"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Violência psicológica, tentativa de estupro e a cruel conivência da Globo, por Luciana Sérvulo da Cunha

Além da violência sofrida, muito está oculto no silêncio doído das vítimas e na omissão dos agressores. Um país que ignora os altos índices de violência contra a mulher, pouco estuda cientificamente os perfis e as relações entre vítimas e agressores, acaba alimentando um silêncio cortante.

*Por Luciana Sérvulo da Cunha
(Foto: YouTube/Reprodução)

“Um indivíduo pode conseguir destruir o outro por um processo de contínuo e atormentador assédio.” – Hirigoyen.

Começo essa escrita expressando minha solidariedade e carinho à Dani Calabresa, exaltando sua coragem em denunciar o moribundo ex-humorista Marcius Melhem por assédio moral e sexual na Rede Globo. Manifestando também o desejo de que não precisemos mais ressaltar e admirar a coragem de uma mulher quando ela viveu o inferno, teve sua vida despedaçada e por uma questão de sobrevivência de seu corpo fragmentado e sua alma roubada tem que gritar suas feridas. Sim, estupradores são ladrões de corpos e não se diferenciam de abusadores(as), ladrões de almas. Que nós mulheres possamos viver em um mundo onde não precisemos mais ser injustamente corajosas assim!

Passar por uma relação abusiva com pessoas famosas, admiradas, adoradas e seguidas por milhões de pessoas é o pior dos infernos, pois além do fato de involuntariamente termos que trombar constantemente com essa pessoa e sua “arte” na grande mídia e nas redes sociais, engolimos a seco e revivemos a dor a cada vídeo, show, espetáculo e comentários nos grupos de WhatsApp, geralmente seguidos de infinitos coraçõezinhos iludidos acompanhados de um surreal “perfeita”(o), nos trazendo uma sensação de impotência corrosiva e massacrante, sentindo na pele o que significa ter que lidar com a opressão do status e o “poder” da imagem em uma sociedade narcísica, onde eles são eleitos reis. Falo do lugar de quem viveu uma relação de abuso emocional com essas características. Até conseguir entender, e principalmente assumir e nomear que o que tinha acontecido comigo, que é “violência psicológica”, levou muito tempo. Outro tempo tão longo, tem sido a profunda busca pela cura.

A violência emocional é a violência mais comum praticada contra as mulheres e uma das mais difíceis de serem reconhecidas e combatidas. Seja pela cultura machista e patriarcal em que somos criadas e estamos inseridas, seja pela falta de pesquisa, informação e ferramentas de combate a esta violência tão naturalizada e enraizada no cotidiano das brasileiras, ou pelas suas características específicas. O abuso emocional não deixa marcas físicas. Ele é uma violência silenciosa, por ser velada e insidiosa.

A violência psicológica está centrada na questão do poder e domínio sobre o outro e pode ser executada por pessoas com perversão narcísica ou algum tipo de transtorno de personalidade. A vítima a sofre de maneira silenciosa porque se trata de uma violência não assumida e negada pelo (a) agressor(a), que sutilmente inverte a relação acusando o outro de ser o culpado pela situação. Desta forma, a vítima se sente confusa e acaba por sentir-se culpada, o que, por sua vez, inocenta o(a) agressor(a). Não se trata de uma violência física, e esta não é pontual: estende-se ao longo do tempo. Como essa não é uma perversão explícita, ao contrário, ela se mistura no dia a dia, nos pequenos atos, nas pequenas relações, passa despercebida. Assim, o(a) agressor(a) vai deturpando de maneira sutil e pejorativa a visão que a vítima tem de si, retirando sua vitalidade e vivacidade, diminuindo, humilhando, fazendo ruir sua autoestima e sua paz interior, a induzindo a um estado de confusão, vulnerabilidade e consequentemente, de dependência emocional, levando um longo tempo para a vítima perceber, e sobretudo para reconhecer, estupefata, que está presa numa teia.

O abuso emocional geralmente está presente em todas as outras formas de abuso e pode ser uma porta para outros tipos de violências, como a violência sexual. Ele pode começar de forma sutil, com desencorajamentos à realização de projetos próprios, por um constante apontar de erros, falhas e defeitos da vítima bem como a subestimação de sua capacidade, até chegar a xingamentos, gritos, cobranças excessivas, falsas acusações, perseguição, desautorização das decisões pessoais (roupas, escolhas, amizades, horários, estudos/trabalho), chantagens, ameaças, depreciações, ciúmes frequentes, ironias e exposição da figura. Alguns exemplos aqui dados podem parecer óbvios, mas ressalto que quando o abusador(a) lança mão deles em uma relação, seja ela amorosa ou uma relação de amizade, a presa já está enredada em sua teia e não consegue ter clareza suficiente para assim perceber. Algumas relações onde já existe um nível de entrega e confiança da parte da vítima, o abusador(a) não precisa se utilizar de uma violência mais brutal e explícita mantendo um comportamento sedutor, encantador com medidos tons de manipulação e dubiedade, uma vez que o amor da vítima já é o suficiente para ser seu suprimento narcísico por bastante tempo.

Pondero aqui que pessoas narcísicas perversas podem estar presentes em nossas vidas em um número muito maior do que possamos imaginar e elas geralmente tem por características imediatas a inteligência, a sedução, a amabilidade, a diplomacia, a boa retórica e o bom humor. Não existe abusador ou abusadora que não seja atraente e encantador(a). E no fundo, quando convivemos na intimidade com eles(as), o que percebemos é uma insegurança gritante, uma inveja incontrolável, uma solidão colossal, uma falta de empatia abismal, grande imaturidade emocional e incapacidade total de olhar pra dentro e lidar com seus próprios sentimentos e emoções. O narcisista perverso é incapaz de admitir seus erros, sempre se colocará como vítima e projetará nos outros seus monstros internos e todos os fracassos de sua vida, autojustificando as punições e crueldades cometidas ao longo de muitas relações abusivas, deixando vidas literalmente como terras arrasadas.

Além da violência sofrida, muito está oculto no silêncio doído das vítimas e na omissão dos(as) agressores(as). Um país que ignora os altos índices de violência contra a mulher, pouco estuda cientificamente os perfis e as relações entre vítimas e agressores(as), acaba alimentando o silêncio cortante que beneficia agressores(as), levando as vítimas à depressão, em alguns casos ao suicídio, ou à morte por doença degenerativa grave, mantendo assim intacto o ciclo de abusos. O pouco que se estuda no Brasil, limita-se em geral ao assédio moral no trabalho, mas que, devido ao preconceito, à misoginia e ao racismo estrutural que permeiam a nossa sociedade e a elite brasileira, faz com que os resultados desse combate sejam cada vez mais favoráveis aos agressores(as), principalmente quando uma boa parte deles pode ser de pessoas dotadas de algum poder (capital político, financeiro, religioso ou artístico) e as vítimas, além do dano psicológico sofrido, ainda devem lidar com a pressão da opinião popular, ou as ameaças e retaliações dos(as) agressores(as), seus cúmplices, fiéis seguidores e toda sua rede de poder a lhe garantir imunidade e proteção.

Por isso que hoje, por mais torto ou doído que pareça, é um dia para ser lembrado. Por maior “poder” que uma empresa ou imagem possa ter nessa nossa doente sociedade narcísica do espetáculo, quando vazia, ou melhor, quando construída com energias sugadas e almas roubadas, ela vai, ah se vai, um dia, ruir e murchar!

*Luciana Sérvulo da Cunha é cineasta, autora, entre outros, do longa “Hijos de La Revolución”

[Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum]




terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Uma breve retrospectiva do que foi o Brasil em 2020

“O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus.” (Sófocles, 496-406 AC. Rei Édipo. Tradução J.B de Mello e Souza. Versão para eBooksBrasil, 2005)    

“O que a humildade não pode exigir de mim é a minha submissão à arrogância e ao destempero de quem me desrespeita. O que a humildade exige de mim, quando não posso reagir à altura da afronta, é enfrentá-la com dignidade.” (Paulo Freire. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996) 

Por Manoel Paixão

Meu caro leitor e minha cara leitora, 

Chegamos em dezembro, o último mês de um ano dureza para todo mundo. 

Na verdade, 2020 está sendo um ano de provações em todos os sentidos, influenciando ao máximo nas relações sociais, nas relações de consumo, nas escolhas políticas, no trato com a natureza, bem como, no bem estar físico e mental, em níveis individual e coletivo. 

Vai deixar marcas profundas e com elas importantíssimas lições, que acredito até que já esteja gerando uma espécie de conscientização em muita gente, sobretudo, do ponto de vista do comportamento humano e a sua relação com a vida no planeta. 

Fazendo uma breve retrospectiva do que foi o Brasil em 2020, vejo que este andou bastante na contramão, em decorrência do estado de coisas que estamos vivendo, dos reveses, da desinformação, da falta de empatia, da insensatez, dos absurdos, e etc.. Aliás, acelerou a sua marcha rumo ao atraso, inclusive civilizatório, pois tudo o que havia latente de mais retrógrado ganhou a cena, como o obscurantismo, o negacionismo, o terraplanismo, a anti-cultura, a anti-ciência, a anti-vacina e a anti-democracia.     

Nosso país que padecia de problemas a serem urgentemente resolvidos, nas áreas da economia, do meio ambiente, do emprego, da educação, do social, da saúde, piorados pela maior pandemia da história da humanidade e a maior crise sanitária da história brasileira, se viu diante da incapacidade do governo de enfrentamento tanto dos já existentes quanto dos de agora. 

Aqui está um resumão – não necessariamente numa ordem cronológica dos fatos – da situação do Brasil em 2020, como: 

─ A consolidação do fracasso da política econômica do superministro Paulo Guedes, com o Brasil despencando para o 12º lugar no ranking econômico global. A desvalorização do real frente ao dólar. A inflação castigando severamente o povo, sendo considerada 3 vezes maior entre os mais pobres. A elevação exorbitante nos preços do arroz, do óleo de soja e da carne bovina, por exemplo, além de outros itens da cesta básica. Os reajustes seguidos no preço do botijão do gás de cozinha. A contragosto o governo liberou o auxílio emergencial, que só aconteceu depois de muita pressão da sociedade e do Congresso.      

─ O aumento da desigualdade e da miséria. A fome avançou pelo país, o que contribuiu para o retorno ao Mapa da Fome da ONU. O Brasil tem mais de 13 milhões de pessoas na extrema pobreza, aquelas que, de acordo com o Banco Mundial, vivem com até R$ 151 por mês e quase 52 milhões na pobreza, com renda de até R$ 436 por mês. 

─ Os números alarmantes do desemprego, com 14 milhões de pessoas desempregadas. 

─ A “boiada” do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou à vontade, com o engajamento dele próprio na flexibilização das leis ambientais. O país sofreu cobranças e pressões, internas e externas, pelo descaso com que tratou o aumento drástico do desmatamento e as queimadas descontroladas na Amazônia e no Pantanal, comprometendo inclusive interesses comerciais. De acordo com dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia atingiu a maior taxa em 12 anos. 

─ A demora do Ministério da Saúde no enfrentamento da pandemia, que ficou evidente pela falta de entendimento e, consequentemente, de um plano nacional integrado entre o ministério e as secretarias estaduais e municipais da saúde, para implementar as medidas necessárias. As frituras e demissões de ministros técnicos, como Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. A ocupação militar do ministério, com o general da ativa Eduardo Pazuello – um especialista em logística – como titular e outros militares em cargos estratégicos, sendo que a maioria não possui experiência técnica que justifique as suas indicações. Pazuello mesmo todo perdido é mantido no cargo, porque se presta a seguir fielmente a cartilha do presidente. Em determinado momento, o ministério chegou a priorizar mais a cloroquina – medicamento sem a comprovação de sua eficácia no tratamento da Covid-19 – e deixou faltar remédios básicos para UTI’s, como também deixou faltar respiradores e EPI’s. E mais recente, descobriu-se que o ministério mantém estocado 6,8 milhões de testes do tipo RT-PCR, que custaram cerca de R$ 290 milhões, com o prazo de validade se esgotando. Brasil é um dos países que menos testou a população e ainda não apresentou um plano nacional de imunização, no que se refere à Covid-19. 

─ O isolamento do país na geopolítica e nas relações internacionais. Os constantes desvarios do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, manchando a imagem da diplomacia brasileira, que quando não está criando teorias conspiratórias – do comunismo ou do "marxismo cultural", por exemplo –, está atacando nações amigas e parceiras comerciais importantes. Seguindo a cartilha do presidente, o chanceler brasileiro não poupou esforços em dar demonstrações de capachismo ao governo de Donald Trump, como no episódio do encontro com o Secretário de Estado, Mike Pompeo, para desestabilizar ainda mais a Venezuela, isso poucos dias antes das eleições estadunidenses. Também não mede esforços para acirrar conflitos ideológicos e/ou comprometer as relações do Brasil com a China. E chegou ao ponto de atacar a memória do escritor e diplomata João Cabral de Melo Neto, que estava sendo homenageado durante formatura no Instituto Rio Branco. 

─ A saída do Abraham Weintraub do MEC – um sujeito insano, investigado no inquérito das fake News e que deixou o país de forma muito estranha. As trapalhadas que se seguiram na escolha de um ministro substituto. O aparelhamento ideológico, a quebra da autonomia e a interferência política no processo democrático interno de escolha de reitores das universidades e institutos federais. A ameaça de retrocesso na educação inclusiva, com a publicação do Decreto n° 10.502/2020. E a publicação da Portaria Interministerial MEC/ME nº 3/2020, que altera a gestão do Fundeb e diminui o valor mínimo nacional a ser investido por aluno anualmente, também anulou os ganhos salariais dos professores da educação pública para 2021. 

─ O ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, que chegou ao governo com a pompa de superministro, terminou sendo desmoralizado e enxotado do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Moro chegou a disparar sérias acusações e críticas contra o presidente da República, de interferência política na Polícia Federal, de falta de comprometimento com o combate a corrupção e de apoio ao seu pacote anticrime. O ex-juiz e ex-ministro agora é sócio-diretor de empresa dos EUA que administra recuperações judiciais, como a da Odebrecht, um dos grupos empresariais levados quase à falência pela força tarefa da Lava Jato. Ao que parece, o aparelhamento político e ideológico de instituições públicas, inclusive para fins pessoais, é prática frequente no governo. 

─ E não poderia deixar de mencionar aquela reunião ministerial grotesca, do dia 22 de abril. O enredo dessa reunião registrado em vídeo é sinistro! 

Ainda tem mais do resumão, como: 

─ A flexibilização do uso de agrotóxicos. O Ministério da Agricultura, que é chefiado por Tereza Cristina, também conhecida como “musa do veneno”, publicou a liberação de centenas de novas substâncias, inclusive algumas que são proibidas lá fora. Só esse ano, já foram 405 as autorizações publicadas. O Brasil é um dos países que mais utiliza agrotóxicos no mundo. 

─ Os ataques à liberdade de imprensa. O episódio da censura imposta pela Justiça ao Jornal GGN, que mandou retirar de circulação matérias sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo o BTG Pactual, banco fundado por Paulo Guedes. A Justiça também proibiu a Rede Globo de expor qualquer documento ou peça do processo referente ao esquema da “rachadinha” na Alerj envolvendo Flávio Bolsonaro.  

─ O gabinete do ódio, as milícias digitais e a fábrica de fake news bolsonarista, funcionando a torto e a direita. 

─ As disputas internas entre integrantes das alas militares e ideológicas do governo, o dinheiro nas nádegas do então vice-líder do governo no Senado, o Centrão, as negociatas, os cargos, as boquinhas e mamatas. 

─ O apagão no setor elétrico do Amapá, a situação de calamidade pública e o descaso com sua população. Documentos revelados recentemente comprovam que, ONS, Aneel e governo federal, tinham conhecimento do risco de apagão no Amapá, pois relatórios informavam que a subestação que explodiu operava no limite da capacidade há cerca de dois anos. O desabastecimento de energia durou 22 dias e afetou a população de 13 dos 16 municípios amapaenses, incluindo a capital Macapá. 

─ O aumento do número de armas de fogo em circulação. A política armamentista do presidente vem promovendo a maior flexibilização nas normas de controle de armas e munições.  

─ A escalada da violência explícita contra pobres, trabalhadores, jovens da periferia, negros, índios, camponeses, e ligada a questões de gênero. Os casos que se repetem de ameaças, intimidações, atentados e assassinatos, contra lideranças comunitárias e sindicais, e ativistas ambientais e pelos direitos humanos. A grande maioria das vítimas de homicídios são jovens e negros. 

─ O aumento dos casos de violência contra as mulheres e dos registros de feminicídio. Quanto as ações do governo para o enfrentamento da violência contra as mulheres, segundo levantamento feito pelo jornal O Globo, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, só desembolsou 6% dos R$ 24,6 milhões disponível para tal finalidade. Basta de tanto descaso e de tanta violência! 

─ O inadmissível desfecho do caso Mariana Ferrer, que foi estuprada aos 20 anos de idade, pelo empresário André Camargo Aranha, no local onde trabalhava em Florianópolis (SC), que ganhou ampla repercussão quando a jovem apareceu sendo humilhada durante audiência. Depois de Mariana ser tratada com desprezo e preconceito, a Justiça desqualificou o crime – ao aceitar o argumento de que não houve a intenção do estupro – e acabou inocentando o réu. Em nosso país uma mulher é estuprada a cada 8 minutos.  

─ O lamentável episódio que vitimou João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, brutalmente espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS), às vésperas do Dia da Consciência Negra. E a insolência do vice presidente da República, General Mourão, de dizer que no Brasil não tem racismo. Aliás, um comportamento característico do Mourão, como se viu em outros momentos, nos quais minimizou falas absurdas do presidente e outras situações como o desmatamento. No Brasil, o racismo existe e acontece todos os dias, os dados da violência contra a população negra são alarmantes, por isso, combatê-lo é dever de toda a sociedade! 

E para completar o resumão, as declarações irresponsáveis e o desserviço do presidente da República, que não se porta no cargo como se espera de um governante. Que entre uma e outra: 

─ Desferiu ameaças e ofensas contra movimentos sociais, ONG's, autoridades e personalidades de grande influência, a pluralidade política e a imprensa, também não economizou nas piadas de muito mau gosto e preconceituosas, quase sempre de natureza machista, sexista, racista, homofóbica, xenofóbica e discriminatória. 

─ Foi sórdido ao minimizar o tempo todo a pandemia, chamando-a de “fantasia”, “histeria”, “gripezinha ou resfriadinho”, e ao debochar de quem optou pelo isolamento social e diante das mortes de vítimas da Covid-19, quando disparou: - “Eu não sou coveiro, tá certo?”; - “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”; - “Todos nós iremos morrer um dia"; - “Tem que deixar de ser um país de maricas”. 

─ Fez de tudo para boicotar as medidas sanitárias recomendadas pelos especialistas para contenção do coronavírus – como o isolamento social, por exemplo –, incitou seus apoiadores a invadir hospitais de campanha e filmar leitos de enfermaria e UTI's, forçou o uso da cloroquina – mesmo com todas as pesquisas descartando-a –, disseminou desinformação das mais diversas e tenta partidarizar o uso de vacinas, que ainda estão em fases de testes. Enfim, passou e continua passando de todos os limites! 

Nesse instante, enquanto finalizo esse texto, são contabilizados mais de 6,3 milhões de casos e a perda de mais de 173 mil vidas, em decorrência da Covid-19. 

─ Para a decepção dos bolsonaristas lavajateiros, o presidente que apenas surfou na onda da Lava Jato e do discurso anticorrupção, veio a se gabar de ter decretado o fim da operação, ao dizer: - “eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo”. 

O tempo todo é assim, quando o presidente e seus asseclas não estão metendo os pés pelas mãos, dando show de trapalhadas ou afundados na guerrilha ideológica insana, estão encenando uma distração para encobrir a inoperância do governo no enfrentamento de alguma crise – eis aí a crise sanitária para não deixar mentir! –, os seus interesses entreguistas – como a dilapidação do patrimônio nacional ou a tentativa de privatização do SUS, por exemplo – e os escândalos que pairam sobre o entorno do presidente.
Cabe ressaltar que, desde as tramas do golpe de 2016 até o presente momento, um rastro de retrocessos e obscenidades vai sendo deixado, que pelo jeito serão intensificados.  

Por todas essas e por outras razões – não citadas no resumão, mas que são de conhecimento público –, já dá para perceber que a situação do nosso país é bem mais grave do que se imagina e não teremos uma trégua pelos próximos dois anos. E lá se vão mais quase 12 meses de atraso, promovidos dia e noite por um desgoverno, em um ano extremamente sofrido. 

Eu sei que "tá puxado", pois o cenário é trágico e desanimador, mas o momento é oportuno para muitas reflexões e aprendizados. Peço a Deus, que Ele nos dê forças para não esmorecermos ante os dias sóbrios e para seguirmos firmes na luta contra os retrocessos e as obscenidades. Por isso mesmo, vida que segue e luta que continua!


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Dia dos Professores: Nas trincheiras do Brasil por liberdade e democracia, por Henrique Rodrigues

Não abaixe a cabeça. Tenha a humildade dos justos e a persistência dos fortes. Orgulhe-se de cada batalha. Educar é uma luta pela liberdade do indivíduo e por uma sociedade com pensamentos sem amarras. Lute como um professor!

Foto: Arquivo Pessoal

Saúdo os professores brasileiros neste 15 de outubro. Faço-o também como professor, mas em especial como cidadão.

Em cada palmo de chão do Brasil, nós estamos lá. Com salários maiores ou menores, nós estamos lá. Com mais ou menos liberdade, nós estamos lá. Na paz ou na violência das ruas e comunidades, nós estamos lá.

Esta onipresença é a arma que garante nossa própria existência indispensável. Conhecemos cada drama, cada riso e cada lágrima. As agruras e alegrias de cada jovem, pobre ou rico, longe ou perto.

Em todos esses anos, circulando pelos rincões do Brasil, sertões afora, sempre notei a existência inequívoca de duas coisas: a miséria e as escolas.

Se há escolas, há professores.

Os tempos são duros e a resistência pretérita dos grandes homens e mulheres de nossa educação precisa ser relembrada todos os dias, como método de sobrevivência e combustível para a motivação.

Ser desprezado, não valorizado, estigmatizado, perseguido e servir de bode expiatório para todo o acervo de mazelas de nossa história não é algo novo, tampouco exclusividade dos tempos sombrios contemporâneos.

Apedrejar professores é prática mais velha que andar pra frente no Brasil. O extraordinário Graciliano Ramos, romancista alagoano neorrealista dos anos 30, autor de ‘Vidas Secas’, que exerceu o magistério e foi diretor de Instrução Pública em sua terra natal, após promover uma verdadeira revolução educacional no cargo, dando bônus salarial aos professores, aumentando repasses de verbas às unidades, criando uniformes escolares para crianças que pareciam farrapos humanos e reformando toda a estrutura física da rede, ganhou como prêmio uma prisão arbitrária nos porões imundos do Estado Novo Varguista, em 1.936, ainda que o regime só fosse iniciado formalmente no ano seguinte. Foi implacável com seus algozes, imortalizando seu sofrimento e as injustiças sofridas no doloroso ‘Memórias do Cárcere’.

“A crise da educação brasileira não é uma crise, é um projeto”. O autor desta elucubração, o antropólogo e educador Darcy Ribeiro, que teve papel importantíssimo na elaboração das políticas educacionais do país no século XX, sobretudo em relação à escola pública, e que foi o homem forte na reformulação de inúmeras universidades brasileiras antes e após os Anos de Chumbo, também é o autor de uma outra frase muito conhecida, que profetizou uma realidade com a qual nos confrontamos hoje:

“Se nossos governantes não fizerem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construírem presídios.”

As prisões estão aí, superlotadas e insuficientes, enquanto o esvaziamento dos esforços para um sistema educacional mais abrangente e universal segue de vento em popa, sem dar trégua.

É a lógica do sistema. Àqueles a quem se negou os livros, hoje lhes oferecemos as celas.

O mais impressionante é que todo o alarido delirante de 50 anos atrás aparece de volta e a cólera do obscurantismo não procurou outro culpado na caça às bruxas típica da paranoia dos parvos. O alvo não mudou e somos nós, os professores, que mais uma vez servimos de boi de piranha na fogueira santa que pretende exorcizar o atraso nacional com mais atraso e estupidez.

Como condição inegociável devemos exigir a liberdade. Não a suposta liberdade travestida de “doutrinação ideológica” que todo gorila limítrofe aponta com o dedo em riste, mas sim o pleno exercício do pensamento emancipador.

A nossa luta deve ser por uma Educação que se espelhe nos cânones civilizacionais da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), com liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber, marcada pelo pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, respeito à liberdade e apreço à tolerância, orientada pelo respeito mútuo, pela justiça, pelo diálogo e solidariedade, assegurando os Direitos Humanos e a cidadania.

Não abaixe a cabeça. Tenha a humildade dos justos e a persistência dos fortes. Orgulhe-se de cada batalha. Educar é uma luta pela liberdade do indivíduo e por uma sociedade com pensamentos sem amarras. Lute como um professor!

Na pandemia, com o mundo desabando sobre nossas cabeças, fomos nós a dar o pontapé inicial dessa corrida louca que nos exigiu reinvenção e superação a toque de caixa. Muitos encamparam o desafio desgastante do ensino remoto, enquanto tantos outros ficaram largados no ócio do esquecimento por culpa de autoridades públicas que não forneceram condições dignas para a empreitada.

Neste 15 de outubro, reflita sobre o Brasil que queremos e entenda que ele inevitavelmente terá que passar por nós.

A todos que contribuem com nossa missão e que reconhecem os percalços e dificuldades de nosso cotidiano, um imenso agradecimento.

Seguimos na luta. Desistir é algo que desconhecemos.

*Jornalista e professor de Literatura Brasileira.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A destruição da razão como projeto

Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total. As consequências do desprezo ao conhecimento e ao senso comum serão fatais, não só na Amazônia, escreve Philip Lichterbeck.

*Por Philipp Lichterbeck
Cada assassinato de um indígena no Brasil diz algo sobre a relação esquizofrênica do país consigo mesmo. Muitos brasileiros não querem saber sobre as raízes indígenas de seu país e não querem ouvir a mensagem dos primeiros brasileiros sobre paz, respeito e preservação da natureza. É uma mensagem sensata. Mas a extrema direita do Brasil a odeia. Por trás disso há um profundo desprezo pela ciência, pela razão e pelo senso comum. Desprezo este que está se espalhando cada vez mais pelo Brasil. E com consequências mortais.

No sábado passado, duas lideranças indígenas da etnia Guajajara foram assassinadas no Maranhão. Um mês antes, fora morto a tiros no mesmo estado o "guardião da floresta" Paulo Paulino Guajajara, conhecido como "Lobo Mau". Em 2019, o número de mortes de líderes indígenas já é o maior em 11 anos.

Responsável pelos assassinatos é a máfia dos desmatadores, grileiros, latifundiários e garimpeiros. Ela toma conta de forma insidiosa da Amazônia. Qualquer um que viaje pelo Norte do país hoje em dia reconhecerá os sinais por todas as partes. O maior tesouro do Brasil está sendo destruído sistematicamente.

Mas em vez de combatida, essa máfia é encorajada pelo governo brasileiro, em especial pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele chamou desmatadores ilegais numa Terra Indígena de "pessoas do bem que trabalham". Parece que Salles até coopera com os criminosos. A Folha de S. Paulo publicou uma matéria sobre a recepção que Salles deu a vários infratores ambientais do Acre. Depois suspendeu a fiscalização na reserva Chico Mendes.

As consequências dessa política são claras: o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu neste ano 30% e bate um novo recorde. Nas Terras Indígenas, a alta no desmatamento é de até 74%. Como se isso já não fosse suficiente destruição, a Funai quer suspender a supervisão de dez Terras Indígenas com povos isolados. Seria uma espécie de sentença de morte para os últimos povos isolados do Brasil.

A destruição da Amazônia, de sua história e sua cultura é um dos principais projetos do atual governo. Ficará como sua vergonhosa herança para as gerações futuras. O governo alega que está interessado no desenvolvimento econômico. Mas está cientificamente provado que uma Amazônia intacta é economicamente muito mais valiosa. Sua destruição terá consequências ecológicas, sociais e econômicas catastróficas para o Brasil.

Torna-se claro que o Brasil caiu nas mãos de ideólogos perigosos. São fanáticos dos quais, em outros tempos, se riria sonoramente. Agora eles estão tentando moldar o Brasil de acordo com suas ideias lunáticas do período pré-iluminista. O novo presidente da Funarte acha que o rock leva ao aborto e ao satanismo. Segundo ele, os Beatles surgiram para implantar o comunismo.

O homem que provavelmente vai liderar a Fundação Palmares afirma que não há racismo no Brasil. A escravidão, diz ele, era "benéfica para os descendentes". A ministra da Família, Damares Alves, recomenda a abstinência como o melhor remédio contra a gravidez na adolescência. Isso pode ser tecnicamente correto, mas não é uma política de Saúde responsável e decidida com base na realidade: isso é fundamentalismo religioso ao estilo iraniano.

Por último, mas não menos importante, Olavo de Carvalho agora pôde apresentar sua versão da história do Brasil no canal estatal TV Escola. Carvalho é um teórico da conspiração e extremista de direita, poderia encarnar muito bem um professor louco num filme de Hollywood. Agora ele é a estrela orientadora intelectual do governo brasileiro. Não Voltaire, Rousseau, Kant ou, para mencionar um pensador humanista excepcional brasileiro, Leandro Karnal: mas sim Olavo de Carvalho, com suas baixarias. Pode-se imaginar para onde se dirige um país que se comprometeu com a idiotice total.

O efeito do desprezo à iluminação, ao conhecimento e à razão é um discurso público cada vez mais baixo e ridículo. Além disso, tem consequências fatais, não só na Amazônia. Um exemplo simples: por antipatia pessoal o presidente mandou desativar quase todos os radares fixos no país. O efeito: os acidentes graves cresceram no país, e as rodovias têm alta de acidentes com vítimas pela primeira vez desde 2011. Qualquer pessoa mais ou menos inteligente poderia ter previsto isso.

A política agrícola é igualmente brutal e antimoderna. Não se concentra num cultivo sustentável de alimentos com cada vez menos pesticidas, mas sim em cada vez mais agrotóxicos. Só neste ano 467 pesticidas foram aprovados, um novo recorde. Segundo o Greenpeace, desses produtos, 22 contêm ingredientes ativos que têm seu uso proibido na União Europeia; 25 constam na lista dos produtos extremamente ou altamente tóxicos à saúde humana. Ironicamente, uma das últimas levas de novos registros colocou mais 57 produtos no mercado no dia 3 de outubro, quando se comemora o Dia Nacional da Abelha. Somente entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, foram registradas as mortes de 500 milhões desses polinizadores por conta do uso de agrotóxicos.

Os agrotóxicos contaminam os rios do Brasil, como o São Francisco. E, claro, envenenam também a população. Entre 2007 e 2014, foram registradas quase 2 mil mortes por intoxicação agrícola. É cientificamente comprovado que, mesmo em pequenas doses, os inseticidas causam sérios problemas, principalmente em crianças, como alteração no QI, déficit de atenção, hiperatividade, autismo e transtornos psiquiátricos. Uma política sensata orientada para o bem-estar da população faria, portanto, tudo para limitar a utilização de pesticidas. Em vez disso, o governo expande seu uso para satisfazer os interesses lucrativos das indústrias agrícolas e químicas.

Outro exemplo dessa política fanaticamente cega: o Excludente de Ilicitude em Operações de Garantia da Lei e da Ordem que o presidente tanto deseja. Ele corresponde na prática a uma licença para matar, como qualquer estudioso da área de segurança iria confirmar. Parece que no Rio o excludente já está em vigor. Em 2019, a polícia do estado matou tantas pessoas como não matava desde quando começaram as estatísticas, em 1998. Muitas vezes os mortos não são criminosos, mas crianças como a menina Ágatha, de oito anos.

De certa forma, é então consequente que o novo partido do presidente, Aliança pelo Brasil, se apresente com um logo feito de pistolas e balas. Não livros que ensinam, mas balas que matam. Por exemplo, os primeiros e sábios habitantes do Brasil.

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*Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.



quinta-feira, 10 de outubro de 2019

As ideias cultivadas pela elite econômica para privatizar a educação no Brasil. Por Laércio Portela

É nesse contexto e no entrelace entre fundações, partidos, governo, grande mídia e grandes players digitais (velhos e novos oligopólios da comunicação) que vão avançando os valores ultraliberais que sustentaram e construíram o apoio ao impeachment de Dilma, às reformas trabalhistas e da Previdência, à uberização e precarização do mundo do trabalho, à filantropoia privada e às reformas empresariais na educação pública.


Há quase três anos, a economista Tânia Bacelar apontava o avanço da privatização e da desnacionalização do ensino superior como ações que colocavam em xeque a soberania nacional. “Nossa elite se importa mais em negar o que a gente é porque quer ser o que não somos. E o sistema educacional reproduz isso. Educação tem que estar no centro das nossas preocupações”.

Ela falava na quadra lotada do Clube Universitário da UFPE sobre os efeitos perversos da possível aprovação da PEC 55 no Senado, que impunha um teto de gasto público para áreas como saúde e educação, mas preservava recursos para o pagamento da dívida pública. Naquele 4 de novembro de 2016, quatro centros acadêmicos da UFPE estavam ocupados por estudantes que protestavam contra a PEC e a proposta de Reforma do Ensino Médio do governo Michel Temer (MDB).

Aprovadas a PEC, a reforma do Ensino Médio, a reforma Trabalhista e encaminhada a reforma da Previdência, os temores de Tânia seguem seu curso. Em menos de 1 ano de governo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) asfixiou as universidades federais ao cortar 30% dos repasses e, agora, propõe como solução a gestão do ensino público por Organizações Sociais (OS) financiadas por fundos privados de investimento.

Tudo sob os paradigmas da gestão eficiente, da revolução tecnológica e da necessidade de adaptação do ensino às demandas do mercado. O próprio nome da proposta traz em si a síntese desses paradigmas numa palavra que podia muito bem estampar a capa de uma matéria especial das revistas Exame ou Você S.A.: FUTURE-SE.

No artigo Future-se: Intervenção na autonomia para o fim das universidades públicas no Brasil (2019),  o professor da UFPE e ex-deputado federal Paulo Rubem levanta críticas consistentes à proposta do MEC. Começa pelas ausências. Afinal, os silêncios do enunciador também fazem parte do seu discurso. Falta um diagnóstico do atual modelo a ser substituído e “qualquer referência a estudos, pareceres de especialistas, teses, relatórios, auditorias do TCU que embasem a opção direta pelas organizações sociais”.

O cruzamento entre o público e o privado compromete a autonomia das universidades públicas. Paulo Rubem lembra que o projeto prevê “repasse de recursos orçamentários e permissão de uso de bens públicos” cedidos pela União ou pelas instituições federais de ensino superior (IFES) para fomentar as organizações sociais. O MEC também fica autorizado a doar bens imobiliários para as OS participantes do FUTURE-SE, bem como a rentabilidade das suas cotas do fundo de investimento, sob a condição de que esses recursos sejam empregados nos objetivos do projeto.

Detalhe (sim, os detalhes importam): “sobre a integralização de cotas pelo Ministério da Educação ou sobre os rendimentos do fundo de investimento destinados ao FUTURE-SE não incidirão qualquer imposto ou contribuição social de competência da União”, diz a proposta.

Do impossível para o inevitável

Se o texto desse artigo fosse o roteiro de um filme, nesse momento a imagem da câmera se ampliaria para um plano aberto, uma visão aérea e mais ampla do cenário. E a narração em off ficaria a cargo da pesquisadora e cientista social canadense Naomi Klein. É dela a melhor análise sobre a “doutrina do choque”, expressão que criou para emoldurar as teses e a ação política do economista norte-americano ganhador do Nobel de Economia Milton Friedman (1912-2006).

Guru do Estado Mínimo, Friedman foi por três décadas professor da Universidade de Chicago, a mesma em que estudou o atual ministro da Economia Paulo Guedes, com uma bolsa do CNPQ. Friedman escreveu: “apenas uma crise – verdadeira ou imaginada – produz mudanças verdadeiras. Quando essa crise acontece, as ações que são realizadas dependem das ideias que estão à mão. Essa, acredito, é nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.

A quebra da institucionalidade com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) foi a crise fabricada que tornou Jair Bolsonaro, em 2018, o “politicamente inevitável” que o mercado e as elites financeiras cultivavam desde 2013 no Brasil.

Friedman apostava na “crise” resultante de guerras, ataques terroristas, desastres naturais ou golpes de estado para aplicar o receituário neoliberal das desregulamentações, privatizações e cortes de recursos para programas sociais. Foi a esse capitalismo de desastre que Naomi Klein chamou de “doutrina do choque”.

O primeiro laboratório do economista norte-americano foi o Chile. Tão logo o general Augusto Pinochet deu o golpe militar de 1973, que matou o presidente socialista legitimamente eleito, Salvador Allende, Friedman mandou os seus “meninos de Chicago” para assessorar o ditador. A falta de liberdades políticas e o terror nas ruas não sensibilizaram o velho economista e o seu paradigma de livre mercado.

No Chile de Pinochet, os gastos públicos foram cortados em 20%, um terço dos servidores públicos perdeu o emprego e o financiamento de moradias foi eliminado. O ditador colocou os sindicatos na ilegalidade, privatizou a seguridade social e várias empresas estatais. O ajuste econômico elevou para 16% o percentual de desempregados. Depois o país viveu o seu “milagre econômico” até mergulhar em nova crise e dizer “NO” ao velho ditador.

Ainda sob Pinochet, a educação chilena foi privatizada com recursos públicos por meio do sistema de vouchers, quando o Estado deixa de financiar as escolas públicas e passa a subsidiar os alunos. Os pais com melhores condições complementam o subsídio com recursos próprios e seus filhos frequentam as melhores escolas privadas. Os filhos dos mais pobres vão para as escolas públicas, sucateadas pela falta dos recursos desviados para financiar vagas na rede particular.

Em 2005, a doutrina do choque era implementada na cidade de Nova Orleans – no sul dos Estados Unidos, de população majoritariamente negra, devastada pelo furacão Katrina. Aos 92 anos, Friedman aproveitava o momento para defender suas ideias em artigo publicado no New York Times. “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. Mas é também uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”.

E foi o que aconteceu. As escolas foram reformadas e transformadas em “charter”, bem antes que os diques que protegiam a cidade fossem reconstruídos. As escolas “charter” recebem recursos públicos, mas têm menos acompanhamento e supervisão do que as escolas públicas. “Dentro de 19 meses, e com a maioria dos habitantes mais pobres ainda exilados, o sistema de escolas públicas de Nova Orleans tinha sido completamente substituído por escolas licenciadas, sob administração privada”, explica Naomi Klein.

Voltemos à estratégia de Friedman de “desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.

Essa é uma tarefa à qual a direita brasileira se dedicou durante todo o período de governo petista. Caso emblemático é o da Escola Sem Partido. No ano do choque das fortes pressões para desestabilizar o governo Dilma, em 2015, o deputado Izalci Lucas, do PSDB do Distrito Federal, apresentou na Câmara Federal o projeto de lei número 867/2015, que se propõe a proibir a prática da doutrinação ideológica na sala de aula. A partir de 2016 o projeto foi copiado por bancadas conservadoras e distribuído em legislativos municipais e estaduais de todo o país.

No Congresso, ele foi protocolado exatos 11 anos depois da criação do movimento Escola sem Partido, de 2004.  “Não foi devidamente enfrentado justamente por parecer absurdo e sem fundamentos legais e porque ele se espalhava com força não no ambiente acadêmico, mas nas redes sociais”, analisa o doutor em educação pela UFRJ, Fernando de Araújo Penna no artigo O discurso reacionário de defesa de uma escola sem partido (2018).

O movimento foi lançado pelo procurador do Estado de São Paulo, Miguel Nagib, articulista por muitos anos do Instituto Millenium, que se intitula um “think tank que promove valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo”.

Os think tanks liberais

Movimentos e think tanks liberais estão há anos seguindo o receituário de Friedman e mantendo vivas as ideias de redução do Estado e modernização do Brasil sob os auspícios da privatização e da financeirização dos negócios e da vida. É o caso do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e o Instituo Atlântico (IA), criados ainda nos anos 1990, do Grupo Líderes Empresariais (Lide) e do Movimento Brasil Competitivo (MBC), dos anos 2000.

O Instituo Millenium nasce em 2006 no XIX Fórum da Liberdade, em Porto Alegre. O Fórum da Liberdade é a antítese do Fórum São Paulo (de esquerda), sendo o espaço de congregação de todos os grandes think tanks liberais e ultraliberais do Brasil e do mundo, como o Instituto Mont Pelerin e a Atlas Network e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

Em 2010, no mesmo Fórum, foi lançado o Instituto Mises Brasil e, em 2012, o movimento Estudantes pela Liberdade, voltado para o público universitário. “O EPL configura-se como uma versão brasileira do Students for Liberty e é ligado ao mega think tank Atlas Network. O EPL organiza, financia e estabelece diretrizes de ação principalmente a partir do seu braço de atuação política e ideológica, o MBL”, explica o doutor em história social pela Universidade Federal Fluminense Flávio Henrique Calheiros Casimiro no artigo As classes dominantes e a nova direita no Brasil (2018).

Sim, por trás de todo o formalismo, os think tanks contaram com aliados agitadores de redes e ruas, como o Movimento Brasil Livre, o Vem Pra Rua e o Revoltados Online para o trabalho braçal de mobilizar as massas, colocá-las nas ruas e na frente das câmeras de TV para fabricar crises.

A financeirização da educação no Brasil

A educação joga um papel importante no avanço das ideias liberais no mundo e no Brasil. O processo de privatização e financeirização da educação no Brasil, especialmente no ensino superior, como alertava Tânia Bacelar, acontece a partir da inclusão de grupos educacionais brasileiros no mercado de ações em bolsas de valores e por ingresso no mercado nacional de grupos estrangeiros de capital aberto e fechado.

A doutora em Educação pela UFMG e professora da UFPA, Vera Lúcia Jacob Chaves, no artigo O ensino superior privado-mercantil em tempos de economia financeirizada (2019), aponta como resultado desse fenômeno um movimento de fusões e aquisições de instituições de ensino superior que gerou a oligopolização do setor. Em 2008, o segmento foi classificado em terceiro lugar no conjunto de fusões e aquisições entre todos os setores econômicos do Brasil.

Para Vera, os grupos educacionais que operam no ensino superior no país se dividem em três tipos: empresas brasileiras de capital aberto (sociedades anônimas) com inserção no mercado de ações (Kroton/Anhanguera, Estácio, Anima e Ser Educacional); grupos internacionais que passaram a adquirir instituições de ensino superior privadas no Brasil (Laureate Education e Wyden Educacional); e grupos educacionais que ainda não abriram o capital no mercado de ações (Universidade Paulista – Unip, Universidade Nove de Julho – Uninove, Universidade Cruzeiro do Sul (Unisul) e Universidade Tiradentes).

Sua expansão foi estimulada pelos governos a partir da liberação dos serviços educacionais, imunidade/isenção fiscal – programa Universidade para Todos (ProUni), isenção de contribuição previdenciária de instituições filantrópicas, isenção do pagamento do salário-educação, Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e empréstimos a juros baixos pelo BNDES.

Também na educação existem atores disseminando as ideias liberais para incentivar o avanço da iniciativa privada, tais como a Fundação Lemann (do bilionário Jorge Paulo Lemann, sócio da 3G Capital, fundo que opera a Inbev, a Burguer King e a Kraft Heinz), o Instituto Unibanco e o Instituto Ayrton Senna.

“Novas vozes provenientes do setor privado, que não são eleitas nem supervisionadas pela população têm tido participação significativa na determinação de políticas educacionais… A linha que separa organizações públicas e privadas tem se tornado cada vez mais tênue e opaca”, critica Marina Avelar, doutora em Educação pelo UCI (Institute of Education), da Inglaterra, no artigo O público o privado e a despolitização nas políticas educacionais (2019).

São filhos dessa opacidade a que se refere Marina, a reforma do Ensino Médio, a adoção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e também de métricas de desempenho dos alunos brasileiros com base no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), movimento internacionalmente liderado pelo Banco Mundial e pela Organização e Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Padronização de conteúdos e ranqueamento por desempenho passam a refletir a eficácia do sistema que tem sido chamado pelos críticos de “reforma empresarial da educação”.

“Os atores privados utilizam seus recursos financeiros e sociais para modificar o cenário educacional brasileiro. Nas palavras de Kenneth Saltman, estão ‘votando com dinheiro’”, diz Marina Avelar.

Ocupando espaços na política institucional

A novidade dos propagadores do discurso liberal são os movimentos financiados e articulados por grandes empresários para recrutar e preparar jovens “talentos” para entrarem nos partidos convencionais, disputarem eleições e ocuparem os espaços na política institucional. Daí surgem o Renova BR, o Agora, o Livres, o Acredito, o Brasil 21 e o Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), entre outros.

É esse, por exemplo, o caso da pedetista Tábata Amaral, representante do Renova BR e filiada ao PDT. Na votação da reforma da Previdência, a lealdade aos ideários liberais do Renova BR pesaram mais no seu voto de apoio à proposta do que o posicionamento do partido contrário ao texto.

Os enlaces entre todos esses grupos privados é enorme. O empresário Eduardo Mufarej, criador e financiador do Movimento Renova BR é também presidente da ONG Somos Educação, apoiada pelo ex-presidente do Banco Central e mega investidor Armínio Fraga, fundador e mantenedor do Instituto Millenium, onde foram publicados os primeiros artigos sobre o Escola Sem Partido.

O milionário João Amoêdo preferiu seguir o caminho direto, sem intermediários e disfarces. Criou o Novo e foi candidato a presidente, mas faz parte do mesmo movimento de pensamento liberal e Estado mínimo alimentado pelas fundações e grupos políticos como Mises, MCB, Lemann e Renova BR. Todos beneficiários, direta ou indiretamente, da agitação de redes e ruas do MBL, do Vem pra Rua e do Revoltados Online, que impulsionaram o impeachment de Dilma e radicalizaram o discurso político que semeou a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018.

As ideias liberais avançam nas periferias

Esse trabalho de manter vivo e articulado o discurso liberal tem surtido efeito e penetrado nos corações e mentes de parte significativa da população brasileira. É a pista levantada pela pesquisa qualitativa Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo realizada em 2017 pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores.

Os resultados são um forte alerta sobre a aderência dos valores liberais nos estratos sociais de baixa renda. A percepção do conflito capital x trabalho praticamente inexiste. O inimigo não é o patrão, capitalista, mas o Estado, cobrador de impostos extorsivos que não se revertem em serviços de qualidade. Para os entrevistados, a grande disputa em jogo na sociedade não é entre capital e trabalho, mas entre os cidadãos e o Estado, “ineficaz e incompetente”.

Se o Estado é apontado recorrentemente como um obstáculo a ser transposto, o mercado, por outro lado, é uma referência positiva em detrimento desse mesmo Estado. “Há pouca valorização do que é público, tanto que quando podem acessar, querem colocar o filho na escola particular, ou pagar convênio médico”, diz o relatório da pesquisa.

Há uma distorção na noção da coisa pública, que tem menos relação com algo que pertence a todos e passa a ser vista como algo que é de graça e que, justamente por isso, não tem qualidade. A escola e o posto de saúde públicos, por exemplo. “A própria relação com a esfera pública está mediada por interpretações mercantis”.

Os velhos e novos oligopólios da mídia estão no jogo

A mídia joga um papel fundamental na disputa por corações e mentes ao reproduzir cotidianamente os valores das fundações liberais e seu filantropismo interessado. Está aí a campanha Criança Esperança, atualmente no ar, para visibilizar esse aspecto. Na mesma emissora para a qual o Agro(negócio) é vida, é pop, é tudo.

Não à toa, Luciano Huck é um dos idealizadores e financiadores do Renova BR e entre os mantenedores do Instituto Millenium estão o Grupo Globo, Abril, Estado de São Paulo, RBS, Abert (Associaçao Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e ANJ (Associação Nacional de Jornais), associados a grandes grupos empresariais como Gerdau e Suzano e grupos educacionais privados como Estácio. Colunistas, editores e chefes de redação de grandes veículos desfilam frequentemente nos seminários organizados pelo Millenium e tantos outros think tanks liberais.

O filão da educação no contexto da revolução tecnológica é um grande negócio e também atraiu os grandes players digitais. Em várias escolas particulares do Brasil e do Recife já estão instaladas e em funcionamento as salas de interação e educação do Google e da Microsoft. O Google também tem investido no treinamento (ou mais apropriadamente na adesão) de professores e jornalistas a suas plataformas pelo programa Google for Education e Youtube Edu. Entre terça e quarta-feira passadas a empresa promoveu o evento Cresça com o Google, no Recife, com cursos gratuitos para esses dois segmentos e o pessoal de marketing.

Os jornalistas, aliás, são o público-alvo do 3º Congresso Nacional de Jornalismo e Educação, que se realiza esta semana em São Paulo, para discutir, entre outros assuntos, alternativas de financiamento à educação no Brasil. Entre os patrocinadores estão a Fundação Lemann, o Instituto Ayrton Senna, o Instituto Unibanco, o Instituto Natura (do empresário Guilherme Leal, um dos fundadores e financiadores da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade que recruta jovens para entrar na política institucional), e o Itaú Social.

Lá, o secretário de Ensino Superior do MEC, Antônio Barbosa de Lima Júnior, fez a defesa do FUTURE-SE. “Queremos premiar o resultado. Estamos propondo a cultura de não se vitimizar. Queremos a complementariedade entre os setores público e privado”. Para o secretário, o projeto visa valorizar a cultura do “esforço e do suor”.

No evento do Google no Recife, um dos palestrantes do painel sobre Formação Digital para Professores foi o ex-ministro da Educação e consultor da Fundação Lemann, Mendonça Filho. Mendonça recebeu uma estrondosa vaia dos professores e teve que deixar o palco mais cedo do que desejava. A questão aqui é quem estava fora do lugar, o ex-ministro ou as centenas de professores ouvintes do curso instrumental gratuito que ensina a utilizar as ferramentas do Google com os alunos? Como diz o pesquisador norte-americano Eli Parisier, autor do livro O Filtro Invisível (2012), sobre as bolhas na internet: “se é de graça é porque você é o produto”.

É nesse contexto e no entrelace entre fundações, partidos, governo, grande mídia e grandes players digitais (velhos e novos oligopólios da comunicação) que vão avançando os valores ultraliberais que sustentaram e construíram o apoio ao impeachment de Dilma, às reformas trabalhistas e da Previdência, à uberização e precarização do mundo do trabalho, à filantropoia privada e às reformas empresariais na educação pública.

Voltando à hipótese de esse texto ser o roteiro de um filme, subimos mais uma vez a câmera em plano aberto e ouvimos novamente a voz de Naomi Klein: “É possível resistir a essas táticas. Primeiro precisamos ter uma sólida compreensão de como a política de choque funciona e aos interesses de quem ela serve. Essa compreensão é a maneira de saírmos o mais rapidamente possível do estado de choque e começarmos a lutar. Segundo, temos que contar uma história diferente daquela que os mentores do choque estão promovendo, uma visão de mundo convincente para competir diretamente com a deles. Acima de tudo, essa visão precisa proporcionar àqueles que estão sofrendo – com a falta de emprego, de assistência médica, de paz e esperança – uma vida tangivelmente melhor”.

Sobem som e créditos…

*É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.


Fonte: Publicado no site Marco Zero Conteúdo