Tribunal é crime.

Agora, as discussões sobre um procedimento de afastamento se reacenderam no Congresso. As últimas ameaças do Bolsonaro levaram dois partidos tradicionais, antes neutros, a se juntar à oposição, que há algum tempo pede o afastamento de Bolsonaro. No entanto, o bloco não é grande o suficiente para abrir tal procedimento. Além disso, a primeira decisão sobre o assunto está nas mãos do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Bem mais de 100 pedidos de processos de impeachment estão em sua mesa. Só ele decide se algum deles será aceito.

(...)

A escalada e as ameaças não despertaram apenas os políticos, mas também a população. Mesmo antes da manifestação dos apoiadores do Bolsonaro no Dia da Independência, manifestações contra o Bolsonaro foram anunciadas para o domingo seguinte. Muitos veem isso como uma oportunidade para unir as diferentes alas da oposição por trás do apelo pelo impeachment e a defesa da democracia.

Der Spiegel – Refém do presidente (11/09)

Jair Bolsonaro está enfraquecido, mas pode continuar causando grandes danos à democracia brasileira.

Nas redes sociais, Jair Bolsonaro se apresenta como um presidente popular que se deiou festejar na terça-feira, feriado nacional, em um caminhão de som em São Paulo diante de dezenas de milhares de apoiadores. Ninguém vê que grande parte das pessoas teve que ser levada até lá, nem que apenas uma fração do público esperado apareceu no evento anterior, em Brasília. Anteriormente, temia-se que o presidente encurralado pudesse convocar seus apoiadores – como Donald Trump nos Estados Unidos – a invadir a Suprema Corte. Em vez disso, Bolsonaro realizou um monólogo de três minutos na frente do núcleo duro de seus seguidores. Atacou o Judiciário que o investiga e anunciou que não iria mais acatar as decisões judiciais no futuro.

Bolsonaro luta pela própria sobrevivência política: de acordo com pesquisas, apenas cerca de um quarto dos entrevistados ainda o apoia. Em vista de uma grave crise econômica, alto desemprego, uma seca dramática e mais de 500 mil mortes pelo coronavírus, ainda é uma quantia considerável, mas não é suficiente para lançar um golpe – e nem mesmo para ganhar as eleições presidenciais no próximo ano.

Governar seriamente é algo que Bolsonaro quase não fez nos últimos anos – a menos que se considere suas representações no YouTube como uma arte de governar. E a partir de agora ele se dedicará apenas à campanha eleitoral. O Brasil tornou-se refém de um presidente que não tem nenhum plano além de construir inimigos. Parte da culpa pelo fato de ele ainda estar no cargo de membros do Centro, que apoiam Bolsonaro no Parlamento porque ele lhes dá cargos e benefícios. Diante do presidente do Parlamento Arthur Lira – também considerado aliado de Bolsonaro – estão mais de 120 pedidos de impeachment. Lira os empilha, mas não leva um único deles à votação. O oportunismo da classe política é maior do que o senso do bem comum. Ela tolera que a democracia brasileira vá para o buraco.




segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A lógica perversa, por Régis Barros

"Bolsonaro foi o pior erro da nossa história republicana e, se duvidar, foi o maior erro da nossa história."

*Por Régis Barros
Texto publicado no Facebook da ABMMD-CE
Há tempos não escrevo um ensaio sobre política. O motivo é simples – uma postura de me defender. Defendo-me de ataques, agressividades, ironias e de tudo que remonta ao que é tacanho. Defendo-me de ter que me afastar de amigos do passado ou do presente que, ao defender a bestialidade, despertam em mim um desejo de rompimento. Defendo-me de ter que fazer isso, também, em relação a familiares. Isso me machuca muito, pois sou um ser inquieto e costumo, respeitosamente, sem agredir a opinião de ninguém, postular o que penso. Mas, hoje, não consegui. Eis que nasceu essa pequena reflexão.

Não há como defender o Bolsonaro! Não existe a mínima possibilidade de fazê-lo. Você pode até detestar o PT e ter ojeriza às pautas da esquerda, porém, mesmo assim, não há como defender o atual Presidente da República. A manutenção do mantra da defesa só se sustenta por ingenuidade, canalhice ou estrutura deliróide extremista. Pelo amor de Deus, observe ao seu redor. Veja como essa pandemia foi tratada. Veja a falta de empatia. Veja o descaso com as mortes e a falta de seriedade no combate da emergência sanitária. Veja o ataque sistemático e recorrente à democracia e às instituições. Veja o estímulo à violência e ao rompimento da ordem democrática. Veja a fome. Veja o desemprego. Veja a inflação. Veja o valor dos alimentos. Veja o valor do litro da gasolina e do botijão de gás. Veja o enriquecimento do clã Bolsonaro. Veja o risco iminente de colapso da energia elétrica que está prestes a acontecer. Veja a realidade. Ela pode até incomodar, mas ela é soberana. Se, apesar disso, você ainda não perceber, então olha para sua vida e veja se ela está melhorando. Veja se o futuro é otimista. Nossos sonhos estão sendo roubados. Bolsonaro foi o pior erro da nossa história republicana e, se duvidar, foi o maior erro da nossa história.

*É médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

[Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia - ABMMD-CE]


domingo, 5 de setembro de 2021

CNBB alerta cristãos: ‘Não se deixem convencer por quem agride os poderes Legislativo e Judiciário’

Mensagem da CNBB ainda rebate declarações de Bolsonaro: 'Cristão é agente da Paz e a paz não se constrói com armas’

Foto: Reprodução

A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta sexta-feira 3 uma mensagem em que pede que cristãos ‘não se deixem convencer por quem agride os poderes Legislativo e Judiciário’ no dia 7 de setembro.

A mensagem oficial foi gravada pelo presidente da Confederação, dom Walmor Oliveira de Azevedo e, ainda que não cite nominalmente Jair Bolsonaro, as declarações fazem clara referência aos ataques recentes proferidos pelo mandatário.

“Não se deixe convencer por quem agride os poderes Legislativo e Judiciário. A existência de três poderes impede a existência de totalitarismos”, afirma o presidente da CNBB após dizer que o País foi tomado por ‘sentimentos de raiva e intolerância’. “Agredir, eliminar, hostilizar, ignorar ou excluir não combinam com uma democracia”, acrescenta.

Para dom Walmor, “muitos em nome de ideologias dedicam-se a agressões, ofensas, chegando ao absurdo de defender o armamento da população”. A afirmação é uma resposta aos pronunciamentos de Bolsonaro que recentemente pregou que todos os brasileiros deveriam se armar e incentivou a compra de fuzis.

Em outro trecho, dom Walmor volta a repudiar o incentivo ao uso de armas e afirma que quem é cristão de verdade deve ser agente da paz. Nesta semana, Bolsonaro afirmou que ‘se quer paz’, o Brasil terá que ‘se preparar para a guerra’.

“Quem se diz cristão ou cristã deve ser agente da Paz e a paz não se constrói com armas. Somos todos irmãos. Esta verdade é sublinhada pelo Papa Francisco na carta encíclica Fratelli Tutti”, responde.

O presidente da entidade ainda cobrou mais ações do governo federal para combater a fome, o desemprego e o avanço da inflação no Brasil. Na mensagem pediu ainda por respeito à ciência, incentivou a vacinação e a conservação da natureza.

Dom Walmor pediu também atenção especial aos povos indígenas durante o feriado pátrio, que enfrentam neste momento uma tentativa de desmonte dos seus direitos com o julgamento do marco temporal. Os povos originários fazem em Brasília desde a última semana o maior protesto da história contra os ataques do governo.

“Nossa pátria não começa com a colonização europeia. Nossas raízes estão nas matas e florestas, num sinal claro nos ensinando que a nossa relação com planeta deve ser pautada pela harmonia. Os povos indígenas, historicamente perseguidos e dizimados, enfrentam graves ameaças da pressão do poder econômico extrativista e ganancioso que tudo faz para exaurir nossos recursos naturais”, destacou o bispo brasileiro.

A CNBB finalizou a mensagem ainda pedindo que os manifestantes não pratiquem atos violentos no dia 7 de setembro. “As desavenças não podem justificar a violência. Somos todos irmãos”, diz.

Confira a íntegra da mensagem: https://youtu.be/wC8C4N-Tb1I




Não basta falar em Deus, por Martha Medeiros

"A pessoa que fala em Deus, que cita Deus, que se agarra em Deus, pode ser um ser humano extremamente bom e justo. Mas para confirmarmos, falta todo o resto."

Por Martha Medeiros
Texto publicado na página do Facebook da autora 
Um leitor me pergunta por e-mail: “Como podes atacar um homem tão bom, um aliado de Deus?”. Não preciso dizer a quem ele defendia. A mensagem era cortês, de alguém que acredita que um político que se apresenta abraçado a Deus logicamente fará o melhor para todos. Enquanto isso, o diabo ri pelas costas dos inocentes. 

Política e religião não deveriam se misturar, um assunto é público e o outro é privado. Mas, curiosamente, são os políticos mais “polêmicos” (ah, os eufemismos) que usam e abusam de Deus como cabo eleitoral, pois sabem que a religião sempre serviu como blindagem contra críticas. 

Muitos de nós buscam conforto na religião, outros buscam conforto na natureza, na arte, na ciência, no humanismo - tanto faz. Uma pessoa é boa pelos seus princípios éticos e morais, não pelos meios com que alimenta seu espírito. Eu posso ser equilibrada, amorosa, generosa e solidária sem nunca ter colocado uma hóstia na boca e sem atribuir minhas ações a uma força divina e sobrenatural. Assim como posso ir à missa todos os domingos, crer que Deus está acima de tudo, e minha suposta benignidade ser uma fraude.  

O que eu chamo intimamente de Deus, e o que você chama, está igualmente a serviço do bem e do mal, ou não haveria extremistas radicais, atentados terroristas, populações subjugadas em nome da fé. Adesivar o carro com o emblema “Jesus te ama” ou rezar antes das refeições têm efeito zero sobre nossa índole.   
   
Há maneiras mais eficientes de descobrir se alguém é de fato especial. Ouça o que ela diz. Observe como se comporta. Que respeito tem pelos outros. O quanto é sensível ao sofrimento alheio. Como trata aqueles que a estão servindo. O quanto se interessa por quem não lhe é útil. O que a emociona. Em que medida se compromete com a verdade. O quanto se dedica à escuta. O tom de voz com que se comunica. Em que ela contribui para a sociedade. Qual sua predisposição em evoluir, em acompanhar as mudanças do seu tempo. O quanto evita causar desassossegos. Se estende a mão quando lhe pedem ajuda. Como lida com crianças e idosos. Qual a importância que dá para a beleza de uma escultura, para a emoção provocada por uma música. Se consegue compreender que miséria e vício não são escolhas, se sente compaixão por quem padece pela desigualdade social. 

Prestando bem atenção, você conseguirá perceber se essa pessoa tem valores e intenções confiáveis, ou se é uma egoísta a serviço da própria vaidade e da ambição por poder. Seja qual for o resultado da sua análise, você não terá a mínima ideia se ela é religiosa ou não.  

A pessoa que fala em Deus, que cita Deus, que se agarra em Deus, pode ser um ser humano extremamente bom e justo. Mas para confirmarmos, falta todo o resto.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Nota de pesar de Lula pelo falecimento de Sérgio Mamberti

"Eu tive a honra de tê-lo como amigo e companheiro em tantos momentos ao longo de décadas, e jamais o esquecerei, e sei que o Brasil também jamais o esquecerá", disse Lula.

Da página do Facebook do ex-presidente Lula
(Foto: Ricardo Stuckert)

O ator Sérgio Mamberti, de 82 anos, morreu nesta sexta-feira (3), em São Paulo. 

Confira a nota do ex-presidente lamentando a morte do ator: 

"Sérgio Mamberti foi um dos maiores atores da história do Brasil, além de escritor e diretor, um homem de teatro completo, e um ser humano de coração e generosidade imensas, sempre disposto a ajudar e lutar pela democracia, pela cultura, pelas causas sociais, a fazer o bem ao próximo. 

A sua contribuição para a cultura brasileira nos palcos, no cinema, na TV, na Funarte e no Ministério da Cultura, na construção de políticas públicas para as artes nacionais é imensa. Se o povo brasileiro o admirava pelo seu talento, quem o conhecia de perto o admirava pela sua humildade, carinho e inteligência.

Foi fundador e militante do PT e sempre esteve ao lado das causas do povo brasileiro. Eu tive a honra de tê-lo como amigo e companheiro em tantos momentos ao longo de décadas, e jamais o esquecerei, e sei que o Brasil também jamais o esquecerá. 

Meus sentimentos e solidariedade aos filhos, familiares, amigos, companheiros e admiradores de Sérgio Mamberti."

Luiz Inácio Lula da Silva


sábado, 28 de agosto de 2021

O fuzil do Vander, por Fernando Brito

'O Luís Vander, brasileiro aí na foto, catando pelancas e sobras, é um ser humano mais decente que o presidente da República do Brasil.'

O Luís Vander, brasileiro aí na foto, catando pelancas e sobras, é um ser humano mais decente que o presidente da República do Brasil.

Ele não compra armas, não faz motociata. Se fizer arminha, a classe média bolsonarista dirá que está tentando assaltar alguém.

Ele não pode apagar um ponto de luz, para ajudar a não ter “apagão” porque vive na rua. Não pode comprar nem feijão, que dirá fuzil 762.

Vive um mês, quem sabe, com o que algum bacana que diga “que horror” ao vê-lo com seus despojos na calçada gasta num bom vinho.

Não pode ir à Disney, como diz Paulo Guedes os pobres andavam indo e nem a Paris, nem mesmo à praça ali do lado, com jardins ao estilo da cidade-luz, porque a praça está devidamente gradeada e policiada, para evitar miseráveis.

Não há brioches para Vander no mundo das Maria Antonieta.

A ele, os zelosos homens de bem querem varridos para algum canto, como as folhas das amendoeiras que o vento forte e a seca derrubam pelas calçadas cariocas. Os podres, afinal, fazem muita sujeira, no chão e nos olhos.

Mas, ao contrario dos ciscos que o vento sopra aos olhos, não provoca uma lágrima, ainda que esteja a dez passos da sede da Igreja Católica no Rio, o Palácio São Joaquim, pai de outra Maria, a Virgem, e avô de Jesus Cristo.

Vander nem mesmo “enche o saco” de quem manda comprar fuzis para varrer de perto de si a sujeira dos pobres.

E que farão de tudo para que ele e milhões deles não se atrevam a pretenderem ser cidadãos.

Um multidão de Vanderes que não tem fuzil, não tem feijão mas que, contra a vontade de Bolsonaro e bolsonaristas, tem voto, a única arma pesada que querem proibir-lhes.




sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Miséria de Bolsonaro: agora pão, café e manteiga somem das mesas brasileiras, por Henrique Rodrigues

Ouça o estômago e não deixe o presidente te matar de fome. Primeiro arroz e feijão, que registraram aumento recorde, agora são os itens dos cafés da manhã e da tarde que lhes são tirados. O Brasil vive uma catástrofe

Foto: Destaque Notícias/Redes sociais (Reprodução)

Comer, necessidade humana básica para a manutenção da vida e preservação da própria existência, tornou-se a preocupação central para a maior parte dos brasileiros. E se um governo faz você se preocupar em sobreviver, há algo de muito errado.

Há pouco mais de três meses, em abril, veio a confirmação daquilo que milhões de cidadãos já sentiam no bolso e no estômago. O feijão e o arroz, alimentos que formam a base da principal refeição da imensa maioria dos brasileiros, de acordo com dados da FGV, tiveram alta de 60% apenas em 2021. Era a comprovação, alicerçada em estatísticas dos economistas, de que seu dinheiro derrete e a comida desaparece do garfo de sua família.

E a coisa só piorou de lá para cá. Como disse José Saramago em seu Último Caderno de Lanzarote, as desgraças são facilmente recidivas, e, para provar a frase do Nobel, recebemos neste momento os dados que apenas retratam no papel aquilo que as minguadas moedas dos bolsos dos desempregados e arrochados trabalhadores do país já sentiam: pão, café e manteiga também registram altas pornográficas.

Os índices do IPCA mostraram que o pó de café subiu 17,5%, enquanto o pão francês e a manteiga 8%, em menos de um ano. Carestia, meus amigos. Falamos de carestia, que segundo os melhores dicionários da praça é a escassez de víveres, o encarecimento do custo de vida por conta dos preços totalmente acima da realidade.

Ainda bem que o presidente Jair Bolsonaro já tem uma solução. Ontem (18) mesmo, numa igreja evangélica no Pará, ele disse que toda essa miséria atochada goela baixo dos brasileiros por ele, com sua morbidez de caráter, indiferença contumaz e inequívoca inaptidão para gerir qualquer coisa, será vencida com “fé e crença”.

Quando a fome lhes abater e a carestia falar alto, senhoras e senhores, mantenham indômita a sua fé e não pare de crer. São as receitas do homem que gastou R$ 5,8 milhões no cartão corporativo só de janeiro a agosto deste corrente ano.

Jair Bolsonaro será, para todo o sempre (e o tempo mostrará sem qualquer sombra de dúvidas) a maior de todas as tragédias política de nossa nação, na História. Aliás, já está sendo, ainda que só o avanço dos dias, meses e anos possam lançar luz sobre um monstro para que todo o povo saiba e jamais esqueça.

A fila do osso, de um mês atrás, com mulheres esfarrapadas famélicas comendo os fiapos de carne e cartilagem crus, ali mesmo na rua, apressadas pela urgência cega da fome, ainda estão vivas em nossa memória quando chegamos ao mercado e vemos uma barra fuleira de manteiga ser vendida a R$ 10, ou um saquinho de café ao equivalente a um quilo de muitos tipos de carne há poucos anos.

Há que se fazer algo. Bolsonaro não pode continuar à frente de toda essa insanidade. Fome numa das maiores economias do planeta e inflação a corroer a dignidade dos brasileiros não podem ser tudo que um governo oferece aos seus cidadãos.




quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Ivy Faria, filha de Romário responde fala preconceituosa de ministro da Educação

"Sabe, eu tenho síndrome de Down, sou uma pessoa com deficiência, e sou estudante. Eu estudo para ter um futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém", disse Ivy. 
Romário ao lado da filha Ivy (Imagem: Reprodução/Instagram)

Ivy Faria, filha do senador e ex-jogador Romário, escreveu uma carta para responder a fala preconceituosa do Ministro da Educação Milton Ribeiro, de que a criança com deficiência colocada em uma sala de aula com alunos sem deficiência não aprende e atrapalha o aprendizado das outras crianças.

Na carta aberta publicada em seu Instagram, Ivy diz que está triste com o ministro e que falta educação a ele. 

Veja a carta na íntegra:

“Seu ministro da Educação, aqui é a Ivy, eu estou muito triste com Sr. Sabe, eu tenho síndrome de Down, sou uma pessoa com deficiência, e sou estudante. Eu estudo para ter um futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém. Frequento uma escola regular, onde há jovens com e sem deficiência, cada um aprende no seu tempo, ninguém é igual.

A minha presença e a de outras pessoas com deficiência não é ruim, muito pelo contrário, desde a escola, meus coleguinhas aprendem uma lição que parece que o Sr. não teve a oportunidade de aprender, que a diversidade faz parte da natureza humana e isso é uma riqueza.

A fala do senhor revela muita falta de educação, como pode achar que a deficiência torna alguém incapaz de estudar? A deficiência não nos torna incapaz de nada, basta que tenhamos oportunidade. Tem advogado cego, tem relações públicas com síndrome de Down, e tem mais um monte de gente com deficiência formado na universidade e trabalhando pro Brasil.

E pra dar aquele orgulho e mostrar com muito talento a nossa força de vontade de superar tantas barreiras, vem aí as Paralimpíadas com dezenas de atletas dando muito orgulho e nos enchendo de motivação. Seu Ministro, uma criança com deficiência em sala de aula contribui mais com a educação deste país do que o senhor neste ministério”.


O planeta dos extremos, por Cristina Serra

'Como sempre, os pobres e as nações menos desenvolvidas sofrerão os impactos antes e com mais intensidade. Mas a conta chegará também para os ricos. O planeta é um só.'

Cristina Serra, jornalista e escritora.

O Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (IPCC) reforçou de modo contundente os alertas que vem fazendo sobre o efeito das atividades humanas no desequilíbrio climático. O novo estudo é um apelo à ação antes que as oportunidades de evitar a catástrofe sejam desperdiçadas. 

A omissão nos custará caro. Vamos viver (?) no planeta dos extremos: aumentos de temperatura, ondas de calor, tempestades, enchentes. Aquecimento dos oceanos, derretimento das geleiras, elevação do nível do mar. Secas, incêndios, perda de colheitas. Fome, guerras pela água, refugiados do clima. Um mundo hostil e inimigo da vida humana.

Como sempre, os pobres e as nações menos desenvolvidas sofrerão os impactos antes e com mais intensidade. Mas a conta chegará também para os ricos. O planeta é um só.

Assento nas espaçonaves de Jeff Bezos ou de Richard Branson? Colônias na lua? Vã ilusão. A vida é aqui e agora. 

Sem os governos mais influentes e as empresas mais poderosas nenhum acordo para redução das emissões de carbono vai se tornar realidade. É preciso mudar a chave da economia global, baseada na queima de combustíveis fósseis. Mudanças de tal envergadura requerem visão de longo prazo e compromisso humanitário. Governos e corporações estarão à altura?

E onde entramos nós, brasileiros, em processo de involução civilizatória? Há décadas, o Brasil vinha articulando esforços colaborativos para superar a falsa dicotomia entre desenvolvimento e proteção ambiental. Marco importante foi a Política Nacional do Meio Ambiente (que completa 40 anos), comando legal fortalecido pela Constituição de 1988. 

Rio 92, Rio+20 e todas as outras conferências do clima em que o Brasil foi voz ativa firmaram nossas obrigações perante o mundo. O atual governo representa uma ruptura nessa rota. 

Mas voltaremos à ela porque o Brasil é maior e melhor. O momento histórico nos cobra duas imensas responsabilidades: proteger nosso futuro como espécie e lutar pela nossa democracia.

(publicado originalmente na Folha de São Paulo em 14/08/2021)




sábado, 14 de agosto de 2021

O jogo sujo do bolsonarismo não precisa do voto impresso, por Moisés Mendes

'Bolsonaro não quer voto impresso, nem auditagem e tampouco transparência. O que ele quer é a confusão que qualquer fascista pode promover hoje em qualquer lugar, sem muita dificuldade.'

Pedro Castillo foi eleito presidente do Peru no dia 6 de junho. Mas só foi declarado e reconhecido oficialmente como eleito no dia 19 de julho, porque Keiko Fujimori, a candidata da extrema direita, não aceitou a terceira derrota, tentou anular a eleição e depois pediu recontagem de votos.

No Peru, direita e extrema direita têm agora o apoio sofisticado, explícito e neoliberal de Mario Vargas Llosa. Não deve existir em outro lugar uma situação tão esdrúxula em que um Prêmio Nobel apoie golpistas.

Mas assim caminha a América do Sul. Na Bolívia, em outubro de 2019, Evo Morales foi reeleito, e a Organização dos Estados Americanos levantou suspeitas sobre a lisura da eleição.

Era a senha para que aplicassem o golpe e um mês depois aconteceu a queda de Morales. O golpe durou apenas um ano, a democracia venceu, e as denúncias sobre fraudes nas eleições foram finalmente arquivadas este mês pelo Ministério Público, com base em conclusões de uma auditoria internacional.

Mas direita e extrema direita, lideradas por Luis Fernando Macho Camacho, governador de Santa Cruz de la Sierra, não desistem, mesmo que o golpe tenha sido aparentemente sepultado e os golpistas civis e militares (menos Camacho e alguns generais foragidos) estejam presos.

Mantém-se em todas as frentes do golpismo a pregação de que a eleição foi roubada, agora com novo ataque da OEA ao arquivamento das denúncias pelo MP.

Não, eles não questionam a eleição de outubro do ano passado, que elegeu Luis Arce e levou o Movimento ao Socialismo de volta ao poder. Os golpistas atacam a eleição de outubro de 2019, aquela vencida por Morales.

Na Argentina, Mauricio Macri dá entrevistas a todo momento aos jornais e TVs da direita, para dizer que não confia em alguns juízes eleitorais, porque seriam ligados ao kirchnerismo.

Macri diz desconfiar da Justiça Eleitoral e também pede mais transparência, depois de ter sido derrotado por Alberto Fernández em outubro de 2019 e se preparar para novas derrotas.

O argentino ‘liberal’, modelo latino de Paulo Guedes, caminhou para a extrema direita e está agora sob a acusação de ter colaborado, com o envio de munições a La Paz, para o êxito do golpe na Bolívia.

Todos eles imitam Donald Trump, depois da descoberta de que é fácil tumultuar a democracia. Toda a eleição perdida deve ser questionada, de preferência com uma grande confusão.

O surpreendente é que essa estratégia foi acionada aqui pela soberba tucana, quando Aécio Neves não aceitou a derrota em 2014 e abriu a porteira para o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff. A farsa de Aécio acabou gerando Bolsonaro.

E a farsa do voto impresso de Bolsonaro é a sequência desse enredo latino. Bolsonaro vai esticar até onde for possível a falsa controvérsia, enquanto parte do Congresso, TSE e Supremo buscam um jeito de desarmá-lo.

Todos eles, Aécio, Trump, Fujimori, Camacho, Macri e Bolsonaro precisam de poucos instrumentos para esculhambar com a democracia, dentro da própria eleição, sempre que forem perdedores.

O voto impresso no Brasil seria a chance de uma recontagem sem fim, porque, mesmo que termine, como terminou no Peru e na Bolívia, o resultado da eleição estará sempre sob suspeita, se o vencedor for a esquerda.

Bolsonaro não quer voto impresso, nem auditagem e tampouco transparência. O que ele quer é a confusão que qualquer fascista pode promover hoje em qualquer lugar, sem muita dificuldade.

Bolsonaro deseja que o resultado da eleição se transforme num imbróglio. Esperava, com o voto impresso, que após a eleição fossem encontrados ‘votos’ em calçadas, estradas, lixões, valos, esgotos, por todo lado.

Sem o voto impresso, o bolsonarismo já prepara os cenários para 2022. Teremos centenas de vídeos de eleitores com denúncias de fraudes.

A eleição de 2022, com ou sem Bolsonaro, terá gente gritando nas seções eleitorais e pedindo o registro do flagrante de fraudes.

O voto impresso facilitaria a vida desse pessoal, porque eles teriam os vídeos, a gritaria, a recontagem e as ‘cédulas’ fabricadas e extraviadas.

Mas o bolsonarismo não precisa do voto impresso para ir em frente contra a eleição em que pode ser goleado por Lula. Precisa apenas de milícias bem organizadas para fabricar fraudes em cada Estado.

Luis Roberto Barroso e o TSE fazem o certo com as trancas das novas medidas que ampliarão a transparência e os mecanismos de controle e auditoria das urnas eletrônicas e da apuração, com a participação de outras instituições.

O ministro amplia as cumplicidades em torno de um sistema eleitoral consagrado, mas só isso não basta. O TSE deve se preparar também para o jogo sujo, se é que consegue.




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Tribunal de Contas da União conclui que o voto eletrônico é seguro

Segundo o TCU, já há diversas formas de fazer a auditoria nas urnas eletrônicas

Da CNN, em São Paulo
Por Fernanda Colavitti
Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

O Tribunal de Contas da União (TCU) fez uma auditoria sobre as urnas eletrônicas e concluiu, nesta terça-feira (10), que o voto eletrônico é seguro. Foi a primeira vez que o TCU fez esse tipo de auditoria para entender a confiabilidade no atual sistema de votação brasileiro que, desde 1996, é baseado no uso de urnas eletrônicas. 

Segundo o Tribunal de Contas da União, já há diversas formas de fazer a auditoria nas urnas eletrônicas e o sistema é seguro.

Em um relatório que totaliza mais de 70 páginas sobre a auditoria nas urnas eletrônicas, o Tribunal de Contas da União menciona que existem mecanismos de auditagem que permitem acompanhar todo o processo de votação.

“Houve um inegável avanço nos quesitos de segurança e confiabilidade das eleições a partir da implementação da votação eletrônica, que minimizou riscos de intervenção humana. Existem mecanismos de auditagem criados em todo o processo de votação, desde a etapa de desenvolvimento dos sistema, passando pela realização de testes públicos de segurança, testes de integridade, votação paralela e até a totalização e a divulgação dos resultados, contemplando as medidas de verificação, mesmo após a conclusão do processo eleitoral”.