"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

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Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A destruição do Brasil e sua decomposição moral


A consequência mais trágica do golpe é a destruição do Brasil enquanto nação e a decomposição moral das suas instituições. Se o impeachment em si representou um ataque aos fundamentos democráticos e republicanos da Constituição o trabalho de sapa do governo ilegítimo consiste em destruir de forma implacável e impiedosa o sentido social que o país vinha construindo desde a Constituição de 1988. As medidas do governo falam por si e se sintetizam na PEC dos gastos, nas propostas de Reforma da Previdência e Trabalhista e na lenta destruição de programas sociais como o Prouni, Minha Casa Minha Vida, o Bolsa Família, o financiamento estudantil etc..

O governo federal, junto com governos de estados, particularmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, vêm destruindo a pesquisa científica e a Cultura, cortando verbas, fechando instituições e institutos de pesquisa, acabando com programas, demitindo orquestras sinfônicas, minando as universidades públicas. Há uma conjura deliberada anti-sociais, contra a ciência, a pesquisa, cultura, a educação e a saúde pública. Serão necessárias décadas de reconstrução, com perdas incalculáveis em termos de avanços, recursos e capacidades. O que está em curso é um grande desastre social, com um massacre de direitos de tal magnitude poucas vezes visto em nossa história. 

Do ponto de vista econômico, em Brasília, o país está à venda. Grupos de assalto cercam o governo pronto a satisfazê-los, entregando-lhes petróleo e gás, serviços e infraestrutura, previdência e direitos sociais, perdoando dívidas do agronegócio, num devastador jogo de pirataria econômica. O resultado é uma economia paralisada com quase treze milhões de desempregados, com empresas fechando as portas e com a capacidade ociosa nas alturas. O milagre da recuperação rápida se revelou uma grande mentira.

O mais grave é o trabalho deliberado de decomposição moral das instituições. O governo perdeu qualquer pudor, qualquer senso de limite, de razoabilidade, de respeito. É um governo de quadrilha que promove criminosos a altos postos governamentais diariamente, comprovando que o PMDB, apoiado pelo PSDB e os partidos do centrão, promoveram o golpe para buscar a proteção no foro privilegiado. A perda de pudor se transformou em cinismo e em escárnio, sem escrúpulos e sem decência. Esta é a consequência lógica da grande farsa montada em torno do impeachment: ora, se a sociedade se mobiliza para entregar o governo nas mãos da maior e mas bem organizada quadrilha de corruptos que o Brasil já teve, esta quadrilha se sente à vontade em promover a sua autoproteção, desprezando as exigências de moralidade pública.

No Congresso, os corruptos se organizaram para tomar de assalto as principais comissões da Câmara e do Senado, notadamente as comissões de Constituição de Justiça. Ser delatado na Lava Jato, ser denunciado por corrupção, se tornou condição para a ascensão em postos de comando, em comissões que decidem. Neste pais tornou-se normal que o presidente da República, o presidente da Câmara e o presidente do Senado tenham pesadas denúncias sobre seus ombros. Isso tanto fez quanto tanto faz. Extirpariam os fundamentos morais do Estado brasileiro.

As quadrilhas do governo e do Congresso se articularam para tornar juiz do STF alguém que é acusado de advogar para o PCC, de receber propinas da corrupção e de ter plagiado livros de juristas espanhóis. Se alguém assim se torna ministro da mais alta Corte de Justiça do país, encarregada de zelar pela Constituição e pelo sentido moral do Estado, que força terá um professor em sala para solicitar que os alunos não plagiem trabalhos na internet? O que se está assistindo é a destruição dos próprios valores morais vinculantes da sociedade, pois parte desta sociedade, anestesiada em sua hipocrisia, julga que tudo isto é normal e que faz parte do jogo político.

Autoridades sem moral e desmoralizadas

Nada mais importa. Não importa se o futuro ministro se refestelou na chalana da indecência. E isto nem importa para vários dos atuais ministros do STF que, sem pudor, sem virtudes, sem prudência e sem decência se manifestaram favoráveis à entrada de Alexandre de Moraes no egrégio colégio de capas pretas acovardados.

Qual é o sentido moral que resta neste país quando se nomeia um ministro da Corte Suprema com a intenção manifesta de que sua função será a de proteger corruptos? O que se pode esperar da moralidade social quando os juízes são íntimos daqueles que deveriam julgar, como é o caso de Gilmar Mendes com Temer e com tucanos de alta plumagem? O fato é que as nossas mais altas autoridades perderam todas as medidas, todos os critérios, toda a sensatez, toda prudência, toda a vergonha. Sem metros e sem limites morais, sem sentido social, sem senso de Justiça, sem os valores da dignidade e dos direitos humanos, o Brasil pós-golpe se decompõem diariamente a olhos vistos, exalando putrefação pelos seus poros.

Estados, a exemplo do Rio de Janeiro e Espírito Santo, estão em situação de convulsão. O governador Pezão classifica os manifestantes de "vândalos". Vândalos são os peemedebistas do Rio, que saquearam os cofres do estado. Já o governador Hartung afirma que a "sociedade se tornou refém da polícia". Mas a verdade é que polícia e sociedade são reféns de governadores incompetentes que, em tempos de trágica normalidade, jogam a polícia contra a sociedade e, em tempo de banhos de sangue por motim armados, jogam a sociedade contra as polícias. Sociedade e polícias são vítimas de um atroz jogo de violência, manipulado pelos interesses políticos dos governantes. E, após de sete dias de banho de sangue, Temer se manifesta colocando tanques nas ruas, numa demonstração de força estúpida e impotente.

Selvageria nas prisões, violência e desordem nas ruas, confrontos crescentes entre manifestantes e polícias, crescimento do desemprego e da pobreza, destruição das instituições do Estado é o legado crescente de um governo sedicioso que premia o crime com os altos cargos públicos. Ao assim proceder, sem escrúpulos e sem moral, o governo vai autorizando a barbárie social, a desmesura, a desordem. É preciso reagir antes que o estrago se torne medonho. As oposições e os movimentos sociais precisam sair das letargias de suas próprias crises. Precisam se refazer nas lutas, nas ruas, nas praças, pois são estes os melhores remédios para restabelecer as virtudes cívicas. As batalhas pela cidadania, pelos direitos, pela justiça e pela liberdade são as melhores formas de fazer autocrítica. O ensimesmamento da derrota é o benefício do inimigo.

O Brasil não pode continuar nas mãos daqueles que o estão destruindo.  Os jovens precisam de esperança, os trabalhadores querem emprego e os idosos estão desamparados, temendo uma velhice desassistida. É preciso reconduzir o Brasil no leito da democracia, no sentido social, na busca de direitos, de justiça e de igualdade. O Brasil precisa, com urgência, de um governo decente que seja capaz de conduzir moral e politicamente a sociedade. Este governo que ai está, pela imoralidade manifesta que representa, merece uma danação da memória, um esquecimento eterno.

*Aldo Fornazieri é Professor da Escola de Sociologia e Política.


Fui dispensado de uma entrevista de emprego por defender a pluralidade de ideias

'Renato Maldonado, professor de História e Sociologia, foi questionado sobre posicionamento político na sala de aula e a resposta acabou com a entrevista muito antes do que ele esperava.'

*Por Renato Maldonado

“Recentemente, fui chamado para uma entrevista de emprego para o cargo de professor em uma escola da zona sul de São Paulo. A instituição possui um projeto político-pedagógico (PPP) diferenciado, que simula assembleias de órgãos como a ONU, desenvolve projeto de inovação e tecnologia, é bilíngue e ministra aulas de atualidades. Para a conversa presencial, me pediram que levasse um tema já estruturado para uma aula teste.  

A entrevista com o coordenador pedagógico e uma assistente começou descontraída. O meu currículo impressiona pela diversidade de experiências e a reputação das instituições em que trabalhei. Indo ao encontro do PPP da escola, digo que já dei aulas de mídia e política, atualidades e democracia e, inclusive, sou autor de livro didático sobre o tema. Além disso, durante o papo, descobrimos que havia muitas pessoas em comum em nossa trajetória educacional, o que favoreceu os sorrisos abertos e a simpatia deles. Senti que se não houvesse uma mesa entre nós, ganharia tapinhas nas costas.

Em determinado momento, o coordenador, ainda sorrindo, mas com certa precaução, tomou um ar de solenidade e me perguntou como eu lidava com o posicionamento político na sala de aula. Segundo ele, os alunos se interessavam pelo posicionamento político dos docentes e que nesses "tempos difíceis", isso teria gerado alguns atritos na escola.

Expliquei que, mesmo nas aulas sobre democracia, com pano de fundo da disputa em torno do impeachment e dos embates entre partidos, nunca tive problemas na condução das minhas turmas. Argumentei que o papel do professor é justamente promover esse olhar plural sobre o objeto de conhecimento e que a escola, como espaço de socialização, muitas vezes abre possibilidades de entendimento do mundo que não estão de acordo com as ideias da família e da grande mídia. Nesse sentido, na formação do jovem, esses debates contribuem para a autonomia intelectual dos estudantes.

Expus também que a ideia de conhecimento neutro é falaciosa, pois a simples seleção de temas, o enfoque, bem como o tom de voz empregado, entre outros sinais, denunciariam a escolha política do professor. Porém, independentemente da posição de cada um, alguns elementos são fundamentais e inegociáveis por estarem, inclusive, em nossa legislação, tais como o reconhecimento da identidade do outro, o respeito às diferenças e à pluralidade, o fortalecimento da democracia e o respeito aos direitos humanos.

Finalizei dizendo que o Escola Sem Partido é um projeto que nega a capacidade de discernimento dos estudantes, pois os considera incapazes de refletir acerca dos conteúdos ministrados. Equivocadamente, ele parte da premissa que os docentes são um grupo de doutrinadores de esquerda.

Após a minha breve exposição republicana, um ar mais pesado tomou a pequena sala, como se uma nuvem densa invadisse o local no momento em que finalizei minha argumentação. O entrevistador, com um semblante de frustração, encerrou sumariamente a entrevista com um agradecimento e a promessa de que me ligaria em breve. Enfiei as anotações da minha aula-teste não realizada de volta na mochila e saí caminhando um tanto confuso de volta para casa.

São tempos difíceis estes que vivemos. Há poucos meses, uma escola vista como progressista na zona oeste de São Paulo sofreu inúmeras críticas dos pais por convidar uma das sumidades nacionais da Filosofia para uma palestra, porque ela se identificaria com o pensamento de esquerda. E então, a presença dela, que deveria ser uma honra para a instituição, se tornou um problema.

Na última escola que lecionei, um pai fotografou e divulgou num grupo do WhatsApp um texto que trabalhei em sala sobre a cobertura do impeachment feita pela mídia. O texto, que cronometrou o tempo dedicado à acusação e defesa do caso em uma reportagem do Jornal Nacional, expôs matematicamente que a dedicação à acusação fora muito maior que o tempo da defesa. Dias depois, conversei 30 minutos com esse pai e ele não fez um comentário sobre o texto. Talvez aquela pessoa que ele estivesse esperando – um professor fissurado ideologicamente e sem abertura para o diálogo –, não tenha se materializado na pessoa de carne e osso que encontrou.

Muitas escolas particulares costumam exercer o controle político-ideológico via currículo, elemento central do processo educativo, sobre seus profissionais. Como disse a professora e pesquisadora Circe Bittencourt em uma entrevista, essas escolas costumam ter uma grande intervenção dos pais ou responsáveis e, por conta de posições que não compactuam com as linhas ideológicas da direção, o número de demissões de professores de História é grande. No ensino público, o controle vem sendo realizado por dispositivos diversos, como materiais apostilados que vinculam o conteúdo ensinado à avaliações externas e provas de mérito, por exemplo. Por isso, devemos estar sempre atentos para as mudanças propostas pelo governo sem diálogo e lutar por uma escola mais democrática e plural.”

*Renato Maldonado é professor de História, Sociologia e Política, na rede particular de São Paulo.

Fonte: Publicado em 09/02/2017 no site da Nova Escola 

Todos na luta contra o Aedes aegypti!

A ameaça ainda é real. O mosquito Aedes aegypti transmite dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Todas essas doenças geram problemas à saúde, podem deixar sequelas e até matar.

Proteja sua vida e a de quem você ama. Saiba como: http://bit.ly/2ck4XBD

Faça sua parte! 

Fonte: UNICEF Brasil

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O novo ensino médio e o aumento do analfabetismo científico

'A alfabetização científica, por outro lado, é importante para o pleno exercício da cidadania.'
Por Francisco Caruso
O sociólogo italiano Domenico de Masi, com muita propriedade, afirma que o desenvolvimento de um país não deve ser medido pelo seu PIB ou por outros indicadores econômicos, mas sim pelo número de pessoas graduadas de sua população. Por outro lado, nos ensina também ser impossível uma adequação aos novos mercados de trabalho daqueles que são analfabetos científicos, em uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia e da ciência.
Nesse sentido, mesmo os mais otimistas em relação ao futuro do Brasil, percebem que há duas sérias barreiras a se vencer com urgência: o ingresso na universidade e o analfabetismo científico. Entretanto, caminhando exatamente na contramão do que deveria ser a solução para esses dois sérios problemas, o Senado da República acaba de aprovar a reforma do Ensino Médio. Nela está previsto um núcleo de conteúdo comum em todo o território nacional, correspondente a 60% do total programático. Os restantes 40% seriam de livre escolha dos alunos que teriam, assim, o direito de escolher disciplinas afins com a da carreira que pretendem seguir no nível superior de ensino. Quatro são as grandes áreas: ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemática.
Talvez alguns defensores dessa proposta vejam nisso uma vantagem que acabaria facilitando o ingresso na universidade. Entretanto, vejo mais desvantagens e algumas ponderações devem ser feitas. Em primeiro lugar, quem é professor universitário vê com muita clareza que é bastante significativo o número de jovens que passam no vestibular e se dão conta de que escolheram a carreira errada. Ora, imagine o que vai acontecer se tal escolha foi antecipada de três anos. Muitos cursos universitários têm exatamente o básico comum de dois anos exatamente para dar tempo ao jovem de refletir, com mais maturidade, sobre seu futuro profissional. Resta ainda saber se essa pretensa facilitação no ingresso não contribuirá para o abandono do curso, por falta de uma educação mais sólida e mais generalista. Ou ainda, não se pode prever como esse aluno assim formado no ensino médio estará preparado para ter uma sólida formação. Isso tudo sem falar nos problemas inerentes à situação atual das universidades.
O problema da alfabetização científica, por sua vez, deve ser considerado uma parte integrante essencial da problemática geral da Educação. Lamentavelmente, há muito tempo, a educação deixou de ser entendida como instrumento indispensável na formação do cidadão e vem sendo praticada como mero treinamento. Agora, com essa proposta aprovada pelo Senado, um treinamento ainda mais direcionado.
A alfabetização científica, por outro lado, é importante para o pleno exercício da cidadania. Para que essa afirmativa não parece simplesmente como mais um daqueles chavões comuns por aqui, podemos dar alguns exemplos do quotidiano em que o analfabeto científico tende a ter sérias dificuldades. Por exemplo, é difícil (e às vezes quase impossível) fazer com que um anticoncepcional (ou um medicamento) seja utilizado corretamente. Muitas mulheres e seus parceiros não conseguem ver qualquer tipo de relação de causa e efeito que efetivamente justifique o uso da pílula com regularidade, mesmo nos dias em que eles não têm relação sexual. É aceita, quando muito, uma relação de causalidade estrita, muito imediata: se a gravidez pode vir da relação sexual, “então” é preciso tomar a pílula quando se tem uma relação, e é só. Além disso, os medicamentos em geral são receitados esperando-se que o paciente tenha a noção de ciclo, de continuidade e de intervalo de tempo. Poderíamos dar uma lista enorme de exemplos, mas preferimos ressaltar que a importância da alfabetização científica não deve se restringir a melhorar pontualmente o quotidiano das pessoas; ela deve mudar as próprias pessoas.
Espera-se que do estudo de Ciências o cidadão possa constatar a relevância de valores tais como: curiosidade, humildade, honestidade, verdade, razão e ética. O cientista, assim como o velho alquimista ao mexer com a Natureza tentando compreendê-la e transformá-la, está, sobretudo, mudando a si mesmo, crescendo como ser humano. Esse processo contribui para tornar o ser humano mais crítico, mais sonhador e, muitas vezes, importa tanto ou mais do que o próprio resultado alcançado. É esse tipo de processo criativo que prepara o individuo para enfrentar os desafios do novo, a não temê-lo.
Dito isso, imaginemos que a escolha entre os quatro grandes grupos do saber seja uniforme (em uma primeira aproximação), ou seja, admitamos que apenas 25% dos alunos optem por ciências da natureza. Isso quer dizer que há uma enorme chance dos demais 75%, a partir da implantação do novo Ensino Médio, sejam analfabetos científicos. É assim que pretendemos formar mais gente? É essa a Escola que vai mudar o país?
Quem dera vivêssemos em uma sociedade na qual a escola ensinasse que se cria assim como o artesão trabalha o barro: transformando a matéria e, ao mesmo tempo, transformando a ele próprio. Essa é uma atitude que deveria ser o fulcro de todo projeto de alfabetização científica. Só assim, o país poderia enfrentar os desafios do terceiro milênio (que já começou, lembre-se) de cabeça erguida, pois, como afirma ainda Domenico de Masi, a sobrevivência na sociedade pós-moderna, eminentemente científica, reside fundamentalmente na criatividade e, acrescentaríamos, no sonho. Sendo assim, com que futuro se pode acenar a quem não for alfabetizado em Ciências?
*Francisco Caruso é físico, escritor e bibliófilo, pesquisador titular do CBPF e professor associado da Uerj. Co-autor do livro Física Moderna: Origens Clássicas e Fundamentos Quânticos, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2007. Membro do Pen Club do Brasil e agraciado com a Ordem do Mérito Científico da Academia Roraimense de Ciências.

Um brinde à sociedade corrupta que reclama da corrupção!

Por Jannine Dias
'Quando a população se sente uma vítima inocente da corrupção e descaso egoísta, e ignora sua colaboração direta para a proliferação dos mesmos.'

Ninguém é inocente. E os políticos são um reflexo da sociedade que eles representam.

O assunto político tem tomado grandes proporções ultimamente. As mídias sociais estão repletas de revoltas contra os políticos em geral e afirmações extremas sobre os mesmos, o ódio contra a corrupção que afeta a população é mais do que aceitável, é necessário.
As páginas no facebook pedindo impeachment (mesmo que escrito errado) da presidente e esbravejando contra a corrupção dos poderosos ganham milhares e milhares de seguidores todos os dias e defensores mais que calorosos. Pessoas que votaram em um candidato se sentem superiores e adoram gritar aos quatro ventos que não colaboraram com o caos regrado à corrupção que temos vivido atualmente. Será?
Quando nos perguntamos o porquê de ser praticamente impossível encontrar um candidato com a ficha limpa bem posicionado no Brasil, dificilmente obtemos respostas. O problema em geral está na população. É isso aí, somos nós mesmos, que não apenas tememos o desconhecido como colaboramos diretamente para a corrupção geral.
Sabe aquele dinheiro que você, mesmo vendo o rapaz derrubar, botou no bolso correndo antes que ele percebesse que caiu? Aquele dinheiro que, ao dar o troco, o atendente do supermercado te passou sobrando e você manteve silêncio e se sentiu satisfeito, sortudo? Àquele produto que você comprou baratinho mesmo desconfiando que era roubado, àquela prestação que você espera “caducar” no sistema de proteção de crédito e não pretende pagar nunca?
E aquele dia que você fingiu estar dormindo no banco colorido do ônibus para não precisar ceder o lugar para a gestante ou o idoso que entrou? Você entrou pelas portas traseiras do ônibus se sentindo o maioral e ainda é cheio de desculpas? Pois é. Sabia que os políticos corruptos também inventam um monte de desculpas para justificar seus atos? Você é tão corrupto e egoísta quanto os odiosos políticos que você acusa com tanto ardor.
Você sai por aí, esbravejando contra todos e se sentindo vítima da corrupção que você mesmo alimenta, mas está sempre tentando levar vantagem em tudo. A diferença entre você e os nossos políticos é que você tem menos poder. Do contrário, seria mais um se divertindo com o dinheiro público. Se você aproveita todas as oportunidades, mesmo que incorretas, para se dar bem nas situações, comece a pensar em suas atitudes antes de sair acusando por aí.
Vamos aprimorar nosso próprio caráter para garantir melhores pessoas no poder futuramente, a começar por nós mesmos?
Obrigada.
*Jannine Dias é designer gráfico e artista.