Tem muita coisa estranha – e perigosa – acontecendo
no Brasil. Por aqui, é fácil encontrar certa gente defendendo e/ou querendo
justificar coisas do tipo: propostas de governo que atentam contra direitos e garantias
individuais; entrega de recursos naturais e estratégicos; escola sem pensamento
crítico; bastam indícios, não precisa prova material; tentativa de se usar a
criminalização do chamado "caixa 2" como oportunidade para anistiar
(perdoar) crimes passados; combate a uma ilicitude com outra ilicitude em nome
da boa fé; mesmo juiz pode investigar e julgar; qualquer agente público pode
ser penalizado por crime de responsabilidade, exceto juízes e procuradores. Não sei onde esse país vai parar e o quanto isso vai nos custar. Mas, sei que esse
país vive a cada dia uma situação de instabilidade social e institucional, e
que coisas bem estranhas estão acontecendo aos montes por aqui. Desde
o – recente – golpe, a democracia está sob constantes ataques, os direitos
sociais e trabalhistas estão na mira do retrocesso, o respeito à constituição
tem sido deixado de lado e o país caminha para rumos desconhecidos de ingovernabilidade. Fica a pergunta no ar: que tipo de
país querem fazer do Brasil?
"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog
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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Moro impede testemunha de falar sobre elo suspeito entre Lava Jato e EUA
Por Cíntia Alves
Jornal GGN - Os advogados do ex-presidente Lula
suspeitam que a Lava Jato está ajudando informalmente o Departamento de
Justiça dos Estados Unidos levando os réus delatores da operação que
iniciou na Petrobras a firmar acordos de colaboração com as autoridades
estadunidenses.
O assunto surgiu durante as primeiras audiências de testemunhas contra Lula na ação do triplex no Guarujá, mas o juiz Sergio Moro e um procurador da força-tarefa impediram que detalhes viessem à tona, alegando "irrelevância" para o processo.
O assunto surgiu durante as primeiras audiências de testemunhas contra Lula na ação do triplex no Guarujá, mas o juiz Sergio Moro e um procurador da força-tarefa impediram que detalhes viessem à tona, alegando "irrelevância" para o processo.
A partir dos 4 minutos e 40 segundos do vídeo acima, Cristiano
Martins Zanin, advogado de Lula, pergunta a Eduardo Leite, ex-executivo
da Camargo Corrêa, se ele fez delação com os EUA.
"Ainda não. Posso vir a firmar, mas hoje não tenho nada firmado com o governo americano. Também não [estou em negociação]. Eu fui procurado pelo governo americano no intuito de buscar um interesse e entendimento das partes", respondeu Leite. Ele disse que sua defesa informou o Ministério Público Federal dessa "comunicação".
Depois, ele disse que, "na verdade, foi uma busca do governo americano através da força-tarefa [da Lava Jato], na qual fomos procurados para saber do interesse de haver partilhamento [de informações] ou de a gente participar de um processo lá."
Nesse momento, o procurador Diogo Castor de Mattos, preocupado com os detalhes que Leite poderia dar sobre essa negociação com os EUA, diz ao juiz Sergio Moro que essa pergunta deveria ser "indeferida". O juiz, então, auxilia o MPF interrompendo a resposta de Leite e afirmando que outra testemunha [Augusto Mendonça, da Setal] não quis responder por "não se sentir segura".
"O acordo com os Estados Unidos, qual a relevância disso?", perguntou um membro da força-tarefa, ao que Zanin responde: "Vamos ver. Eu não sou obrigado a antecipar a minha estratégia de defesa."
Depois, Leite se corrigiu: "Eu gostaria de consertar. O procedimento, quem tem o domínio é meu advogado. Eu entendo que tenha havido uma comunicação."
Segundo Leite, ele recebeu um termo de colaboração em inglês que era "genérico", apenas sondava a "disposição de colaborar com a Justiça americana", e ele não tomou nenhuma decisão sobre isso "ainda".
Segundo a Folha desta quarta (23), Zanin disse que "a revelação feita em audiência de que o Ministério Público Federal estaria trabalhando junto com autoridades americanas parece não estar de acordo com o tratado que o Brasil firmou em 2001 com os EUA que coloca o Ministério da Justiça como autoridade central para tratar esse tipo de questão."
Numa audiência anterior, a defesa de Lula pergunta a Augusto Mendonça, do grupo Setal, se ele também era colaborador nos Estados Unidos. Ele disse que não sabia se poderia responder a essa questão, e Moro questionou se ele tinha algum "acordo de confidencialidade", porque se tivesse, qualquer afirmação dele poderia ter "reflexos jurídicos" que deveriam ser preocupação da Lava Jato. Diante da insistência de Zanin, o juiz impediu qualquer questão sobre o tema: "Está indeferido até porque, doutor, a relevância disso me escapa."
O advogado José Roberto Batochio retomou o assunto e perguntou se Mendonça foi autorizado a negociar com agentes dos Estados Unidos por autoridades brasileiras. Moro, irritado, interrompeu e disse que a testemunha não precisaria responder e questionou as intenções da defesa de Lula: "Qual a relevância, doutor, dessa questão para o processo. Ele é um agente dos Estados Unidos aqui?"
Batochio, mesmo assim, ainda perguntou a Mendonça: "O senhor depôs em processo judicial ou depôs no FBI?", e o empresário respondeu: "Eu prefiro não responder essa pergunta."
Acompanhe a partir dos 24 minutos e 30 segundos:
"Ainda não. Posso vir a firmar, mas hoje não tenho nada firmado com o governo americano. Também não [estou em negociação]. Eu fui procurado pelo governo americano no intuito de buscar um interesse e entendimento das partes", respondeu Leite. Ele disse que sua defesa informou o Ministério Público Federal dessa "comunicação".
Depois, ele disse que, "na verdade, foi uma busca do governo americano através da força-tarefa [da Lava Jato], na qual fomos procurados para saber do interesse de haver partilhamento [de informações] ou de a gente participar de um processo lá."
Nesse momento, o procurador Diogo Castor de Mattos, preocupado com os detalhes que Leite poderia dar sobre essa negociação com os EUA, diz ao juiz Sergio Moro que essa pergunta deveria ser "indeferida". O juiz, então, auxilia o MPF interrompendo a resposta de Leite e afirmando que outra testemunha [Augusto Mendonça, da Setal] não quis responder por "não se sentir segura".
"O acordo com os Estados Unidos, qual a relevância disso?", perguntou um membro da força-tarefa, ao que Zanin responde: "Vamos ver. Eu não sou obrigado a antecipar a minha estratégia de defesa."
Depois, Leite se corrigiu: "Eu gostaria de consertar. O procedimento, quem tem o domínio é meu advogado. Eu entendo que tenha havido uma comunicação."
Segundo Leite, ele recebeu um termo de colaboração em inglês que era "genérico", apenas sondava a "disposição de colaborar com a Justiça americana", e ele não tomou nenhuma decisão sobre isso "ainda".
Segundo a Folha desta quarta (23), Zanin disse que "a revelação feita em audiência de que o Ministério Público Federal estaria trabalhando junto com autoridades americanas parece não estar de acordo com o tratado que o Brasil firmou em 2001 com os EUA que coloca o Ministério da Justiça como autoridade central para tratar esse tipo de questão."
Numa audiência anterior, a defesa de Lula pergunta a Augusto Mendonça, do grupo Setal, se ele também era colaborador nos Estados Unidos. Ele disse que não sabia se poderia responder a essa questão, e Moro questionou se ele tinha algum "acordo de confidencialidade", porque se tivesse, qualquer afirmação dele poderia ter "reflexos jurídicos" que deveriam ser preocupação da Lava Jato. Diante da insistência de Zanin, o juiz impediu qualquer questão sobre o tema: "Está indeferido até porque, doutor, a relevância disso me escapa."
O advogado José Roberto Batochio retomou o assunto e perguntou se Mendonça foi autorizado a negociar com agentes dos Estados Unidos por autoridades brasileiras. Moro, irritado, interrompeu e disse que a testemunha não precisaria responder e questionou as intenções da defesa de Lula: "Qual a relevância, doutor, dessa questão para o processo. Ele é um agente dos Estados Unidos aqui?"
Batochio, mesmo assim, ainda perguntou a Mendonça: "O senhor depôs em processo judicial ou depôs no FBI?", e o empresário respondeu: "Eu prefiro não responder essa pergunta."
Acompanhe a partir dos 24 minutos e 30 segundos:
Escola na Rocinha tem método de ensino inovador e encanta alunos
"Na Rocinha, escola
fascina alunos com metodologias de ensino inovadoras: não há quadro negro,
carteiras individuais ou turmas tradicionais. Resultado: estudantes não querem
ir embora para casa."
Por Roberta
Jansen, DW Brasil
Do
alto do pátio da Escola Municipal André Urani dá para ver, olhando para
baixo, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e a Lagoa, ícones da cidade rica.
Para cima, surge a comunidade da Rocinha – a maior do país, com quase 70 mil habitantes,
símbolo da desigualdade.
“Tem até um muro ali, tá vendo?“,
aponta o aluno João Paulo do Nascimento, de 14 anos.
“Ele
simbolicamente divide a cidade em duas.”
“E
nós estamos bem no meio, entre elas“, acrescenta o também estudante João
Victor Luiz, de 15 anos.
A
metáfora da cidade partida não poderia ser mais apropriada, sobretudo partindo
das observações e conclusões dos dois meninos.
A
escola, onde estudam 240 adolescentes da Rocinha e
comunidades vizinhas, é um Ginásio Experimental de Tecnologias Educacionais (Gente) – uma
parceria da Prefeitura com a iniciativa privada, cujo objetivo é testar
metodologias de ensino inovadoras.
Aqui,
não existe quadro negro, nem carteiras individuais. Desaparecem as turmas
tradicionais, surgem os times, que reúnem, em um grande salão, alunos do
sétimo, oitavo e nono anos. A internet
não é proibida, pelo contrário, ela é parte central do aprendizado.
Munidos
de computadores e livros, os estudantes se sentam em mesas hexagonais, uns de
frente para os outros, e estudam juntos. Na verdade, eles seguem planos de
estudo personalizados, disponíveis em seus laptops, mas contam com a ajuda dos
colegas e de suas próprias pesquisas online. Tudo isso sob a monitoria de
professores de diferentes disciplinas.
“Um
médico do século 19 que chegasse hoje a um hospital não conseguiria fazer
absolutamente nada, porque tudo mudou“, compara o diretor-presidente da Fundação
Telefônica-Vivo, uma das empresas parceiras da escola. “Mas um professor
não, é basicamente a mesma coisa. Ou seja, temos escolas do século 19 para
alunos do século 21. As escolas inovadoras são muito poucas.”
Laboratórios
como estímulo
Nos
chamados laboratórios, mais parecidos com as salas de aula tradicionais, os
jovens recebem um reforço de conteúdo nas disciplinas em que apresentam mais
dificuldades. São sete horas dentro da escola – duas a mais do que as escolas
brasileiras oferecem em média – e ninguém parece ter pressa de ir para casa.
“Só
mais meia hora“, pedem os alunos da professora de Português Luana Rezende,
que transformou o ensino da língua em um divertido jogo. “Por favor!” A
turma só se convenceu a descer para almoçar depois que Luana prometeu retomar o
jogo exatamente do mesmo ponto, na semana seguinte. “Eu estou muito cansada,
gente“, justifica ela, orgulhosa, o sorriso de orelha a orelha.
No
total, são 16 professores trabalhando em tempo integral na escola. Nos projetos
especiais, os alunos trabalham com várias disciplinas ao mesmo tempo. Foi assim
ao longo da última semana de outubro, por exemplo, quando eles estudaram o
Halloween, tanto nas aulas de inglês quanto de história, e, por fim, fizeram
uma festa.
Foi
assim também que eles estudaram o nazismo,
construindo uma maquete de Auschwitz, no laboratório de ciência, e escrevendo cartas,
nas aulas de história, como se fossem prisioneiros do campo de concentração em
1944. “Temos cartas de judeus, claro, mas também de comunistas, de ciganos,
de todos que estiveram presos no campo“, explica João Paulo.
Silêncio
e concentração
A
escola experimental atende alunos do sétimo ao nono anos apenas. Eles vêm de
escolas tradicionais na própria comunidade e, depois, seguem estudando em
lugares convencionais.
“No
começo, é difícil“, conta a diretora da André Urani,
Marcela Oliveira. “Eles chegam aqui esperando receber ordens, querem que a
gente resolva os problemas. Por outro lado, quando percebem que têm autonomia,
deixam de fazer os trabalhos, começam a burlar as regras. Depois, com a
orientação dos mentores, eles vão se adaptando.”
A
adaptação é surpreendente. Em toda a escola, reina um silêncio inesperado para
um local repleto de adolescentes. Mesmo na hora do recreio, o burburinho é
mínimo.
“Eles
são adolescentes, continuam sendo, mas têm autonomia, não precisam mostrar toda
a sua indignação“, explica Marcela. “Daí o silêncio que você está vendo.”
Os
alunos se entristecem ao falar de sua saída eminente da escola.
“Estamos
tentando convencê-los a fazer uma sala de aula extra para que possamos
continuar aqui“, diz João Victor.
“Não
queremos ir embora de jeito nenhum“, garante João Paulo.
Resignados,
no entanto, eles fazem planos de voltar em dez anos.
“Eu
vou ser professor de História“, conta João Paulo.
“E
eu de matemática“, arremata João Victor.
Fonte: Publicado em 23/11/2016 no Pragmatismo Político
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