"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

Obrigado pelo acesso ao nosso blog
!

Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.
#PauloFreireMereceRespeito #PatonoDaEducaçãoBrasileira #PauloFreireSempre

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O direito humano pelo olhar da direita

O direito à vida, saúde, educação, moradia, alimentação e ao lazer são regras básicas a qualquer cidadão.

Direitos da pessoa, é um direito humano, para que ela, a pessoa possa ter condições de desenvolvimento e assim poder buscar uma vida digna.

O que vale observar é que existe um direito que funciona como motor principal para o funcionamento da engrenagem social.

O Estado deve prover um sistema de saúde capaz de atender  a população, porém o direito à educação é um fator importante para o sucesso do desenvolvimento humano e a erradicação  de outras problemáticas sociais.

Hoje, o direito humano, tem estado na mira de quem levanta a bandeira extremista, de misóginos e principalmente de quem defende a ideia de uma sociedade desigual.

Para eles, os direitos humanos servem para proteger quem comete crimes ou está  encarcerado.

Um discurso errado e  extremamente egoísta e com falta de olhar ao próximo.

Quem, de berço, sempre teve acolhimento,  educação de qualidade,  lazer, saúde, boa alimentação,  muitas vezes não consegue entender que está gozando do seu direito humano.

Entende tudo isso como resultado único de esforço próprio se omitindo de perceber a tamanha desigualdade social e econômica que existe entre o seu núcleo e as camadas que lhe circundam.

A verdade é  que enquanto estivermos sob o domínio neoliberal será difícil de fazer valer o direito humano de cada um.

Para uma minoria abastada, o pobre só tem direito a lhe servir e se alimentar de pão e água.

É conveniente fingir não entender os direitos, isso lhe faz achar superior, cidadão de bem e  merecedor de tudo aquilo que tem acesso.

Seus representantes políticos distribuem propostas absurdas de cunho claramente fascista, tentam se perpetuar no poder promovendo mais ódio e discriminação.

Utilizam a violência urbana, as catástrofes sociais como combustível para manter acesa a fogueira da ignorância.

Seu principal bordão que vem em forma de pergunta é:  “onde estão  os direitos humanos?”

A  resposta é  simples: Está  na sua casa, na sua vida.

Direito humano não é  resultado de ideologia meritocrata.  É  promoção  de vida digna, que merece todo cidadão, de todas as classes, credo, etnias, gênero, enfim, todo ser humano. É dever do Estado garantido na Constituição Federal.

Não se aproveitem da educação pública deficiente, que é um plano de vocês, para levar o povo a erro.

A deformação do entendimento está justamente naquele que não carece dos serviços do Estado, está em quem paga caro por assistência privada e, ainda, apoia o desmonte da máquina do Estado, promovendo um verdadeiro desgaste econômico e social.

É esta gente direita que quer acabar com os direitos humanos de quem não tem como pagar por saúde, educação, lazer, alimentação e moradia.

*Cristiano Lima é educador, graduando em Geografia pela UERJ - CEDERJ e escritor



Amoêdo, candidato do Novo, é tão bancário quanto o presidente da Ford é metalúrgico

Por Luis Felipe Miguel, professor da UnB
Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor
João Amoêdo (Foto: Divulgação/Partido Novo)
Não quero me tornar monotemático, mas tem um negócio interessante no site da candidatura do Amoêdo. Tem uma página lá intitulada “mitos e verdades”, o que já é significativo – não acho que ele tenha tanta importância, a ponto de surgirem “mitos” sobre ele. Esse negócio de “mito” deve ser um ato falho, fruto do desejo de ser um Bolsonaro.

A maior parte da página está em forma de perguntas e resposta. Uma pergunta é: “João é banqueiro?” Esclareço que “João” é a alcunha que os marqueteiros dele inventaram na tentativa de torná-lo popular. A resposta é curta: “João nunca foi banqueiro, mas sim bancário. Começou como estagiário e, com muito trabalho e dedicação, foi crescendo nas empresas por onde passou. Atualmente dedica todo seu tempo ao [partido] Novo”.

É uma resposta digna de nota, por pelo menos dois motivos. Primeiro, é mentirosa. Amoêdo é tão bancário quanto o presidente da Ford é metalúrgico. Ele fez sua carreira como executivo do setor financeiro. Seria banqueiro mesmo que não fosse acionista dos bancos – e, na verdade, tornou-se grande acionista. Afinal, sua posição objetivamente estava na defesa dos interesses do capital contra o trabalho. Numa negociação sobre salário e condições de trabalho dos bancários, de que lado “João” sentava?

Há um vídeo – que um militante do Novo fez a gentileza de mandar para mim, acompanhado de alguns impropérios – em que Amoêdo imerge ainda mais no falseamento da verdade. Além de repetir que não era banqueiro, mas bancário, ele diz que nunca foi do Itaú. “Eu trabalhava numa financeira que foi comprada pelo Itaú e quando isso aconteceu eu tive que sair, fiquei desempregado. Depois eu estava no conselho de administração do Unibanco, o Itaú veio, fez uma fusão com o banco, e eu também tive que sair”. Uma vítima do Itaú, na verdade! Ele não diz que não foi apenas membro do conselho de administração e sim vice-presidente do Unibanco. Mas, sobretudo, não diz que após a fusão tornou-se integrante do conselho de administração do Itaú BBA, um dos braços da nova empresa. É quase como dizer “não tenho nada a ver com a Unilever, eu trabalho é na Kibon”. Ele deixou o cargo no Itaú BBA para se dedicar a uma nova função corporativa: o partido Novo.

O segundo motivo que torna interessante a resposta é o subtexto ideológico. Amoêdo se apresenta como a prova viva da tal “meritocracia”. Com “trabalho e dedicação”, qualquer estagiário do Itaú (que deve receber em torno de 1,5 mil mensais) pode amealhar uma fortuna de 450 milhões de reais, vestir uma fantasia alaranjada e custear sua própria candidatura à presidência. Não conseguiu, está pendurado no cheque especial e devendo pro próprio empregador? Culpa dele. Certamente faltaram esforço e mérito.

O nome do partido é novo, mas a mentira e a mistificação são bem velhas.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

DOL: Governo Jatene só perde para o Amapá em ineficiência. Um dos piores do Brasil, diz a Folha

Márcio Miranda e Simão Jatene que chefiam os poderes legislativo e executivo no Pará (Foto: Wagner Santana/Diário do Pará)
O Pará está na penúltima colocação entre as unidades da federação que mais investem em item essenciais como saúde, educação, infraestrutura, segurança, finanças e receita per capita. As informações são do Ranking de Eficiência dos Estados (REE-F), da Folha, ferramenta lançada pelo jornal Folha e Instituto DataFolha que aponta as gestões mais eficientes do Brasil. O levantamento partiu através de reportagens e análises feitas pelo veículo.

Dos 26 estados e o Distrito Federal, o Pará aparece na 26ª colocação perdendo apenas para o Amapá.

De acordo com o Ranking, o governador Simão Jatene deixou o Pará com nota de 0,187 numa escala que varia de 0 a 1, ou seja, considerado ineficiente.

A avaliação mais crítica do Pará está em Infraestrutura com nota 0,059; seguida de receita per capita 0,061; saúde 0,158; educação 0,245; segurança 0,304 e finanças 0,691.
Sucateamento de escola pública no Pará mostra o abandono da educação (Foto: Arquivo)
Pacientes e visitantes tendo que conviver com goteiras no Hospital Ophir Loyola em Belém (Foto: Arquivo)
Precariedade no saneamento chegou a ser mostrada em rede social por ator global em vídeo que fez em Belém (Foto: Arquivo)
Para se ter uma ideia, a média nacional de eficiência em infraestrutura é de 0,459 mostrando que o Pará está bem abaixo dos investimentos feitos em todo o país.

O estudo ainda aponta que o Pará teve uma receita total no ano passado de R$ 23,1 bilhões com receita por habitante de R$ 2.764.

Deste total, 44,8%, R$ 10,4 bilhões foram para o pagamento do funcionalismo em 2017.

OUTROS ESTADOS

Apenas cinco estados - Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Pernambuco e Espírito Santo - foram considerados eficientes com nota que ultrapassam 0,50 pontos.

Já os estados da Paraíba, Minas Gerais, Piauí, Ceará, Rio de Janeiro e Goiás aparecem entre os seis que mostraram alguma eficiência.

Os outros 15 aparecem apenas entre os ineficientes.


 (Arte: Folha de São Paulo)



GGN: Primus inter pares

Por anos o verdadeiro partido de oposição no Brasil era a mídia, organizada em oligopólio, que reina sobre o Brasil. O que não se esperava é que o judiciário e o ministério público constituíssem um novo partido de oposição aos pobres e à democracia.

O papel das organizações globo, da folha de São Paulo, da editora abril e seus grupos associados na história do Brasil já é proverbial. Apoiaram os regimes autoritários, fizeram oposição às mudanças da redemocratização, se opuseram fortemente aos governos progressistas e sempre estiveram ao lado da plutocracia a qual pertencem seus donos. Nada de novo no front para quem sabe que a luta de classes é uma realidade no mundo, ainda mais em um país capitalista periférico com uma herança escravocrata e oligárquica como o nosso.

A novidade é a falta de republicanismo que acomete às instituições brasileiras. Existem nichos no nosso judiciário e no ministério público recheados de fascistas, neoliberais, machistas, racistas, e toda sorte de chaga social que a elite brasileira tem. Uma parte deste problema se deve ao fato de que nosso judiciário é claramente composto por homens, brancos, heterossexuais, urbanos oriundos da mesma classe média alta ou alta e que, se já não são conservadores por educação e criação, tornam-se pela própria contingência institucional dos poderes que exercem.

Uma parte da direita (e mesmo de uma certa ‘new left’ brasileira) defende que o que ocorre com Lula é idêntico ao que sempre ocorreu com populações negras, jovens e periféricas que são, sistematicamente, marginalizadas e esquecidas nos porões das cadeias e nos escaninhos de juízes. O argumento é ajudado pelo fato de que das mais de 750 mil pessoas presas no Brasil, mais de 56% é negra e tem até 29 anos. A justiça, no Brasil, é uma evidente ferramenta de luta de classes, enclausurando jovens negros por portarem algumas gramas de maconha, enquanto mantém soltos brancos com quilos de cocaína e armas.

Contudo, o argumento de que o que ocorre com Lula não seria novidade não pode ser aceito. Por mais ignóbil e absurdo que seja o encarceramento dos jovens, o que ocorre ali é a ação pontual, moral e determinada de um grupo de autoridades (juiz, MP e etc.) sobre um jovem que ameaça marginalmente o sistema. A violência de classe somente pode ser percebida quando se olham os números totais. A ação do judiciário sobre cada caso, se analisada em separado, revelaria, talvez, mesquinhez, moralismo, conservadorismo, falta de conhecimento e etc., mas cada ação individual não tem força política imediata. Foram necessários anos e anos de encarceramento em massa no Brasil para que hoje tivéssemos a certeza do absurdo. Os argumentos que defendem as prisões baseado em leituras mesquinhas da lei, só adquirem força política através da coletividade do judiciário brasileiro.

Trocando em miúdos, a vilania de um juiz ou de um membro do MP contra um jovem negro pode ser sustentada como “cumprimento neutro da letra da lei”. A ação deliberada de TODO o judiciário brasileiro no encarceramento de negros desvela a luta de classes e a ação política de forma inaceitável.

A diferença para o caso Lula está exatamente aí. Para a ação política concertada, o judiciário levou anos de má formação, má escolha de seus membros e cultivo de uma ideologia institucional sórdida que afirma seus partícipes como justos detentores de privilégios e benefícios que literalmente os colocam distante da sociedade em que atuam. No caso Lula, ao que parece, a partir da posição do desembargador Favretto e outros, o que houve é uma ação de poucos e para poucos.

É verdade que a imensa maioria dos juízes brasileiros não vivem no Brasil. Vivem em pedaços de terra geograficamente defendidos, sustentados, branqueados e aparelhados com dinheiro público, cujo objetivo é exatamente fazer com que eles não estejam inseridos na realidade daqueles que vão julgar. Não estejam, portanto, “no Brasil”. Há uma errônea premissa sociológica de que do distanciamento das agruras materiais e sociais surgiria uma figura neutra, equidistante que, baseada na “letra da lei” e nos princípios republicanos, administraria a Justiça.

Um arremedo pobre e inefetivo da noção católica do que é justo e do que é bom. Sociologicamente nossa sociedade reserva aos juízes o espaço mais próximo de Deus entre todos os mortais. Ocorre que estas pessoas passam a se compreender como divinas. Mesmo as mais humildes, depois de intenso bombardeio ideológico institucional, se convencem serem “diferenciados” em sua existência, atos, consciência e capacidade.

A Justiça brasileira é a justiça dos desiguais. Dos “meritórios e diferenciados” sobre os “vis e perversos”. Repete o arquétipo católico da luta do “bem” contra o “mal”. O olhar dos abastados material e tecnicamente sobre a escória dos desafortunados ou desprezíveis.

Este modelo serviu bem, historicamente, para uma sociedade que se tornou independe no início do século XIX, mas manteve os mesmos grupos sociais e econômicos no poder. Serviu também para a consolidação de uma ideia de “República”, no final do XIX, que é totalmente tributária da noção de diferenciação social. Em nenhum lugar do mundo “república” é aproximado de “democracia”, mas, no Brasil, a nossa república foi pensada para estar de costas para o povo.

O pacto de 1988, na constituição feita após o golpe militar, não era um pacto pelo fim das desigualdades sociais. É certo que grupos ali trabalharam incessantemente para isto, mas, no fim, os conservadores conseguiram manter intacta uma estrutura de privilégios ligada umbilicalmente aos altos cargos nos poderes. Desde a exigência do tratamento pessoal diferenciado até a auto-concessão de penduricalhos, tudo faz parte da noção arraigada de que os que exercem os papéis de juízes e promotores são o que era conhecido na Antiguidade como “primus inter pares”: os primeiros entre os iguais. E aí se desfaz qualquer noção real de república. Se alguém é diferente então não somos mais todos iguais.

A constituição de 1988, contudo, consolidou um pacto velado contra o arbítrio. Oriunda das cicatrizes ainda sangrando do regime militar, todas as garantias foram dadas ao exercício do poder jurídico, tido como “único garantidor” contra a violência do autoritarismo. Pois o Judiciário tornou-se exatamente a principal fonte da violência. Contra Lula a violência não só é mais descarada e desavergonhada, como visa uma economia de poder. Ao invés de encarcerar 500 mil jovens negros (todos e cada um) e assim mantê-los fora da ideia de sociedade, gastando poder para cada injustiça e vilipêndio, ataca-se aquele que portava não apenas a esperança de uma mudança como tinha efetivamente realizado isto.

Tão logo Haddad se consolida como figura herdeira desta representação, recebe – também – a herança do ódio endereçado ao ex-presidente. Não demorou uma semana e Haddad já conhece as boas vindas das elites brancas, togadas e mal-formadas que povoam o nosso judiciário e Ministério Público.

No Brasil de ponta-cabeça, ser perseguido pelo judiciário é sinônimo de luta na defesa pelos mais pobres ... Assim como ser preso sem provas e sem crimes mostra ao povo quem nunca saiu do seu lado. O judiciário torna a campanha de 2018 fácil de ser entendida pela população mais humilde. Lula Livre é tudo o que eles querem e talvez tudo o que precisam.



RBA: Sem revogar teto de gastos, desmonte da ciência continua no próximo governo

'Candidatos conservadores querem manter investimentos públicos congelados, que engessa Ciência, Tecnologia, Inovação, saúde e educação, e não falam em restabelecer Ministério da Ciência e Tecnologia, abolido por Temer'
Dos 13 candidatos, apenas Lula, João Goulart Filho e Marina Silva querem elevar investimentos no seto. Imagem: Governo Federal
São Paulo – Dos 13 candidatos que disputam a Presidência da República, apenas Lula (PT), João Goulart Filho (PPL) e Marina Silva (Rede) pretendem elevar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, que vêm sendo reduzidos drasticamente pelo governo de Michel Temer.  Lula pretende aumentar para 2% do PIB até 2030, enquanto Marina pretende alcançar o mesmo percentual até o final do mandato. Goulart promete chegar em 3% em quatro anos.

A situação orçamentária do setor, que sempre esteve distante da ideal, se agravou nos dois últimos anos. Em 2017, o orçamento já reduzido sofreu contingenciamento de 45% já no começo do ano. Por meio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), houve pressão sobre o governo e a redução do contingenciamento. Mesmo assim, o valor executado foi de R$ 4,6 bilhões, metade do que se vinha utilizando em 2013. Para 2018, o orçamento aumentou um pouco, mas continuou ruim, na casa de R$ 4,5 bilhões, que caiu para R$ 4,1 com um contingenciamento, conforme avaliação da entidade.

Principal reivindicação da comunidade científica, a revogação da Emenda Constitucional 95, que congela os investimentos na área social por 20 anos, é defendida por Lula, Guilherme Boulos (Psol), Ciro Gomes (PDT), Goulart Filho e Vera Lúcia (PSTU).

Apenas Lula e Boulos defendem a reconstrução do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), tal como foi desde sua criação, em março de 1985, até os governos Dilma Rousseff. João Amôedo (Novo), Henrique Meirelles (MDB) e Vera não apresentam nenhuma proposta relacionada ao setor CT&I. Os dois últimos sequer citam a palavra ciência em seus programas.

Os dados são de um levantamento da jornalista Daniela Klebis, do Jornal da Ciência, órgão de comunicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), nos planos de governo publicados no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Clique aqui para ler a íntegra da reportagem.

Sobre o Marco Legal da CT&I, sancionado pela presidenta deposta, Boulos é o único a defender a consolidação da regulamentação e a aplicação da Lei.

Até o dia da votação, é possível aos candidatos acrescentarem mais detalhes às suas propostas, no curso das campanhas eleitorais.



A quem serve este governo? A regressão dos direitos sociais no Brasil no pós-golpe


A atual conjuntura social, política e econômica vivenciada no país consiste num conjunto de propostas que incidem no desmonte das políticas públicas e na consequente perda dos direitos sociais, retrocessos com consequências diretas para a classe trabalhadora. Nesta perspectiva, em agosto de 2016, o Brasil sofreu “um golpe político-institucional, que tem acarretado em significativas transformações no sentido da restrição do Estado para com as Políticas Sociais” (SANTOS et al, 2017, p. 05).

A postura conservadora adotada pelo governo Temer ao aprovar o congelamento dos gastos públicos com o social por vinte anos, a proposta de contrarreforma da Previdência por meio da PEC 287/16 e o desmantelamento dos direitos do trabalho por meio da promulgação da Lei 13.467/17 (que dispõe sobre a Reforma Trabalhista e a consequente desregulamentação da Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT) beneficia os empregadores em detrimento dos empregados, que, por sua vez, passam a ser duramente penalizados e explorados. Faz com que observemos que as trajetórias dos direitos sociais no Brasil estão sendo rompidas, estes perdendo seu caráter universalista e assumindo um viés residual e focalista.

Essa política de “assalto” ao fundo público […] se radicaliza e se acelera consideravelmente no governo Temer. Sua função primordial é promover um “choque” de medidas neoliberais radicais de natureza conservadora e reacionária, que inclui um pacote que compromete sobremaneira o sistema protetivo garantido na Constituição Federal de 1988, entre eles a limitação dos gastos públicos em vinte anos; a desvinculação das pensões e aposentadorias das correções do salário mínimo; o desmonte da CLT e a lei de regulamentação da terceirização irrestrita. […] (CASTILHO et.al, 2017, p. 458).

Após ter dado o golpe certeiro que culminou no impeachment de Dilma Rousseff , em 2016, Michel Temer demonstrou o caráter antidemocrático e inflexível do seu governo ao lançar a PEC 241/2016, covertida no Senado em PEC 55/2016, que estabeleceu o congelamento dos investimentos em educação, saúde e assistência social pelos próximos vinte anos, corrigidos apenas pelo valor anual da inflação. Ao ser aprovada, tornou-se Emenda Constitucional 95/2016, ignorando os diversos movimentos sociais que se manifestaram contrários à arbitrariedade de tais propostas, sob pretexto de que a “alternativa para evitar a catástrofe final [seria] aplicar um austero programa aos gastos públicos”. (GRANEMANN, 2016, p. 173).

O que falar sobre as propostas do documento “Travessia Social – Uma ponte para o futuro” (elaborado pela Fundação Ulisses Guimarães a pedido do PMDB atual MDB)? Ele incide num conjunto de propostas neoliberais, com políticas públicas de proteção social de caráter compensatório e residual, “impondo à classe trabalhadora um cenário de extrema degradação humana, precarização e barbárie social, na medida em que restringe a competência do Estado em implementar políticas sociais que venham garantir a reprodução social da classe trabalhadora”. (CASTILHO et.al, 2017, p.458).

Tal governo demonstra claramente que se estrutura nos pilares do neoliberalismo, indicando que apostará na privatização das políticas públicas, conforme fragmento retirado do documento Travessia Social – Uma ponte para o futuro (2016, p.17) que diz: “As lições que estamos vivendo nos obrigam a buscar uma reengenharia das relações do Estado com o setor privado”. Tem-se aí, a ideologia neoliberal que retira do Estado à responsabilidade pela execução de políticas públicas conduzindo-as à privatização e ao Estado mínimo.

No pós-golpe parlamentar, é verificada que “a austeridade que se deseja impor sobre os gastos sociais públicos restringe-se ao destinado aos direitos da classe trabalhadora” (GRANEMANN, 2016, p. 174), sempre penalizada pela conflituosa gestão econômica do governo brasileiro.

Diante do exposto, não seria demais dizer que “o passado nunca esteve tão presente”, os retrocessos estão batendo em nossas portas, pois a atual conjuntura das políticas públicas no Brasil segue na contramão dos direitos sociais e só tende a aprofundar ainda mais as desigualdades sociais.

Ao se indagar “um governo para quem?” o ensejo é inflamar a discussão bem como os desafios que se colocam frente às ações de um governo que, com um discurso falacioso, vem mascarando o princípio da universalidade ao passo que desmantela as políticas públicas sociais. Faz-se necessário e urgente que os diversos movimentos sociais se organizem na retomada do espírito de luta pela democracia e pelos direitos sociais que estão sendo atacados e derrotados pela ofensiva neoliberal incorporada pelo governo golpista que em nada representa a classe trabalhadora e os movimentos sociais que outrora lutaram incessantemente pelos direitos sociais garantidos na Constituição de 1988.

Referências bibliográficas

CASTILHO, Daniela Ribeiro; LEMOS, Esther Luíza de Souza; GOMES,Vera Lúcia Batista. Crise do capital e desmonte da Seguridade Social: desafios (im) postos ao Serviço Social. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 130, p. 447-466, set./dez. 2017.

GRANEMANN, Sara. O desmonte das políticas de seguridade social e os impactos sobre a classe trabalhadora: as estratégias e a resistência. Serv. Soc. Rev., Londrina, v. 19, n.1, P. 171-184, Jul/Dez. 2016.

SANTOS, Ana Cristina de Lima; SANTOS, Vaneide alves dos;  SILVA, Roberta Teodorico Ferreira da; Bezerra, Kassandra Queiroga;  CONSERVA, Marinalva de Sousa. Os impactos das reformas no “governo temer” para as políticas sociais. In: Anais do II Seminário Nacional de Serviço Social, Trabalho e Políticas Sociais.  Florianópolis– 23 a 25 de outubro de 2017.


*Mariane Rodrigues Silva é assistente social graduada pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e mestranda em Estudos Rurais na mesma universidade. Atuou como assistente social no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em Ladainha (MG) e no Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora em Novo Oriente de Minas (MG)


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A mídia não deu: em 12 estados, Ibope aponta liderança de Lula em 10

Por Fernando Brito 

Publicado originalmente no Tijolaço


Lula cresce no Ibope. Foto: Reprodução/Tijolaço
Seis dias atrás, registrei aqui que o Ibope estava fazendo pesquisas de intenção de voto no plano estadual (governador e senadores) e também para presidente  em 12 estados e, em seguida, registrou pesquisas em praticamente todas as unidades da Federação.

Como todos devem estar acompanhando, os resultados estaduais foram divulgados.

Os presidenciais, ao menos até agora, não saíram nos jornais nem nas televisões que encomendaram e pagaram caro pelas pesquisas.

Mas estão na internet, e este o Tijolaço que não tem  milhares de reais para pagar por elas, faz questão de publicar o que consta dos relatórios do Ibope e a mídia resolveu ignorar.

No próximo post, comento os números:

Os dados de cada pesquisa – número de entrevistas, margens de erro e nota metodológicas esta na página de cada uma delas no site do Ibope, acessível aqui.




A sorte do Brasil é que seu grande líder é um gênio pacifista



Em recente pesquisa, o IBGE divulgou os seguintes dados: no Brasil do golpe, os desempregados já somam treze milhões. Mais de quatro milhões desse universo se compõe de jovens entre 18 e 24 anos. Já falta trabalho para nada menos que um quarto dos brasileiros em idade de trabalhar. Para uma população extremamente carente, as notícias ruins não param de chegar: cortes em programas sociais como o "Minha Casa, Minha Vida" e "Farmácia Popular", neutralização de direitos sociais, destruição da estrutura de financiamento dos sindicatos, acesso dificultado à Justiça do Trabalho. Se na economia, o humilde não tem vez, melhor sorte não assiste ao povo brasileiro no âmbito da política (que passou a incluir os tribunais).

O impeachment  foi farsa, o processo, condenação e prisão do ex-Presidente Lula são farsas e, como corolário natural dessa anomalia, a esperada eleição é uma farsa. É tudo parte daquilo que na Ciência do Direito trata por iter criminis. Esclarecendo: o conjunto de atos praticado por criminosos para atingir o ato final - consumação e exaurimento de um delito. Também no direito, a participação de várias pessoas com ações específicas que concorrem para o crime e seu resultado recebe o nome de quadrilha. Na legislação específica recebe o nome de Crime Organizado.

Já o disse neste espaço que o país esteve e está aparelhado ao contrário, não pela esquerda como diziam. A máquina oficial é instrumentalizada para tornar o que é público em privado. Por essa razão, a presidenta Dilma Rousseff tinha que ser derrubada e Lula ser preso. Presumo a existências de pessoas bem intencionadas no aparelho estatal e que existam pessoas errando tentando acertar, seja na Polícia Federal ou outros órgãos. Conheço gente de bem (não de bens) que por ignorância ou boa fé, ajudaram no golpe. Em cada braço oficial do Estado havia e há um ou mais delinquentes agindo para assegurar o crime. São braços do crime dentro da PF, RF, MPF, JF, STF, Exército, etc para garantir os interesses das elites. Afinal, o fantasma do comunismo precisa ser combatido, nem que isso custe a miséria do brasileiro e a perda da soberania.

Obviamente, o mercado e suas vozes midiáticas - cuja maior referência popular é a organização criminosa TV Globo, cumprem papel anestesiante na população. Como num truque de mágico, a mídia chama a atenção para a mão esquerda, enquanto a mágica se materializa com a mão direita. É um conluio de mãos.

Na consumação do crime contra o Brasil, vivemos uma farsa eleitoral. O STF (homenageado em bordel) age para manter inutilmente a aparência da legalidade, mesmo pisoteando a Constituição Federal todos os dias. Para fazer média com a comunidade internacional é preciso fingir eleição e, sobre isso, neste final de semana houve um encontro de comadres promovido pela Rede TV/Istoé e colaboradores. Parecia piada. Não dava pra perceber quem falava com quem. As frases feitas se destinavam ao povão, que, aliás, tinha coisa mais importante para fazer do que assistir o tal circo. As frases sofisticadas (Ciro Gomes, Alckmin, Meireles, Alvaro Dias) eram ensimesmadas e ou voltadas para mostrar “conhecimento” para jornalistas.

Para uma sociedade que pretende ser plural, faltou muito. Foi mais do mesmo se apresentando como novo. As mesmas faces da elite tentando mostrar picuinhas circunstanciais, na base da generalidade em 30, 45 segundo. À exceção de Boulos, as várias faces de uma sociedade falida: Marina Silva, a lesma verde, a serviço da elite para criar segundo turno em eleições. O bolsopata e seu congênere Cabo Fulano de Tal eram duas pessoas numa só. Alckmin, o gigolô de obras alheias, tentava se descolar do golpe e minimizar sua aliança com a gangue do centrão.  Mas, trocou figurinha com Ciro Gomes (o menos asqueroso) que, sem espaço, não conseguia dizer a que veio, exceto vomitar números incompreensíveis pelo grande público. Álvaro Dias (do partido Farsa Jato) era o símbolo do leprosário curitibano, tentando encarnar seu pretenso futuro ministro da Justiça Sejumoro.

Mas, lá esteve a cadeira vazia do Lula, logo retirada por ordem do bolsopata, sob protestos de Boulos. A ausência de Lula virou símbolo de indiferença do Brasil à Organização das Nações Unidas, que recomenda respeito aos direitos do candidato sequestrado. Se o STF não cumpre a Constituição Federal - que é taxativa, impositiva, irretorquível e inexorável, por que atenderia uma recomendação civilizada da ONU? Para as duas primeiras damas, a do bordel supremo e a da Fogueira da Inquisição, seguir a ONU é se apequenar. A ONU vê prejuízo iminente e irreparável e já deu sua liminar. Mas, no Brasil de juizecos, delegadinhos, desembargadores e ministros medíocres, vigem os embargos de conluio auriculares. Numa republiqueta na qual telefonemas presidenciais são ilegalmente divulgados, as coisas se decidem por telefonema, até por juiz fora do ofício.

O debate da Rede TV aconteceu num país no qual as instituições, em conluio, içaram ao poder uma quadrilha e com ela convive. Mas, para meu colega delegado da PF que subia em palanque pró-golpe, contra a corrupção, “o pior já passou” (Ah, tá!). O crime organizado no Brasil cansou de brincar de democracia, tomou o poder na mão grande e não vai devolver no voto. Vai ter fraude dentro da fraude para garantir a desgraça do povão e a venda do Brasil na bacia das almas. 

O tal debate, símbolo da mediocridade e da farsa democrática é prova inconteste de que tudo foi mexido para ficar como está: com o crime organizado no poder. Para tanto é preciso demonizar o PT e ter um preso político – com ficha suja fabricada (Lula). Retrato de um Brasil do judiciário corrupto e Forças Armadas covardes - que batem continência para um canalha.

Os pequenos avanços do Brasil sucumbiram. O golpe substituiu a tênue e incipiente tentativa de crescimento econômico com justiça social; idem a democracia. Aliás, um golpe mal feito e mal conduzido, que já virou fiasco e piada mundial, desastre econômico e institucional. Em meio a esse caos nutrido pelo desejo de vingança social perpetrada pela "elite do atraso" contra a maioria do povo brasileiro  - ao qual não se reservam senão cortes em direitos sociais, violência estatal e cassação de sua intenção eleitoral - pergunta-se: por que esse caldeirão ainda não explodiu? Por que o crime contra a pátria segue a todo vapor? Por que ainda não estourou a baderna ou não começou a revolução?

A resposta veio por meio de um delegado da própria PF. De forma triste e reticente ele respondeu: “veterano... A sorte de nossa elite do atraso e do Brasil é que o maior líder deste país é um gênio pacifista...


*Armando Rodrigues Coelho Neto - jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo



 

O Judiciário e as elites levam o Brasil à rebelião



Nas democracias, as eleições funcionam como processos de relegitimação do poder, da autoridade em geral e dos governos, principalmente quando elas ocorrem em momentos de crise ou como instrumentos para superar crises. No presidencialismo, elas conferem força, legitimidade e autoridade a um presidente eleito. No parlamentarismo, governos enfraquecidos que  perdem apoio social e parlamentar, normalmente, são substituídos por um novo governo nascido de uma eleição parlamentar antecipada visando formar uma maioria para conferir autoridade e legitimidade a um novo gabinete ministerial. 

As eleições presidenciais brasileiras de 2018 estão caminhando no sentido contrário daquilo que deveria ser a sua função precípua: dar legitimidade e força a um novo presidente para enfrentar os gravíssimos aspectos da crise. Esse sentido contrário indica que as eleições se revestirão de ilegitimidade, elegerão um presidente fraco, agravarão a crise política e o futuro governo não terá força e capacidade para enfrentar a crise econômica e social. O nó górdio dessa ilegitimidade é o impedimento de Lula e a manutenção de sua prisão ilegal. Na medida em que forças políticas e sociais estão sendo levadas para um beco sem saídas, não lhes restará outro caminho a não ser a rebelião política para contestar, derrubar e reformar uma ordem que se tornou ilegítima. A participação do PT nas eleições com uma outra chapa, não lhe retira o caráter ilegítimo. O problema está no povo que está sendo impedido de votar no candidato que a maioria quer.

Os principais responsáveis por construir esse caminho da rebelião são o Judiciário e o Ministério Público associados à grande mídia, de um lado, e as elites predatórias que contam a seu serviço o alto funcionalismo estatal, de outro. Examine-se a conduta do Judiciário, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Esses setores transformaram a operação Lava Jato num instrumento de perseguição política contra aqueles que juízes, procuradores e delegados elegeram para serem os seus inimigos ideológicos, com Lula em primeiro lugar. A quantidade de arbitrariedades de violações da Constituição, de leis e de direitos individuais que os operadores da Lava Jato praticaram, partido de Curitiba, passando por Porto Alegre e chegando aos tribunais superiores em Brasília, são incontáveis.

Pode-se mencionar as conduções coercitivas, prisões arbitrárias, delações forjadas, condenações ilegais, notadamente a do presidente Lula. Some-se a isso, o aval que o STF deu ao golpe e a validação de leis inconstitucionais a exemplo da prisão sem que a sentença tenha transitado em julgado, como garante o artigo 5° da Constituição, e a própria lei da Ficha Limpa. O juiz Moro, os desembargadores do TRF4 e ministros dos tribunais superiores de Brasília estão gritando: "a lei sou eu". A lei e a Constituição foram substituídas pela vontade arbitrária dos juízes, que instauraram o reino do mando pessoal como sempre vigeu no Brasil colonial, imperial, da Primeira República e cujas práticas nefastas renascem hoje com vigor bramidas justamente por aqueles que deveriam combatê-las. O dia 8 de julho será marcado como um dia exemplar para provar que o que vale no Brasil não é a lei e a Constituição, mas o poder pessoal de desembargadores, de delegados, de juízes e da procuradora Geral da República, ao interferirem de forma ilegal para impedir que Lula fosse solto. 

Agora, esse mesmo Judiciário se prepara para desacatar uma determinação de um Comitê de Direitos Humanos da ONU para impedir que Lula seja candidato e, consequentemente, que ganhe liberdade em face de sua prisão ilegal. O Judiciário e o MPF já perderam todo o pudor em face de sua senda criminosa na violação recorrente da Constituição e das leis. Destruíram a autoridade e a legitimidade jurídica ao usarem as leis e o direito como instrumentos de guerra contra aqueles que eles elegeram como inimigos políticos e ideológicos. Existe hoje uma enorme pressão internacional pela liberdade e pelos direitos de Lula vinda de juristas, intelectuais, artistas e políticos de renome mundial e de organismos de Direitos Humanos. Mas as autoridades brasileiras se comportam como chefetes de ditaduras, de regimes de apartheid de tirania, insensíveis a estes reclamos. Mas como todo regime arbitrário, esses chefetes também, algum dia, irão cair.

No Brasil não há mais leis e nem Constituição. Há a vontade arbitrária dos juízes. A destruição do sistema jurídico irá levar a uma rebelião, pois aqueles que são perseguidos não tem a quem recorrer, dadas a contaminação e a putrefação do Judiciário, transformado em instrumento de guerra política. Os perseguidos pelo Judiciário estão num beco sem saída: ou reagirão se rebelando ou serão destruídos. Esta rebelião terá que ter como finalidade restaurar o funcionamento da Constituição, a legitimidade do poder, promovendo um expurgo daqueles que a violaram. A guerra jurídica que a PGR, que o Judiciário e que delegados da PF movem contra os seus inimigos é ampla e diária, uma guerra sem quartel, e que conta com vários tipos de iniciativas, antecipações de processos e ilegalidades. 

Pelo outro lado, as elites predatórias, através do governo Temer e do Congresso eleito pelo poder econômico, estão destruindo toda estrutura da política social e científica do Brasil, assim como os direitos trabalhistas e o conteúdo estratégico nacional da economia. O objetivo é claro: aprofundar a condição do Brasil de país de mão de obra barata e abundante e desprotegida de direitos para que ela seja usada por multinacionais, repetindo aquilo que a China foi no passado. Ocorre que a China tinha um projeto estratégico de industrialização e de inserção global, algo que o Brasil não tem. Na China, o processo foi comandado por um Estado forte, exigindo contrapartidas tecnológicas, e aqui os trabalhadores estão sendo entregues de bandeja à sanha do capital.

Hoje existem no país 106 milhões de pessoas que vivem com até um salário mínimo,sendo que destes 50 milhões vivem com até R$ 387 por mês e 15 milhões com até R$ 100. A devastação da mão de obra brasileira será ainda maior se triunfarem os projetos do PSDB e do centrão, do MDB ou do Bolsonaro. Os empregos serão de curta duração, os salários serão ainda mais baixos, o desemprego alto e os direitos ainda mais precários. A par disso, o petróleo, a água, a Amazônia e os minérios continuarão sendo entregue para a rapina do capital internacional. Este é o projeto que está em curso e que conta com o respaldo da elites do funcionalismo público, dos juízes, dos procuradores, dos delegados e de alguns generais. 

As condições de vida, de trabalho e de renda, o desemprego, estão levando as pessoas ao desespero social, a um beco sem saída existencial. A expansão do crime organizado e as explosões sociais tendem a se multiplicar. A degradação social está se tornando generalizada. Trata-se de condições de vida insuportáveis e inaceitáveis. Diante disso, é preciso estabelecer uma ligação ampla, sólida e organizada entre os perseguidos políticos e os excluídos sociais, pois o que está em jogo é a sobrevivência ou uma vida miserável, a luta ou a perda da dignidade. Manter Lula na  cadeia e impedido de concorrer também é um elemento da estratégia para alargar o contingente da mão de obra barata e sem direitos. Assim, o Judiciário e as elites predatórias e seus serviçais no Estado e na grande mídia estão empurrando o Brasil para uma única saída: a rebelião.

Algo de muito errado aconteceu com o Brasil porque foram feitas coisas muito erradas. Num futuro próximo isto terá que ser analisado e criticado. Quando, na política, pontificam e têm espaço tipos como Bolsonaro, Cabo Dalciolo, Álvaro Dia, Amoedo e que tais, é porque a alma cívica do país ou está muito doente ou já está morta. A expulsão de venezuelano, o assassinato de mulheres, a violência generalizada são sintomas da nossa morte cívica.

É preciso reagir com vigor e barrar esse processo inescrupuloso  e criminoso de destruição do Brasil e da dignidade do seu povo. É melhor lutar com coragem do que morrer sem dignidade. O medo da degradação e da morte indigna deve nos atormentar todos os dias. Existem altas razões que nos indicam que devemos temer o pior para o Brasil e para seu povo. Mas temer o pior, na maior parte das vezes, é a condição principal para combater, enfrentar o mal. Temos razões para estar aflitos. E não raras vezes, a coragem nasce dos temores que afligem os nossos corações.

*Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).