"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados." ― Vladimir Herzog

Obrigado pelo acesso ao nosso blog
!

Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.

Painel Paulo Freire, obra de Luiz Carlos Cappellano.
#PauloFreireMereceRespeito #PatonoDaEducaçãoBrasileira #PauloFreireSempre

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Para refletir: “Todo filho é pai da morte de seu pai” por Fabrício Carpinejar

Todo filho é pai da morte de seu pai

“Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: e

— Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.”



GGN: Lula empurra Haddad do 7º para o 2º lugar em pesquisa

Quando o eleitor é informado de que Fernando Haddad é o candidato de Lula à Presidência, o ex-prefeito de São Paulo salta do sétimo para o segundo lugar, e fica a 8 pontos de distância de Jair Bolsonaro, que lidera a corrida presidencial com 21% das intenções de voto quando o ex-presidente não está no páreo.

A pesquisa XP Investimentos/Ipespe mais recente, feita entre 6 e 8 de agosto, mostra Haddad saltando de 3% dos votos para 13% quando o eleitor é informado de que ele tem o "apoio explícito de Lula". Quando o apoio é "efetivo", Haddad salta de 10% para 36%, diz a Infomoney desta sexta (10).

Com Lula, o PT lidera com 31% dos votos, seguido por Bolsonaro (19%), Geraldo Alckmin (9%), Marina Silva (8%), Ciro Gomes (6%), Álvaro Dias (5%). O voto de 17% do eleitorado não vai para candidato nenhum, neste cenário. 

A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

O Essencial: Lava Jato entrega 1 bi à Petrobras, depois de gerar prejuízo que pode ter chegado a 160 bi

Equipe da Lava Jato
A força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná registrou nesta quinta-feira (9) a devolução de cerca de R$ 1 bilhão à Petrobras, por meio de acordos de colaboração premiada e leniência. Este é o maior valor já ressarcido à estatal de uma única vez.

A notícia saiu Folha e o G1 e deve ser divulgada com bastante destaque em outros veículos da velha mídia, aliada da Lava Jato.

Os tolos certamente aplaudirão, sem se darem conta de que o valor corresponde a menos de 10% do valor provisionado para reembolsar os investidores americanos, num acordo que foi celebrados nos Estados Unidos antes que a estatal brasileira fosse condenada em processo aberto pelos escândalos gerados pela força tarefa.

Desde 2014, quando se iniciou a operação Lava Jato, comandada pelo procurador Deltan Dallagnol e pelo juiz Sérgio Moro, até este ano, a Petrobras já registrou uma redução no seu patrimônio de R$ 160 bilhões, como registrou o jornal Valor Econômico desta em março.

No ano passado, a Petrobras teve seu quarto prejuízo anual consecutivo, quando registrou perdas de R$ 466 milhões, impactada pelo provisionamento de R$ 11,2 bilhões para pagar investidores dos Estados Unidos.

O valor de mercado da companhia hoje é de R$ 292,4 bilhões e o patrimônio líquido vale R$ 269,6 bilhões; em 2013, antes da Lava-Jato, o patrimônio líquido era de R$ 350 bilhões



A farsa democrática brasileira e o debate na TV, por Gustavo Gollo

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

História: A eleição de 1986, a adoção do voto para os não alfabetizados

247: Fascismo judicial para banir Lula da TV

Se impedir Lula de participar do debate na BAND no próximo 9/8, o judiciário de exceção estará cassando os direitos políticos do Lula, realidade típica a um prisioneiro político.

Lula, como todos os demais candidatos convidados pela BAND, foi legalmente indicado pelo PT em convenção partidária que cumpriu todos os ritos da legislação eleitoral.

O registro formal das candidaturas no TSE se encerra no dia 15/8, quando então se abre o prazo para impugnações no âmbito da justiça eleitoral.

De 5/8 a 15/8, portanto, Lula é tão candidato quanto os demais 13 postulantes ao cargo presidencial convidados para o debate na BAND.

Não há, na Constituição e nas Leis brasileiras, impedimento a qualquer cidadão preso sem sentença condenatória transitada em julgado ser candidato a cargo eletivo. Isso significa que a pessoa que estiver presa sem sentença na última instância judicial, preserva seus direitos civis de votar e ser votado.

O candidato, nessa qualidade, tem o direito de exercer as prerrogativas de candidato, como, por exemplo, apresentar suas propostas e defendê-las em debates.

Somente em regimes fascistas alguns cidadãos são tratados como menos iguais que todos os outros devido às suas crenças religiosas e políticas, preferências ideológicas ou raça.

Caso o judiciário de exceção confirme mais uma violência fascista contra Lula vetando sua participação em debates, a BAND não terá outra alternativa que não seja a de garantir a representação do Lula por meio do seu candidato a vice-presidente, Fernando Haddad.

*Jeferson Miola é integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial



segunda-feira, 6 de agosto de 2018

El País: O que diria hoje Jesus aos candidatos e eleitores brasileiros?

'Os políticos que hoje buscam apoio de pastores e padres poderiam se enquadrar no perfil dos “falsos profetas”.'

Por  
Mais de 80% dos brasileiros que irão em outubro às urnas são de fé cristã, entre católicos e evangélicos. Os ateus quase não existem neste país. Os candidatos às eleições presidenciais ou são de origem cristã ou fingem, pois todos eles procuram igualmente neste momento as bênçãos de bispos e pastores, prostrando-se em templos e catedrais, já que um punhado de votos bem vale uma missa.
 
Mas esses mesmos políticos que procuram proteção sob os altares talvez não gostassem de escutar algumas frases, duras como pedras, pronunciadas há quase 2.000 anos por Jesus Cristo contra “os falsos profetas”, de quem dizia: “Vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores”. Como reconhecê-los? Não só por suas promessas que podem ser vazias ou repletas de hipocrisia, mas por seus feitos. “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos?” (Mt.7,16)
 
O cristianismo primitivo se inspirava nas atitudes que haviam guiado a pregação do Mestre, sobretudo em sua insistência contra o farisaísmo, a hipocrisia e os que enganam as pessoas simples. Jesus gostava do sim ou do não. “Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te”, recorda o Apocalipse (3,15).
 
Se analisássemos essas afirmações taxativas das Escrituras e as aplicássemos a muitos dos candidatos que se dirigem às pessoas em busca de seu voto, veríamos que continuam atuais. Continuam vigentes os disfarces, por exemplo, de candidatos que cresceram e prosperaram na velha guarda do conservadorismo, do patrimonialismo, do caciquismo, e hoje se apresentam disfarçados de “políticos renovados”, de novos redentores. Acaso os espinheiros podem dar uvas?
 
Candidatos que se apresentam como os paladinos da moral e dos bons costumes e não têm vergonha de confessar que o dinheiro do auxílio-moradia do qual desfrutaram durante anos em Brasília sem dele precisar foi usado “para comer gente”, eufemismo para pagar prostitutas.
 
Candidatos incapazes de serem frios ou quentes para conseguirem agradar a todos, e que acabam provocando vômito, na gráfica expressão da Escritura. Candidatos que, como canta Gilberto Gil, com palavras dizem sim e com os fatos dizem não. Melhor os que são capazes de confessar que ninguém tem a pedra filosofal para resolver todos os problemas acumulados em anos de governos incompetentes ou ambiciosos, e que não oferecem mais do que acreditam que poderão realizar.
 
Os representantes das igrejas católicas e evangélicas deveriam estar atentos ao oferecerem acolhida e apoio em seus templos, às vezes no anonimato da noite, àqueles políticos que em vez de irem se inspirar na fonte dos Livros Sagrados comparecem como mercadores de votos. Para eles há também uma passagem dura do Evangelho: quando Jesus, ao entrar no templo de Jerusalém e ver os vendedores fazendo comércio com os fiéis pobres, depois de ter jogado as mesas no chão os repreendeu e lhes disse: “Minha casa é uma casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões” (Mt.21,12ss). Os estudiosos das escrituras, tanto católicos como protestantes, concordam que foi aquele gesto contra o comércio do sagrado a gota d’água que levou as autoridades do templo, em conivência com as autoridades civis romanas, a acabarem com a vida do profeta incômodo.
 
Às massas de cristãos que vão aos templos e escutarão neste período de seus pastores religiosos os chamados para votar nos políticos, a essas massas de gente pobre sempre à espera de um milagre que redima suas penas, a elas é preciso recordar que nessa Bíblia que está nas mãos de seus guias espirituais há uma passagem do profeta Ezequiel, dirigida aos governantes e que hoje parece de uma pungente atualidade. Sobre eles, diz:
 
“Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras.” (Ez.34,4ss)
 
O Brasil precisa com urgência encontrar alguém capaz de sentir o clamor dos que procuram quem possa reconciliar o país, que seja guia sobretudo dos que sofrem o abandono, dos mais expostos aos perigos de serem devorados por uma política capaz de olhar só para o próprio umbigo, esquecendo-se do que realmente esta sociedade, embora irada e dividida, parece estar procurando em vão.
 

GGN: O quadro de candidatos na conjuntura confusa


O quadro de candidaturas à sucessão presidencial se fechou no final de semana imerso numa densa neblina de incertezas acerca de seu desfecho. Grosso modo, pode-se dizer que existem três vértices: 1) à direita, Bolsonaro e Alckmin; 2) ao centro, Marina Silva, Álvaro Dias e Henrique Meirelles, mais Amoedo; 3) à esquerda, Lula, Ciro Gomes e Guilherme Boulos. Claro, existem mais alguns candidatos. Dentre os citados aqui, os que parecem estar no jogo são Lula, Alckmin, Bolsonaro, Marina e Ciro. Álvaro Dias tem alguma chance remota de surgir como azarão. Meirelles é o candidato do governo Temer. Alckmin é o candidato do sistema, do establishment, do mercado, dos bancos, das elites e da estrutura de poder que articulou o golpe contra Dilma. Bolsonaro é o candidato do grupos neofascistas e de uma massa desencantada, disforme e dispersa, portadora de uma mentalidade radicalizada que julga ser necessário o uso da força para resolver os problemas do Brasil.

O principal adversário de Alckmin, no primeiro turno, será Bolsonaro. O tucano age para esvaziar a sua candidatura. Por isso, capturou a senadora direitista e fascistóide do Rio Grande do Sul como candidata a vice. Ana Amélia (PP) fazia parte de uma coligação pró Bolsonaro no estado. Alckmin e Bolsonaro não irão juntos para o segundo turno. O mais provável é que o capitão seja desidratado e destruído pela mídia engajada na candidatura do sistema. Nos demais itens que contam em campanhas eleitorais, o tucano leva uma vantagem enorme: estrutura de campanha, apoio nos estados, tempo de TV e rádio, apoio econômico etc. Na área da segurança pública, tema caro a Bolsonaro, Alckmin tem números invejáveis para se contrapor às veleidades do ex-militar. Assim, mesmo com o risco de indicar uma tendência, no campo da direita, esta aponta para uma passagem de Alckmin para o segundo turno.

No campo da esquerda, se Lula estiver na urna, a fatura estará decidida. Ao contrário do que dizem várias análises, é improvável que vença no primeiro turno. O jogo será brutal. Mas, tudo indica que a candidatura Lula será ceifada pelo TSE ou pelo STF. É preciso entender que hoje o centro operacional do golpe está no Judiciário, que vem indicando sinalizações ferozes de que agirá para proteger o sistema e seu candidato. A jurisprudência indica que Lula tem o direito de ser candidato, mesmo com a inconstitucional lei da Ficha Limpa, sancionada pelo ex-presidente e estimulada pelo PT. Mas o Judiciário já rasgou a Constituição, pisoteou as leis e jogou a jurisprudência no lodo. 

Sem Lula, o jogo ficaria mais complicado. Provavelmente, Lula seria substituído por Haddad, indicado a vice, que é pouco conhecido nacionalmente. O período da campanha é curto e o tempo de TV do PT não é elástico. Na estratégia do PT conta-se muito com a tese de transferência de voto de Lula para o seu substituto. Não é simples. Mais do que grandes eleitores, o que mais define a chamada transferência de voto são as condições conjunturais. Ela funciona melhor quando um governante bem avaliado está saindo do governo e apóia um apadrinhado. Foi assim que funcionou com Dilma em 2010.

Já, Haddad, em 2012, na eleição para a prefeitura de São Paulo, não foi um poste eleito por Lula. Grosso modo, existem dois tipos de conjunturas eleitorais: a conjuntura da conservação e a conjuntura de mudança. Como regra, nas conjunturas de conservação o governante se reelege ou elege o sucessor ungido por ele. O eleitorado quer continuidade. Nas conjunturas de mudança, o eleitorado tende a escolher aquele candidato que melhor encarna a ideia de mudança. Haddad, fundamentalmente, se elegeu prefeito porque expressou melhor a aspiração de mudança do eleitorado paulistano. 

A conjuntura atual é confusa. O atual quadro de intenções de voto é frágil, com grande número de indecisos. Se a campanha, que será acompanhada por alto grau de descrença, não for capaz de produzir forte polarização entre dois candidatos, poderá ocorrer uma situação de empate técnico entre três ou quatro candidatos na reta final do primeiro turno.

Há que se acrescentar ainda o seguinte: se Lula for retirado da disputa pela consumação do golpe, o mais provável é que permaneça preso. Assim, não estará junto com o substituto nas ruas para imantá-lo com seu poder magnético, fator que enfraquece a transferência. É improvável também que o deixem gravar propaganda de rádio e TV. O candidato do PT teria pouco tempo para afirmar a sua liderança e para construir-se como personalidade política nacional durante a campanha. Isto teria que ter sido feito com antecedência e este foi o ponto falho na acertada estratégia do PT de manter a candidatura Lula. 

Se a candidatura Lula for imolada no altar de Adikia, Deusa da Injustiça, o Brasil será recoberto com as trevas de um temor terrificante de acontecimentos sombrios. O voto de Lula tenderá a se dispersar, distribuindo-se, principalmente, entre o candidato do PT, Ciro e Marina. O fato é que a esquerda está pulverizada e enfrentará um bloco forte da direita aglutinado em torno de Alckmin. Ciro terá alguma chance de passar para o segundo turno se o substituto de Lula não decolar e, Marina, se Alckmin não se viabilizar.

A tática adotada pelo PT, de isolar Ciro Gomes, poderá trazer importantes prejuízos ao campo progressista e ao próprio partido. A militância de base e a máquina do PSB não ficarão neutros na campanha: se distribuirão em apoio ao PT, a Ciro e a Alckmin. O PT não ganhou praticamente nada além do que já tinha do PSB e cortou a cabeça de Marília Arraes em Pernambuco, desmotivando a militância e a juventude, num momento em que o Brasil e o próprio PT precisam desesperadamente de lideranças jovens. A retirada da candidatura do PSB em Minas Gerais, se ocorrer, nada acrescenta ao PT e poderá até abrir brechas para que os tucanos vençam no primeiro turno.
 
Se o PT quiser ter alguma chance, remota, de ver o nome de Lula na urna eletrônica precisa agir depressa e não só com uma equipe de advogados. Precisa agir nas ruas, nos mercados públicos, nos estádios de futebol, onde houver aglomerações populares. Só haverá alguma chance de Lula permanecer candidato se os juízes dos tribunais superiores forem intimidados pelo clamor popular. Sim, intimidados, porque este é o único jogo que eles entendem na sua sanha persecutória, no seu papel de pretorianos do sistema injusto e cruel, instalado no Brasil. Em política, mesmo no regime democrático, quem não se fizer respeitado e temido, terá que agir intimidado.

E se a direção do PT não agir para fazer o Brasil tremer por um clamor popular pela candidatura Lula, confirmará que é uma direção de pusilânimes, de carpideiras que lamentam a tragédia de Lula, mas sempre pronta a agir com realismo oportunista para preservar os seus interesses e o seu poder. Mostrará que o discurso de defesa de Lula não passa de um faz de conta, assim como foi com outros líderes petistas queimados na fogueira da história.

Quanto aos juízes dos tribunais superiores, eles parecem ter se tornado amantes da Disnomia, pois, além da desordem social, querem que o Brasil se afunde no abismo da discórdia política, cuja consequência é só uma: a violência política generalizada. Os juízes serão responsáveis por agravar a ilegitimidade das instituições e do futuro governo se impedirem a candidatura Lula. Neste caso estarão agindo para dar uma vitória a candidatos da direita, mas cobrirão o futuro governo de ilegitimidade.

Um governo ilegítimo não trará prosperidade econômica, pois governará sob a espada da exasperação dos conflitos e da contestação. Um governo ilegítimo não trará a paz social que nunca houve. Um governo ilegítimo será a fagulha da grande fogueira de ódios e desavenças nos próximos anos. O povo está emitindo sinais de exaustão, de impaciência, acerca de sua condição trágica. Uma nova geração de líderes está nascendo. Líderes pouco dispostos a aceitar a brutalidade que as elites, o Judiciário, o Estado e o sistema perpetram contra o povo. A situação está chegando num ponto em que a indignação está deixando de ser calada e passiva. A crueldade contra o povo e suas misérias exigem que a indignação se transforme em fúria da mudança.

*Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)


DCM: A moral e os bons costumes dos cidadãos de bem que atiram suas mulheres do 4º andar

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Capes diz que orçamento previsto para 2019 só paga bolsas até agosto

Por Jonas Valente 
Repórter da Agência Brasil/Brasília
Ofício enviado ao MEC nesta quarta-feira 1º
O Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) enviou nota ao Ministério da Educação alertando que, se for mantido o orçamento previsto para o órgão em 2019, haverá a suspensão das bolsas de pós-graduação e de programas de formação de professores no mês de agosto.

O Projeto de Lei Orçamentária Anual para 2019 ainda não foi divulgado oficialmente pelo governo federal. O prazo para envio ao Congresso termina em 31 de agosto próximo. No documento, enviado ontem (1º), o conselho pede ao ministro Rossieli Soares da Silva que defenda o orçamento da pasta, que estaria ameaçado.

De acordo com a nota, assinado pelo presidente do órgão, Abílio Neves, “foi repassado à Capes um teto limitando seu orçamento para 2019 que representa um corte significativo em relação ao próprio orçamento de 2018, fixando um patamar muito inferior ao estabelecido pela LDO”.

Em razão da insuficiência de recursos, poderá haver suspensão das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado a partir de agosto de 2019, afetando 93 mil estudantes e pesquisadores. A interrupção dos repasses, no mesmo mês, para os programas de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), de Residência Pedagógica e de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) atingiria 105 mil bolsistas.

De acordo com o ofício, haveria consequências também para o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e o programa de mestrado profissional para professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB). Mantido o orçamento destinado à Capes, em agosto do ano que vem deixariam de receber 245 mil beneficiados, entre alunos e bolsistas.

A Agência Brasil entrou em contato com a Capes, que confirmou que a nota trata do orçamento do ano de 2019, mas não detalhou quais seriam os valores. A reportagem contatou o Ministério da Educação. A assessoria da pasta respondeu: " Não é o MEC quem define orçamento do governo federal. O Ministério do Planejamento que envia os limites para os órgãos do governo federal".

O Ministério do Planejamento, por meio de sua assessoria, respondeu à Agência Brasil que estabelece, para cada um dos ministérios, os limites pra elaboração do orçamento. "A partir de então, cada ministério tem a responsabilidade de definir a distribuição dos recursos entre suas unidades, respeitando suas estratégias de ação. Essa regra vale para todos os ministérios, ou seja, vale também para o Ministério da Educação, que tem autonomia para decidir como vai aplicar seus recursos".

Segundo a assessoria, "os recursos para o Ministério da Educação estão acima do mínimo constitucional em 2018 e os referenciais monetários para 2019 também preveem recursos acima do limite constitucional.  Não podemos desconhecer que o país vive grave crise fiscal. Ela afeta todo o governo, inclusive o Ministério da Educação. Cabe ao Ministro da Educação distribuir os recursos segundo suas prioridades".



A estrela sobe

'O cenário que se esboça é a repetição da disputa entre esquerda e direita que ocorre desde as eleições de 1994: de um lado o PT e seus aliados, com um programa de governo inovador e, de outro, PSDB e Centrão' 

Lula
A estratégia do PT de manter a candidatura de Lula, mesmo ele estando preso, está se revelando frutífera do ponto de vista eleitoral. Em primeiro lugar, a campanha de denúncia e de luta contra o processo judicial arbitrário, sem provas, altamente politizado, enfim, que o levou à prisão é uma posição de resistência política fundamental contra a deterioração do Estado Democrático de Direito associada ao golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016. Em segundo lugar, a criminalização do PT e a exclusão política da candidatura de Lula são as principais motivações da marcha à direita em curso no país, de modo que o PT apostou, e considero que o fez corretamente, na exploração de todas as possibilidades políticas e institucionais de resistência possíveis, usando o próprio processo eleitoral como um caminho singularmente fértil para maximizar a luta contra o arbítrio e, assim, fortalecer seu cacife para o pleito presidencial de 2018.

Na última pesquisa Vox Populi/CUT, Lula tem 41% das intenções de voto. O segundo colocado, Jair Bolsonaro (PSL) aparece bem distante, com apenas 12%. Como disse um humorista recentemente, o candidato preso está com a vida bem mais fácil que os candidatos livres, que suam a camisa percorrendo o Brasil, mas não chegam a ameaçar o petista. Nesse cenário, Lula venceria já no primeiro turno.

Mas há também duas novidades importantes no campo progressista. A primeira é que, confirmada a cassação do registro da candidatura de Lula ou mesmo, em caso mais grave ainda, se esse próprio registro for casuisticamente negado pelo TSE, as tendências apontam para o aumento de sua capacidade de transferência de votos para outro candidato, mecanismo que já ocorreu nas eleições de 2010, 2012 e 2014: a eleição e reeleição de Dilma Rousseff e a eleição de Fernando Haddad.

Há cerca de um mês, uma pesquisa eleitoral feita por encomenda da XP Investimentos constatou que se a candidatura de Haddad, por exemplo, for apresentada isoladamente, reúne 3% das preferências, mas esse número sobe para 11% se o candidato for vinculado a Lula. Há dez dias, a Vox Populi mensurou que a capacidade de transferência de Lula, nesse momento, varia entre um mínimo de 20% até um teto de 32%. Esse quadro colocaria o eventual Plano B do PT no segundo-turno. Dois terços dos eleitores de Lula tendem a votar em quem ele indicar.

A outra novidade importante que impacta no campo progressista é o revés enfrentado, no momento, pela candidatura de Ciro Gomes em função do Centrão (PP, PR, DEM, PRB e SD) ter recuado em apoiá-lo e estar negociando o apoio a Geraldo Alckmin. Embora hoje, como nunca antes na história nacional, tudo que era sólido se desmancha no ar e, por isso, a previsibilidade está um tanto quanto pressionada pela volatilidade, não é pouca coisa essa reação da direita neoliberal mais orgânica, capitaneada pelo PSDB, para fazer frente ao Bolsonaro. Desenha-se uma forte candidatura alternativa de direita à extrema-direita, inclusive pelo tempo de TV que pode arregimentar. A maré conservadora é forte, mas, como seu programa tem pouco a oferecer à Nação, essa força pode ser um mero castelo de areia.

Por outro lado, a esquerda enraizada na base popular e competitiva para governar não está sangrando, pelo contrário, a estrela petista sobe. O programa de governo da candidatura Lula, coordenado por Fernando Haddad, começou a ser divulgado. Contém propostas inovadoras, que, por um lado, motivam a militância, por outro lado, representam alternativas ao caos econômico e político nacional: a revogação da emenda constitucional do teto de gastos e da reforma trabalhista, o aumento da oferta de crédito, inclusive por meio da redução do spread bancário pela via da política tributária e o incentivo à democracia direta prevista na Constituição de 1988, com os plebiscitos e referendos.

Enfim, prevalecendo o cenário desenhado nesse artigo, se repetirá a estrutural disputa entre esquerda e direita que ocorre desde as eleições de 1994: a efetiva competição será entre, por um lado, PT e seus aliados e, por outro lado, PSDB e o Centrão. Uma virada política à esquerda está sendo construída e se revelando factível de viabilizar-se em 2018. Mas toda a perseverança e a inteligência política são poucas para garantir essa vitória que poderá tirar o país do fundo do poço e  resgatar a democracia maltratada pela ofensiva conservadora. Um pacto de não agressão e uma ponte de diálogo entre os progressistas precisam ser cultivados. Boas ideias para a economia também são fundamentais.

*Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia.



DCM: “Essa afirmação é um completo absurdo”, diz escritor sobre Bolsonaro afirmar que portugueses não pisaram na África

Laurentino Gomes. Foto: Divulgação/Twitter
O Essencial - O jornalista a escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, falou sobre a declaração de Bolsonaro, que afirmou que os “portugueses nem pisaram na África”. Postou no Twitter, com recomendação bibliográfica:

Essa afirmação é um completo absurdo, assustadora vinda de um homem que pretende ser presidente do Brasil. Precisa estudar história e saber que só em Angola os portugueses ocuparam um território superior a 2,5 milhões de km2, quase um terço das dimensões do Brasil de hoje.

Para quem acha, como Jair Bolsonaro, que os portugueses não entravam na África para capturar escravos, aqui vão algumas sugestões de leitura: 

1 – ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

2 – BOXER, C.R. Salvador de Sá and the struggle for Brazil and Angola, 1602-1686. London: The University of London/The Athlone Press, 1952 

3 – CALDEIRA, Arlindo Manuel. Escravos e traficantes no Império Português: o comércio negreiro português no Atlântico. Lisboa: Esfera, 2013

4 – CANDIDO, Mariana P. An African slaving port and the Atlantic World: Benguela and its hinterland. New York: Cambridge University Press, 2013 

5 – CAPELA, José. Conde de Ferreira & Cia: traficantes de escravos. Porto: Edições Afrontamento, 2012

6 – CONRAD, Robert Edgar. Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985 

7 – FERREIRA, Roquinaldo. Cross-cultural exchange in the Atlantic World: Angola and Brazil during the era of the slave trade. New York: Cambridge University Press, 2012

8 – FLORENTINO, Manolo Garcia. Em costas negras. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995 

9 – LAW, Robin. The Slave Coast of West Africa, 1550-1750. The impact of the Atlantic Slave Trade on the African society. Oxford: Clarendon Press, 1991

10 – LOVEJOY, Paul E. Transformations in slavery: a history of slavery in Africa, second edition. New York: Cambridge University Press, 2000 

11 – MILLER, Joseph C. Way of Death: merchant capitalism and the Angolan slave trade. Madison: The University of Wisconsin Press, 1988